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Taça de Portugal. Nas meias com a benção do Diego Costa das Caldas

Taça de Portugal. Nas meias com a benção do Diego Costa das Caldas

Bruno Venâncio 11/01/2018 09:30

O jogo destes quartos-de-final que melhor encarnou o espírito de Taça teve lugar no mini-Jamor das Caldas da Rainha. No campo da Mata travou-se uma verdadeira batalha, mas os caldenses levaram a melhor sobre os algarvios de Faro. Segue-se o Aves nas meias inéditas

Ponto prévio: este texto foi escrito tendo como pano de fundo um dos mais bonitos estádios do país. O jornalista que o assina visitou pela primeira vez o Campo da Mata e pôde constatar que o espaço faz, de facto, justiça à alcunha de mini-Jamor que os habitantes das Caldas da Rainha tão orgulhosamente defendem. A extraordinária vista da bancada central, com as árvores da Mata a ser abraçadas pelo estrondoso cenário de fim de tarde no horizonte caldense, é de um romantismo quase inexplicável.

Quem ali marcou presença não mais se esquecerá; é pena que o futebol moderno não se compadeça com romantismos e que os milhares de pessoas que não se puderam deslocar ao recinto tenham sido privadas da transmissão televisiva – a primeira vez que tal aconteceu nesta fase da Taça de Portugal desde 2009. “Falta de condições do estádio”, justificou-se a televisão que transmite os outros três jogos dos quartos-de-final. Num recinto com capacidade para sete mil espetadores, e em condições no mínimo iguais a muitos de clubes que se encontram na I Liga, a explicação oficial deixa muito a desejar. Para não falar da atenção e das condições providenciadas aos jornalistas e demais profissionais, a fazer inveja a muitos clubes de topo. É mesmo preciso ir ao futebol a sério mais vezes.

Cansaço? Não se viu nada...

De todos os encontros destes quartos-de-final, o Caldas-Farense era o que melhor encarnava o espírito da Taça de Portugal. Pela frente, duas equipas com historial no futebol nacional mas que se encontram há muitos anos afastadas da ribalta e que tinham agora a possibilidade de garantir um lugar nas meias-finais da prova-rainha – um patamar onde nenhuma equipa do terceiro escalão chegava desde 2001/02, quando o Leixões surpreendeu tudo e todos e só parou no Jamor (0-1 frente ao Sporting).

O Caldas, equipa amadora que vai fazendo uma época tranquila na Série D do Campeonato de Portugal (oitavo), queixava-se de cansaço motivado por uma desgastante viagem aos Açores para defrontar no domingo o Guadalupe. Sinceramente, não se notou nada: os caldenses foram os reis do arreganho, da raça e da determinação. Do Farense, esperava-se mais. Os algarvios lideram confortavelmente a Série E do mesmo campeonato e têm uma equipa recheada de jogadores de qualidade comprovada, com experiência de competições europeias e até de seleções nacionais (Jorge Ribeiro e Neca são internacionais por Portugal, Hugo Marques por Angola).

No campo, porém, nada disso se notou. A espaços, de facto, a qualidade técnica de alguns jogadores da equipa algarvia sobressaiu, mas no geral foi sempre o Caldas a procurar mais a vitória e a mostrar que estava mesmo decidido a fazer felizes os mais de 5 mil adeptos que disseram “presente” – aos quais se juntaram mais algumas centenas de farenses. Antes do apito inicial, um momento insólito, com o “speaker” do Caldas a anunciar os prémios que seriam entregues pelos patrocinadores da equipa a quem marcasse os golos do clube. A saber: 500 euros para o marcador do primeiro golo e 300 para quem fizesse os seguintes. Que linda é a festa da Taça!

Na primeira parte, praticamente só deu Caldas. Particularmente devido à ação de dois meninos que podem vir a dar que falar no nosso futebol: o brasileiro Ryan (20 anos) e o portuguesíssimo João Rodrigues, Tarzan no mundo da bola (23 anos), que tem sido o herói dos caldenses nesta caminhada – marcou ao Arouca e à Académica, ambos jogos ganhos pelo Caldas no desempate por grandes penalidades.

Por esta altura, outro homem dava nas vistas... mas por outros motivos. Pedro Emanuel, o ponta-de-lança do Caldas, mostrava pouca habilidade com a bola nos pés, mas muita disponibilidade para o confronto com os adversários – um estilo muito característico de Diego Costa, o hispano-brasileiro que agora regressou ao Atlético de Madrid. Perdeu-se a conta às picardias que comprou com defesas – e médios – do Farense, e durante muito tempo tudo indicava que fosse essa a sua grande contribuição para o jogo do Caldas. Puro engano, como se viria a perceber mais tarde.

Livramento queria, Neca não deixou

Contra tudo o que tinha acontecido na primeira parte, o segundo tempo começou com o Farense a marcar. Leo Tomé esgueirou-se pelo flanco esquerdo, o cruzamento passou por toda a área caldense e, ao segundo poste, o baixinho Livramento apareceu a cabecear para o golo. Soltava-se a festa dos algarvios... que durou oito minutos. Num lance em tudo semelhante, Januário respondeu de cabeça a cruzamento de Ryan e recolocou o empate na partida aos 56’.

Por esta altura, a capacidade técnica dos consagrados do Farense começava a fazer a diferença e o Caldas parecia estar a acusar o cansaço. Foi nesse contexto que Livramento voltou a faturar, picando a bola à saída do guardião Luís Paulo após passe sublime de Jorge Ribeiro. Faltava meia hora para o fim.

A partir daqui, Pedro Emanuel roubou a cena. Aos 70’, na enésima picardia com Neca, viu amarelo mas conseguiu também amarelar o capitão do Farense. Na jogada seguinte, num lance às três tabelas na área algarvia, cabeceou para o fundo das redes farenses após insistência. Diego Costa “all the way”.

Rui Duarte, técnico do Farense, respondeu, pondo em campo os avançados Tavinho e Jorginho. As alterações foram acertadas – a dupla trouxe velocidade e acutilância ao ataque algarvio... mas esqueceu-se da eficácia em Faro. Já no prolongamento, Jorginho teve duas oportunidades enormes para faturar, mas desperdiçou-as de forma pouco compreensível.

Até que, aos 97’, surgiu o momento que acabou por se revelar decisivo: Neca viu o segundo amarelo, por falta sobre... isso mesmo, caro leitor: Pedro Emanuel, pois claro. Refira-se, todavia, que o capitão do Farense andou a arriscar a expulsão durante muito tempo: foram mais de uma dúzia as faltas que cometeu durante o encontro. O trinco André Ceitil saltou para o campo, por troca com Livramento – que esteve tão perto de ser herói –, e o tão desejado golo acabou por surgir a quatro minutos no fim, em mais um lance atabalhoado na área do Farense. Tarzan conduziu a jogada, vários ressaltos se sucederam e a bola acabou por sobrar para Pedro Emanuel, que isolado na cara de Hugo Marques atirou a contar. Dois golos nos quartos-de-final da Taça, 600 euros no bolso e o estatuto de herói para toda uma cidade que nunca viu o seu clube nestas andanças. Nada mal para um rapaz de 36 anos de Vieira de Leiria que tinha... zero golos marcados esta época.

Emoção, incerteza no marcador, golos, arrancadas, picardias, expulsões e a festa no fim. Aconteceu Taça nas Caldas e foi muito, muito bonito.

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