20/4/18
 
 
Carlos Zorrinho 10/01/2018
Carlos Zorrinho
opiniao

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Admirável Mundo Novo

A revolução científica e tecnológica tem que servir todos e não apenas uma bolha de privilegiados

A Inteligência Artificial (IA) saiu das torres de marfim das universidades, dos centros de investigação científica e dos grandes laboratórios tecnológicos e desceu ao povoado, embebendo-se na vida real das pessoas, com a generalização de aplicações que têm a ver com a vida quotidiana.

Ao mesmo tempo, o seu impacto no futuro da humanidade gerou estimulantes e complexos debates políticos, jurídicos e éticos não apenas entre os especialistas mas também entre o grande público, motivado pela disponibilização de artigos e ensaios nos jornais, filmes, livros de divulgação e thrillers na fronteira entre a ficção científica e a fronteira da realidade.
Com sentido de oportunidade, a RTP está a emitir por estes dias uma série de prospetiva científica e tecnológica intitulada “2077 - 10 segundos para o futuro”, em que se debate de vários ângulos como poderá evoluir a sociedade nos próximos 60 anos (ou 10 segundos no calendário cósmico). Pelo que vi até ao momento em que escrevo é uma série meritória e que recomendo. 

Na série documental da RTP e em muitas outras, os gurus do futuro elaboram sobre as estimulantes oportunidades que as grandes evoluções na física e na biologia proporcionam à sociedade, em áreas tão diversas como a organização económica e social, a saúde e o bem-estar, a compreensão do mundo que nos rodeia e as possibilidades de expansão da nossa civilização até limites que desafiam a imaginação. 

Em resultado da profunda aceleração tecnológica gerada pelas novas capacidades de recolha, processamento, transmissão e uso dos dados, da sofisticação dos sensores e do aperfeiçoamento dos algoritmos, anuncia-se o alvor de tempos extraordinários. Em simultâneo, convivemos diariamente com uma realidade global marcada pela pobreza, pelo abandono, pela insegurança e pela falta de expetativas em que está mergulhada uma larga percentagem da população mundial.

Este contraste constitui um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Um paradoxo que a ciência e a tecnologia por si só não terão capacidade de desfazer.

 Saudemos a chegada de um admirável mundo novo, como em gerações passadas os nossos ancestrais também o fizeram, no caminho inexorável da humanidade para o progresso e para o conhecimento, mas não nos deixemos deslumbrar. A revolução científica e tecnológica tem que servir todos e não apenas uma bolha de privilegiados. 

No passado sempre existiram civilizações que partiram primeiro que outras. Hoje vivemos numa civilização fraturada mas global, em que o tempo deixou de separar os territórios e as comunidades.

Temos por isso a obrigação de agir politicamente para combater as desigualdades que estão a dilacerar o planeta e a espécie, usando as novas ferramentas potentes de que dispomos ou vamos dispor e que nos ligam num destino comum e sincronizado.  

O desenvolvimento científico e tecnológico tem que ter como primeira prioridade a promoção das condições de vida e da dignidade de todos os seres humanos e a garantia da sustentabilidade global do planeta. 

Só assim é que o mundo novo que nos anunciam e que se tornará cada vez mais uma realidade será verdadeiramente admirável.  

Eurodeputado

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