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8 de janeiro de 1955. Em Paris. Só!

8 de janeiro de 1955. Em Paris. Só!

Afonso de Melo 09/01/2018 14:03

Urbano Tavares Rodrigues peregrinando na peugada de António Nobre: “Os literatos não souberam lê-lo, os doutores de Coimbra reprovaram-no, os estudantes truculentos magoaram a sua fina sensibilidade”

“É o entardecer. Já ardem janelas na patine negra das casas. As bocas do metro despejam para as ruas operárias a torrente dos trabalhadores, cansados de um dia em Paris; e a neve indecisa vem flori-los de pétalas brancas: as jóias dos pobres que duram o tempo de um olhar.”

Esta prosa límpida como água das correntes de montanhas altíssimas é de Urbano Tavares Rodrigues.

Um jornalista extraordinário. Um escritor sem mácula.

Paris. 

Mas Paris sem ser por acaso. Paris de António Nobre, o Anto da torre de Coimbra, “essa paisagem triste triste a cuja influência minha alma não resiste”, como escrevia o poeta.

Havia o carrossel inquieto do anoitecer nas palavras de Urbano.

A reportagem ficou como um exemplo do jornalismo literário.

António Nobre em Paris contado por Urbano Tavares Rodrigues apareceu nas páginas do “Diário de Lisboa” do dia 8 de janeiro de 1955.

Raramente algo podia ter sido mais inteiro.

“Rua Racine n.o 2, a sua primeira morada emParis, hoje Hotel des Étrangers. Ainda os rostos queridos o obsidiavam. Ali escreveu emocionadamente a Alberto de Oliveira, suposta alma gémea; ali pensou em Margarida, a sua Margarette, que ele deixara em Coimbra – a virgem ao pé do Mondego. Ser-lhe-ia fiel, perguntava o exilado consigo?”

Ah! O Mondego.

Pois... essa paisagem triste triste...

António Nobre escreveu “Só” em Paris, em 1892.

O livro mais triste que se escreveu em Portugal nasceu em França, junto ao Sena, já nessa altura noutra das moradas do poeta, na Rue des Écoles n.o 42.

Era a Pensão de Madame Laïlle.

Pela primeira vez que entrou no seu quarto, teve uma epifania: na parede, dependurado, um quadro representa a fundação da monarquia portuguesa. Sente-se intimidado com a aparição subitânea.

Ele, que era um homem de sensações profundas. E de mágoas ainda mais profundas.

Paris há de doer-lhe por dentro até á fragilidade dos ossos.

Escreve sobre o desamparo, sobre a desilusão. A vida é em tropel e atropela. Não existe aquela solidariedade tão sua, tão da sua Torre de Anto, onde reunia os amigos, as tertúlias.

Só!

Urbano De novo Urbano: “Nobre, o adolescente que não podia amadurecer, debate-se, solitário, com a dor de viver, com a saudade física do sol, do amparo familiar, do mar que ele sulcara na barca do moreno Gabriel. Os literatos não souberam lê-lo, os doutores de Coimbra reprovaram-no, os estudantes truculentos magoaram a sua fina sensibilidade mas a sua lembrança vai, não obstante, para os choupos magrinhos e corcundas, para o luar alvadio das noites portuguesas, para as Marias e para os Manuéis, para os honestos cavalheiros que levam aos ombros o pálio nas coloridas e piedosas procissões.”

Carta a Manuel:“Queres noticias? Queres que os meus nervos falem?/ Vá! dize aos choupos do Mondego que se calem.../ E pede ao vento que não uive e gema tanto:/ Que, enfim, se sofre abafe as torturas em pranto,/ Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas/ Quanto isto me faz mal! Pior que as sabatinas/ Dos ursos na aula, pior que beatas correrias/ De velhas magras, galopando Ave-Marias,/ Pior que um diamante a riscar na vidraça!/ Pior eu sei lá, Manuel, pior que uma desgraça!”

António Nobre foi um poeta extraordinário, tantas vezes malquisto, tantas vezes abandonado e ignorado, atirado para uma Paris que ele não queria verdadeiramente.

Estuda de manhã – licenciar-se-á em Ciências Políticas na École Libre des Sciences Politiques –, vai às aulas à tarde.
De vez em quando, um teatro.

“Se o dinheiro não chega, se Anto está triste, tão triste que não pode ver ninguém, nem sequer a sua sombra nas paredes do quarto, vagueia pelas ruas estreitas da sua eleição, os ‘cabelos caídos, a cara de cera, os olhos ao fundo’. Saudades! Que saudades tem ele das estrelas que moravam no firmamento português. Mas aos domingos sacode a melancolia: vai tomar os ares de Neuilly.”

António Nobre alimenta o seu “spleen”, essa palavra mágica que significa todos os estados negativos das almas sensíveis.

E que é chique em Paris.

Ah! “O Spleen de Paris” de Baudelaire.

Urbano Tavares Rodrigues segue os seus passos, tantos anos mais tarde, conta que praticou esgrima, uma esgrima desintoxicante, e vai comungar religiosamente do silêncio da beleza dos museus.

“Nobre continua a morar na Rue des Écoles, ‘chez Madame Laïlle’. Está quase na miséria e sente-se abandonado. Finalmente, em janeiro de 1895, licencia-se. Ei-lo apto a singrar na vida. Um novo ciclo principia. Que confusão! Que complicação! O bacharel da quimera tornou-se doutor. Será brevemente cônsul sem consulado. Quer trabalhar, quer ganhar dinheiro, quer deixar de ser um peso para a família, pagar as dívidas. Qual?! Paris não consente. Nem traduções, nem emprego, nem lições. De nada lhe vale o exame.”

Só.

Poucos livros terão tido um título tão firme.

Poucos livros terão tido um título tão autêntico.

Poucas palavras tão curtas terão tido tanta coisa para dizer.

Os pulmões degradam-se.

Regressa a Portugal cuspindo pela boca o sangue das hemoptises.

“O seu aspecto alarma, apavora: os lábios sem cor, o andar arrastado, o peito ofegante. António Nobre, que nunca hesitara outrora em proclamar a tísica da alma, luta animosamente por esconder a dos pulmões. A tuberculose ainda inspira pavor. Os egoístas fogem do tísico, os cobardes temem-lhe os bacilos.”

Voltou a Paris, enternecido e solitário.

“Ele ainda acredita na cura, quer acreditar, mas uma voz interior, insidiosa, diz-lhe em segredo que aquela é a hora da despedida...” Só.

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