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Não há ciência (e inovação) grátis

Não há ciência (e inovação) grátis

Luís Oliveira E Silva 09/01/2018 11:11

Em Portugal e na Europa, não podemos ter a expetativa de manter uma capacidade científica e tecnológica relevante e capaz de impacto social e económico sem manter e aumentar os investimentos em ciência e tecnologia

Será que as ideias são cada vez mais difíceis de gerar? Um artigo de economistas norte-americanos recentemente publicado analisou os recursos necessários para mantermos os avanços científicos e tecnológicos em áreas tão diversas como a indústria farmacêutica, a agricultura ou a indústria dos chips de computadores. Em todos estes casos, os autores concluem que é cada vez mais difícil encontrar e gerar as ideias que mantém o progresso científico e tecnológico. O exemplo paradigmático é o da Lei de Moore e o aumento exponencial associado ao poder dos computadores verificado nas últimas quatro décadas. Esse progresso é hoje assegurado por um número de investigadores 18 vezes maior do que o número necessário no início dos anos 70.

Podemos observar esta tendência de outra forma. Por exemplo, de acordo com a revista “Science”, o avanço científico mais importante de 2017 está intimamente associado ao grande projeto internacional de deteção de ondas gravitacionais, combinado com deteções simultâneas por outros observatórios. Os outros avanços identificados pela “Science” em 2017, de áreas tão diversas como a antropologia, a engenharia genética ou a biomedicina, envolvem instrumentos complexos, grandes equipas e projetos que se prolongam por muitos anos.

É, assim, natural que uma das principais preocupações dos cientistas seniores seja garantir que as suas equipas têm os recursos necessários para explorar as ideias que geram. Isto implica atrair para as suas instituições o financiamento que garanta os salários dos investigadores, os custos e a manutenção dos equipamentos e das experiências, e o investimento em novas infraestruturas. Em conversas informais, é comum tentar contabilizar todos os custos associados à obtenção de um resultado científico importante, incluindo os salários dos cientistas, dos estudantes, o custo de utilização do equipamento e de todas as infraestruturas experimentais e computacionais. Um colega da minha área que desenvolve a sua investigação nos Estados Unidos estimou, com base na sua própria experiência, que um artigo publicado na “Physical Review Letters”, uma das revistas científicas mais prestigiadas da física, corresponde a um investimento de um milhão de euros, enquanto um artigo publicado na revista “Nature” requer um investimento total de 8 milhões de euros.

Os investimentos privados, por parte de empresas como a Google ou a IBM, em investigação e desenvolvimento em computação quântica são também a demonstração de que os avanços revolucionários envolverão investimentos cada vez mais avultados, neste caso superiores até ao investimento público, com os correspondentes retornos tecnológicos.

É possível encontrar sempre exceções, mas a regra é que os desenvolvimentos de fronteira em ciência e a tecnologia envolverão equipas e recursos cada vez mais alargados e que, quer em Portugal quer na Europa, não podemos ter a expetativa de manter uma capacidade científica e tecnológica relevante e capaz de impacto social e económico sem manter e aumentar os investimentos em ciência e tecnologia. Segundo dados da PORDATA , em 2016, a despesa total em ID, corrigida pelo poder de compra, por investigador ETI na Alemanha é três vezes maior do que em Portugal, demonstrando que em Portugal é necessário darmos passos ainda maiores neste investimento.

Na perspetiva explorada por Bloom e seus coautores no artigo “Are Ideas Getting Harder to Find?”, a dificuldade cada vez maior de gerar e encontrar ideias implica que a produtividade da investigação é cada vez mais baixa. O artigo demonstra que a manutenção do progresso científico que temos vivido, e que é a base do nosso progresso social e económico, só é possível se continuarmos a aumentar o investimento público e privado em investigação e inovação, nas universidades e nos centros de investigação.

Nicholas Bloom, Charles I. Jones, John Van Reenen, Michael Webb, “Are Ideas Getting Harder to Find?”, setembro 2017, http://www.nber.org/papers/w23782

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Moore

http://vis.sciencemag.org/breakthrough2017/index.html

https://www.pordata.pt

Equivalente a tempo integral

 

Professor catedrático do Departamento de Física, Presidente do Conselho Científico Instituto Superior Técnico

web: http://web.tecnico.ulisboa.pt/luis.silva/

twitter: @luis_os

 

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