22/10/18
 
 
Mário Cordeiro 09/01/2018
Mário Cordeiro

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O valor de um urso

Nestes tempos de tantos sinais perigosos de abastardamento da condição humana, os valores de um urso podem ser, ainda, um farol de esperança…

Faz este ano 60 anos que Paddington nasceu. Não a estação de comboios de Londres que tem esse nome e que data de 1838, portanto há precisamente 180 anos, e que também há 20 anos certos passou a ser o terminal do expresso que vai para o aeroporto de Heathrow e que ainda tem nos seus pergaminhos ter sido a primeira estação de metro da capital britânica. Tantas efemérides. Muitas vezes tomei ali o comboio, quando morava em Oxford, e dela tenho excelentes recordações, designadamente do que é parte da vida típica inglesa. Todavia, neste artigo refiro-me a Paddington, o urso; o urso que comove leitores (e agora plateias) desde que surgiu pela mão de Michael Bond.

Fui ver o filme (a sequela) anteontem. É impossível não gostarmos da personagem, independentemente de debatermos se o enredo do número um era melhor ou pior do que o deste. A personagem vale o filme. Comove-nos. Já veremos porquê.

Paddington começou por ser um urso de peluche que inspirou Bond depois de o ver numa loja de brinquedos. No Natal de 1956, o escritor, então com 30 anos, resolveu oferecer o ursinho à mulher (o que já de si é comovente e rompe a ideia de muita gente – então há 60 anos – de que um homem não pode dar um presente que expresse ternura), e a partir daí, com base nas suas memórias de infância, foi escrevendo as histórias desse adorável urso, um apreciador compulsivo de doce de laranja e dotado de uma consciência ética e de uma boa educação que é de se lhe tirar o chapéu. Michael Bond dizia que essa educação vinha dos ensinamentos dados pelo seu pai, um humilde funcionário dos correios que usava sempre chapéu – o chapéu que Paddington usa e o que eu lhe tirava, se o usasse.

A ideia de Bond não era escrever livros, mas tão-só tomar apontamentos por gozo sobre a condição humana (via “condição úrsica”) e dar asas à criatividade. Ao ver que tinha material suficiente e pensando como era importante transmitir às crianças regras e valores, o livro foi publicado em 40 línguas e vendeu mais de 35 milhões de exemplares, sendo possível que agora, com os dois filmes, as vendas voltem a disparar. As ilustrações são de Peggy Fortnum, entre outros desenhistas.

Paddington é um imigrante – vem das selvas do Peru, de um habitat totalmente diferente, e ele próprio foi resgatado da morte por dois ursos bastante mais velhos que arriscaram a vida para o salvar. Criam-no até ao dia em que, por conhecerem um geógrafo inglês e se aperceberem de que o ursinho teria melhor vida se fosse para a capital britânica, conseguem metê-lo num cargueiro e enviá-lo para Londres.

Sozinho na estação de Paddington, a sua fragilidade e bonomia conquistam o coração da família Brown e, depois de muitas vicissitudes e de algumas asneiras à mistura, o urso passa a fazer parte do ecossistema de Portobello, um típico bairro londrino.

Com a sua canadiana azul e o chapéu vermelho – bem adequados ao tempo de Londres em qualquer estação do ano – , bem como com a sua malinha de viagem (no fundo, a “mala de cartão” que tantos emigrantes transportam com os seus parcos haveres e que cada vez mais estão a ser ignorados), Paddington todos conquista pelos elevados valores éticos pelos quais pauta a sua vida: solidariedade, empatia, interesse pelos outros, preocupação com o bem-estar dos que o rodeiam, solicitude, afeto e tantas coisas mais. É um urso que vem de fora, é um estranho, é um imigrante, mas desperta em todos o melhor que há em cada um.

Michael Bond, falecido em 2017 com 91 anos, conseguiu, com o seu urso amante de doce de laranja, mostrar que o ser humano (via urso) pode ser, se quiser, bom e… humano. O que é extraordinário nesta personagem é que consegue não ser moralista, superior, falso ou exagerado. Sempre educado – muito educado, fazendo corar de vergonha todos nós e muitos dos que vemos diariamente nos média ou nas redes sociais –, este urso recusa o show-off, a jactância ou o exibicionismo. A sua ingenuidade comove-nos. A sua inocência consegue ir às nossas raízes mais profundas de afetos. O seu sentido de justiça (também sabe fazer cara de mau se for necessário) é grande e não alinha em truques ou fintas fora dos princípios éticos. É notável o seu sentido de dever e de gratidão para os outros, designadamente para os velhos ursos que o acolheram, Lucy e Pastuzo, este já morto, aquela num lar “para ursos idosos” – é curioso ver que Paddington escreve cartas à sua “tia” protetora porque, ao escrever e no tempo que escreve, pensa mais na pessoa a quem as cartas se dirigem, afinal, as pessoas que o ensinaram e educaram, como os pais e educadores deveriam fazer: com limites, regras, mimo, amor e princípios éticos.

Tudo muda, na família e no bairro, com a chegada deste ser. As crianças tornam--se muito menos egoístas e conflituosas, o pai descobre alguma alegria perdida com o quotidiano do trabalho e dos ritmos citadinos, a mãe reinventa a sua faceta maternal e os vizinhos contam com ele para ser a sua consciência moral, mas sem a faceta algo irritante do Grilo Falante do Pinóquio. Paddington não faz sermões nem dá conselhos: dá o exemplo, que é afinal o que deveríamos dar aos outros, designadamente aos nossos filhos, mais do que prédicas e lições teóricas que são, no minuto seguinte, torpedeadas pelos nossos comportamentos e pela prática.

Dois filmes a ver, livros a recuperar nas histórias para adormecer. Nestes tempos de tantos sinais perigosos de abastardamento da condição humana, o Urso Paddington pode ser, ainda, um farol de esperança… mesmo que na pele de um urso de canadiana azul, chapéu vermelho e uma malinha onde carrega – estou certo –, para lá do seu fantástico doce de laranja, a salvação da humanidade.

Pediatra, Escreve à terça-feira

 

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