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Perdão a Fujimori acende rastilho no Peru

Perdão a Fujimori acende rastilho no Peru

AFP Photo Félix Ribeiro 30/12/2017 18:37

Kuczynski tentou salvar-se do impeachment perdoando o antigo homem-forte, condenado por violações dos direitos humanos. No entanto, a sua segunda vida política pode ser breve. 

O Presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski é conhecido pela sigla PPK e também por estes dias como um líder altamente danificado, agarrado por um fio ao poder, enquanto à sua volta o seu partido, Governo, a comunidade internacional e, acima de tudo, o país, o abandonam.

O Peru está em polvorosa e na quinta-feira, por exemplo, dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se em Lima contra o Presidente. A contestação nasceu precisamente de uma manobra obscura que PPK lançou para se preservar no poder. A sua segunda vida política, no entanto, sai-lhe cara. E provavelmente será curta. 

PPK anunciou na segunda-feira de Natal um perdão presidencial a Alberto Fujimori, o ex-Presidente peruano de 79 anos, condenado a 25 anos de prisão por crimes de violação de direitos humanos e corrupção cometidos ao longo da década de 1990. O indulto, concedido por motivos supostamente humanitários, dadas as alegadas doenças degenerativas e incuráveis de que sofre o antigo líder peruano – há dez anos, foi-lhe diagnosticado um cancro na língua –, despertou uma onda de protestos nas ruas e críticas interpartidárias. Fujimori, afinal de contas, é um dos raros exemplos de ex-líderes condenados pela perseguição, execuções extrajudiciais, raptos e desaparecimentos forçados nos combates às milícias de inspiração marxista nas Américas – os grandes crimes foram cometidos pelo exército, mas sob ordens ou em nome de Fujimori.

O pano de fundo do perdão ao antigo Presidente agrava a crise. PPK anunciou o indulto apenas dois dias depois de ter escapado a um impeachment lançado pelo partido da família Fujimori, que tem maioria no Congresso e, por isso, armas suficientes para destituir o líder peruano, envolvido, como outras figuras – incluindo a própria filha de Fujimori, Keiko – num grande escândalo de corrupção com origem na construtora brasileira Odebrecht e que se estende pela América Latina. O Força Popular, no entanto, não aprovou a destituição porque um grupo de deputados, entre os quais o filho mais novo de Fujimori, Kenji, se abstiveram no momento do voto, garantindo assim a segunda vida política de PPK. Mas logo surgiram fortes suspeitas de que o indulto foi a grande moeda de troca doatual Presidente. «Neste país é difícil conseguir justiça, e agora Fujimori não está na prisão», contava ao El País Flor Huilca, filha de um dos homens assassinados nas purgas de Fujimori, enquanto se manifestava com milhares de pessoas. «Eu sou vítima, Pedro Huilca é vítima. Não entendo a decisão de Kuczynski».

Governo em descalabro

O resultado, para já, é uma avalanche de críticas internacionais e uma sangria de apoios a PPK. Demitiram-se já dois ministros – o do Interior, antes de anunciado o perdão, e, esta semana o da Cultura –, três deputados do seu partido afastaram-se também, assim como o diretor do órgão que regula os meios de comunicação do Estado e o conselheiro e aliado Máximo San Román, que foi vice-Presidente do próprio Alberto Fujimori mas que até agora era um dos mais importantes aliados de PPK. Os protestos na rua, esses, dão-se a um ritmo diário, e embora o Presidente pense por estes dias numa remodelação governamental, há pouca margem de manobra para sobreviver à crise: com o perdão a Fujimori, PPK parece ter afastado a ala mais moderada do partido, o que lhe deixa disponível apenas o setor mais nacionalista e à direita.

PPK, além disso, não se livrou ainda do fantasma das suspeitas de corrupção dos tempos em que foi primeiro-ministro. Na quinta-feira prestou declarações a procuradores brasileiros a cargo do processo Lava-Jato ao longo de quatro horas. E o Tribunal Interamicano de Direitos Humanos já marcou uma audiência para fevereiro, na qual entrevistará os responsáveis do indulto, por suspeitas de que este possa ser ilegal. Vários especialistas em violações dos direitos humanos e direito internacional argumentam, por exemplo, que não é possível conceder perdões presidenciais a pessoas condenadas por violações dos direitos humanos – «estamos horrorizados», escreveram três especialistas das Nações Unidas esta semana. Fujimori, por sua vez, e seguindo a deixa de PPK no seu discurso de Natal, pediu perdão num vídeo gravado no hospital para o qual foi transferido à saída da prisão. Para muitos peruanos, no entanto, nem isso foi convincente: «Estou ciente de que os resultados do meu Governo foram bem recebidos por um lado, mas admito que desiludi outros compatriotas, e peço-lhes que me perdoem com todo o seu coração».

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