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Mira Sorvino. Na sombra de Harvey Weinstein

Mira Sorvino. Na sombra de Harvey Weinstein

Cláudia Sobral 24/12/2017 13:36

Pode ter rebentado tarde o escândalo mas este ano já foi delas. Das mulheres que fizeram de #metoo nome, substantivo quase sempre feminino elevado pela Time a figura do ano. E atrás das histórias de assédio e de abusos, teriam que vir outras. Como a que conta agora Peter Jackson sobre as atrizes que Harvey Weinstein afastou dos seus filmes - e, ao que parece, de outros.

 

#metoo. Mira Sorvino, atriz para um Óscar como Linda Ash em Poderosa Afrodite, de Woody Allen, foi das primeiras. Contra a impunidade com que Harvey Weinstein usou o seu poder, que era todo, na indústria do cinema americano para assediar e abusar sexualmente de uma lista interminável de mulheres que como opções possíveis tinham duas: ceder ou sofrer as consequências. E para Mira Sorvino foram 20 anos de suspeitas até chegar o dia em que teve a certeza. Anos de intenções que nunca passaram disso, de convites que nunca chegaram para uma carreira que poderia ter sido outra. Anos até ao dia em que acordou para um ataque de choro, assim o confessou no Twitter, depois de ter lido as declarações de Peter Jackson ao site neozelandês Stuff sobre as opiniões de Bob e Harvey Weinstein sobre uma série de atrizes. «Aqui está, a confirmação de que Harvey Weinstein destruiu a minha carreira, algo de que suspeitava mas não tinha a certeza. Obrigada Peter Jackson por teres sido honesto. Estou só desapontada.» O tweet da atriz veio depois do ato de contrição de Peter Jackson, o aclamado realizador da trilogia O Senhor dos Anéis, Hobbit e King Kong, no remake de 2005.

«Lembro-me de a Miramax nos ter dito que era um pesadelo trabalhar com elas e que as deveríamos evitar a todo o custo», recordou sobre as conversas que teve com os irmãos Weinstein para a escolha do elenco para Senhor dos Anéis. «Naquela altura, não encontrámos razões para questionar o que eles nos estavam a dizer. Em retrospetiva, percebo que isto seria muito provavelmente a campanha da Miramax em marcha. Hoje suspeito que nos foram dadas informações falsas sobre estas duas mulheres talentosas.»

Peter Jackson referia-se a Mira Sorvino e a Ashley Judd, outra das atrizes incluídas na lista negra da qual durante anos Harvey Weinstein fez impunemente uso como parte da estratégia de intimidação das suas vítimas. E que a cada dia que passa se vai tornando mais real, não tivesse logo no dia seguinte vindo a público também Terry Zwigoff, realizador de Bad Santa - O Anti-Pai Natal (2003), juntar-se ao coro de vozes que se levantam contra aquele que por muito tempo foi um dos mais influentes produtores de cinema americanos, com um pedido de desculpas à atriz. «Estava interessado na Mira Sorvino para o ‘Bad Santa’, mas cada vez que a mencionava [em conversas] ao telefone com os Weinstein, ouvia um clique», escreveu no Twitter. «Que tipo de pessoa é que nos deixa assim pendurados?! Parece-me que agora todos sabemos. Peço mesmo desculpa, Mira.» 

Ambas as atrizes foram das primeiras a dar voz ao que se transformaria no movimento #metoo, entretanto eleito figura do ano pela Time, assim que em outubro foram publicadas as duas investigações que abriram as comportas para o escândalo que acabaria por afastar Weinstein da produtora que o próprio cofundou - a TWC (The Weinstein Company) - depois de ter deixado a Miramax. A diferença, no caso de O Senhor dos Anéis, é que Judd chegou a ser chamada pelo realizador, segundo recordou no Twitter assim que Jackson decidiu trazer para a esfera pública algumas das conversas que manteve com os produtores do épico fantástico adaptado ao cinema a partir da obra de J. R. R. Tolkien. «Lembro-me bem disto», reagiu a atriz. «Perguntaram-me qual de dois papéis preferia e abruptamente nunca mais me disseram nada. Fico satisfeita por a verdade ter vindo ao de cima. Obrigada, Peter.»

Tudo isto veio o produtor negar entretanto num comunicado em que o seu porta-voz afirma que o casting para a trilogia de Peter Jackson não foi sequer feito pela Miramax, antes pela New Line Cinema, notando ainda que Ashley Judd integrou o elenco de outros dois filmes produzidos por ele. E que «Sorvino também foi sempre considerada para outros filmes». Entretanto, já Jackson veio desmentir o desmentido, explicando que ao longo dos 18 meses de pré-produção de O Senhor dos Anéis na Miramax houve «muitas conversas sobre o elenco com Harvey Weinstein, Bob Weinstein e outros responsáveis» da produtora, esclarecendo ainda que «os filmes passaram da Miramax para a New Line antes da fase de casting» mas que foi por terem sido advertidos pelos produtores em relação às duas atrizes que os seus nomes foram afastados. «Fomos ingénuos o suficiente para assumir que o que nos tinham dito era verdade», sublinha o realizador, que explica que foi essa a razão pela qual os nomes não chegaram sequer a ser levados às reuniões com a New Line para a escolha do elenco.

Nascida em 1967 em Manhattan, filha de Lorraine Davis e do ator Paul Sorvino, filha de imigrantes italianos, Mira Sorvino estreou-se na representação em 1985 num filme de Larry Cohen com uma pequena participação pela qual não foi creditada. A sua carreira começaria verdadeiramente com uma participação em seis episódios de Swans Crossing, uma série de Noel Black do início da década de 1990 - anos de ouro para Weinstein, cujas apostas nesses anos ajudaram a lançar nomes como Tarantino ou Larry Clark - para uma lista que hoje vai em mais de oito dezenas de papéis, os mais conhecidos em Poderosa Afrodite, de Woody Allen, que lhe deu o Óscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Secundária em 1996, e Romy e Michele, de David Mirkin (1997). Nenhum deles com o mesmo impacto que O Senhor dos Anéis.   

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