20/9/18
 
 
Alexandra Duarte 18/12/2017
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

Este ano não há telemóvel no sapatinho

Todos os pais querem proporcionar o melhor Natal aos seus filhos e ver aqueles olhos arregalados na hora de abrir os presentes. Mas devemos ter a consciência de que, a partir do momento em que se oferece um telemóvel a uma criança, a vida dela já não será a mesma

Sou só eu que penso que os nossos filhos andam viciados nos telemóveis e intoxicados pelas redes sociais?

Com o Natal à porta surge sempre aquela pergunta, para uns meio dissimulada, para outros mais clara: o que gostavas de ter como presente?

E a resposta, vinda dos que ainda não o têm, é quase unânime: um telemóvel! A franja etária dos interrogados que respondem desta forma tem uma amplitude muito lata, já que pode ir desde os seis até aos doze, treze anos. Além desta idade, não arrisco. E, mesmo assim, eu diria que a percentagem das crianças que, acima dos dez, não tem telemóvel é residual, porque basta ver nas escolas, ouvir os nossos filhos, falar com os nossos amigos e, rapidamente, percebemos que os pais que ainda não deram telemóveis aos filhos são uma espécie estranha, completamente desajustada da realidade.

A pressão sobre estes pais aumenta, especialmente nesta época, até porque na família há sempre a probabilidade de um tio ou um avô vir com a conversa do telemóvel e interrogar porque razão a criança ainda não tem um. Começa a primeira sensação de estarmos a ser apertados… E se a nossa resposta for vaga, corremos o risco de no dia 25 de dezembro, debaixo da árvore, estar um embrulho com o tamanho de uma caixa que contém um dispositivo de comunicação de última geração, com a etiqueta a nomear o nosso filho.

Já ando nisto há vários anos… Com o meu primeiro filho foi mais ou menos isto: aos onze anos, o padrinho não aguentou mais a exclusão social a que o rapaz estava votado por capricho da mãe e, por sua iniciativa e sem consulta prévia, presenteou-o com um telemóvel todo apetrechado com as novas tecnologias e ligado ao mundo e a todas as pessoas do mundo. Eu diria mesmo: um telemóvel com um novo mundo lá dentro e uma segunda vida numa outra dimensão. Porque é disto que se trata, de miúdos que passam a viver entre cá e lá, entre a casa e a família que têm e a outra “família” e aventuras que podem viver com a Rede.

Este ano a situação repete-se, com o segundo filho e, também, já o terceiro a pedirem um telemóvel no topo da sua lista de presentes. Mas atenção, porque estas segundas e terceiras crianças são refinadas e astutas, já que beneficiaram do episódio do irmão mais velho. E na sua lista, que antes era extensa e dava a oportunidade de nós, pais, escolhermos os presentes que considerávamos melhores entre os muitos pedidos, agora só preenchem três linhas… três presentes… e os outros dois nem sequer entram para a categoria de presentes de Natal (cromos para a caderneta de futebol, bola saltitona e semelhantes!). Porque é só “aquele” presente que esperam ter, agora, já, neste Natal.

Somos pais e, como qualquer pai, desejamos e fazemos tudo para que os nossos filhos tenham o melhor Natal que lhes podemos dar, incluindo a felicidade de, ao abrirem o nosso presente, sermos, afinal, nós os presenteados ao vermos aqueles olhos arregalados num misto de felicidade e incredulidade, seguido de um salto que acaba no nosso colo, ao jeito de um “moche aos pais”. Mas não é assim tão fácil... e esta questão tem para mim um outro lado. Um lado negro.

Lembro-me da primeira vez que o meu filho me pediu uma PlayStation. Tinha cinco anos. Recebeu uma Wii aos sete… porque eu queria que ele desfrutasse de outras brincadeiras que deixariam de estar na sua cabeça a partir do momento que conhecesse o Super Mário, o canalizador italiano mais conhecido do planeta Terra. E não me arrependo. Houve tempo para outras atividades, outros desenvolvimentos, outros passeios, legos, jogos de tabuleiro, etc… Com a consola também há! Mas sabe sempre a segunda escolha e, a maior parte das vezes, saem de casa contrariados porque o campeonato vai a meio e eu não quis esperar mais meia-hora depois de já ter aguardado, pacientemente, duas horas e já estar a escurecer.

Mas voltando ao telemóvel. Tenho para mim um critério muito claro sobre o momento em que os meus filhos devem ter este aparelho, que representa muito mais do que um telefone: a partir do momento em que seja necessário estarem contactáveis e em que não haja outra forma. Passo a explicar: faz sentido para aquelas crianças que vão sozinhas para a escola, querendo os pais confirmar se correu tudo bem; ou, então, para aquelas que têm atividades extra-curriculares, sendo necessário combinar horas para os ir buscar; ou seja, para crianças que já tenham autonomia para se deslocar nos seus horários e que os pais encontrem, através do telefone, meio de os acompanhar. Ora, acontece que para muitos esta utilidade do telemóvel é a última a ser considerada. Hoje em dia, um telemóvel é muito mais do que isso. É um estilo de vida. São as mensagens, são as multiplicáveis redes sociais, são os jogos online, são as “apps” para tudo e para nada, são as fotografias, os vídeos, as músicas, e por aí fora…

Quando somos confrontados com um pedido de um telemóvel, devemos ter consciência de que a vida deles não será mais a mesma, salvo exceções que são a nossa esperança. Passamos a ter que ter outros cuidados, a impor outros limites que antes não se colocavam, a distribuir o tempo de outra forma, a aceitar que parte das suas atividades sejam substituídas por outras que necessitam do tal aparelho.

Por isso, e apesar de todos ou quase todos os colegas dos meus filhos terem já telemóvel e por ter a convicção de que não lhes acrescenta nada para além dos conflitos sobre a sua utilização, este Natal ainda não entrará nenhum telemóvel no sapatinho. É que os telemóveis estão cada vez maiores e os sapatinhos não…

Escreve à segunda-feira

 

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