21/11/18
 
 
António Ribeiro Ferreira 18/12/2017
António Ribeiro Ferreira
Opiniao

antonio.ferreira@newsplex.pt

Boys, girls e a porcaria democrática

Os partidos políticos e os jornalistas abriram a boca indignados com o que se passava na Raríssimas, mas ficaram calados como ratos com os escândalos dos assessores no município de Lisboa, uma amostra do sequestro vergonhoso do Estado pelos partidos políticos

As indignações, as manifestações de seriedade, os apelos com cara séria à ética republicana, as demissões inevitáveis de responsáveis políticos só acontecem quando alguém atua isoladamente e não em manada. A semana ficou marcada pelo caso da Raríssimas, com o vencimento da sua presidente, as ajudas de custo, o carro de luxo, as despesas com vestidos e gambas, as viagens ao Brasil.

Tudo muito indignado, inquéritos aos molhes como é costume em casos semelhantes, demissão da responsável e de um secretário de Estado apanhado com a boca na botija, idas ao parlamento do ministro com a tutela das IPSS, enfim, a receita do costume para casos semelhantes com a certeza de que tudo irá ficar como dantes. Nada de novo, portanto.

O que realmente espanta neste desgraçado país cada vez mais mal frequentado é que a manada política e jornalística olhe para o lado quando o escândalo do assalto aos cofres do Estado, cheios e bem cheios com os saques fiscais, é feito pelos partidos políticos, sem exceção, para se financiarem e darem jobs bem pagos aos seus boys e girls. Os chamados pilares desta porcaria democrática enchem os bolsos e são verdadeiros centros de emprego à conta dos contribuintes no Estado central e na administração local, como o semanário “SOL” noticiou dois sábados seguidos, com a história da vasta corte de assessores dos deputados e vereadores do município de Lisboa.

Como a manada política acha que são os custos normais de uma democracia e muitos jornalistas olham para o lado porque sonham com um lugarzinho bem pago na vasta e generosa máquina do Estado, importa aqui e agora recordar o escândalo que foi silenciado pela comunicação social. Um assessor dos deputados do município de Lisboa ganha 3752 euros por mês, quase tanto como deputado da Assembleia da República. Cada secretária ganha 2800 euros, ou seja, acima da média dos ordenados dos professores universitários, dos médicos ou dos diplomatas. Todos os partidos são financiados pela Assembleia Municipal e o PAN, que elegeu dois deputados municipais, recebe 7000 euros por mês só para assessores e secretárias. Este escândalo existe há anos e foi a fórmula encontrada pelo habilidoso António Costa quando chegou à câmara em 2007 para calar os partidos da oposição. E se isto se passa na Assembleia Municipal, na câmara liderada pelo discípulo de Sócrates e Costa o regabofe não é mais pequeno. O executivo de Medina tem mais de 120 assessores e secretárias. A câmara paga quase 500 mil euros a um só assessor. No total, os boys e girls da câmara e Assembleia Municipal custam mais de cinco milhões por ano.

Dito isto, a presidente da Raríssimas com os seus vestidos de umas centenas de euros, umas gambas à maneira, um ordenado de 3000 euros mais ajudas de custo é uma verdadeira aprendiz de feiticeira ao pé dos políticos que andavam pela Casa dos Marcos a rapar o tacho dos dinheiros públicos. E se ao nível municipal os custos desta porca democracia são verdadeiramente obscenos, a nível central a orgia despesista é digna da choldra em que este desgraçado país cada vez mais mal frequentado se transformou depois de 43 anos muito rentáveis para quem vive do Estado e para o Estado.

Com dois anos no poder, o PS soma 1439 nomeações de assessores e adjuntos para gabinetes de ministros e secretários de Estado, um recorde que tem sido batido de governo em governo, no amplo arco da governação que desde 2015 abrange todos os partidos com assento parlamentar, com a honrosa exceção do PAN, que anda por aí, de câmara em câmara, a exigir justamente uma migalha da farta mesa posta à disposição dos pilares desta porcaria de democracia. Se pensarmos também na vasta máquina do Estado, na educação, na saúde, na segurança social, no desporto e juventude, nos institutos públicos e nas empresas públicas, percebe-se bem o imenso potencial posto à disposição do partido do poder que, inteligentemente, reserva sempre uns lugares apetecíveis para quem está na oposição, uma forma de garantir reciprocidade quando for apeado do poleiro pelo voto dos pobres eleitores, chamados de quatro em quatros anos a avalizar este estado de coisas que dura há mais de 40 anos no país.

Também se percebe muito bem que os partidos tenham na gaveta desde 1999 projetos de alteração da lei eleitoral que retiravam aos partidos o monopólio das listas e abriam a porta a círculos uninominais. A realidade, que evidentemente é atirada para debaixo do tapete pelos políticos e pela comunicação social do regime vigente, é que o Estado foi sequestrado pelos partidos. Pior do que isso, os partidos sequestraram a democracia. É por isso que é legítimo dizer que esta democracia é uma porcaria em que tudo é permitido e legitimado. O caso das Raríssimas é o estado do regime. Podre, tão podre que com um leve empurrão cai. Como caiu o outro, corria o ano de 1974. Sem mais, nem menos.

 

Jornalista

 

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