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D. João IV foi mesmo o autor de uma das músicas de Natal mais conhecidas no mundo?

D. João IV foi mesmo o autor de uma das músicas de Natal mais conhecidas no mundo?

Joana Marques Alves 15/12/2017 16:06

Será verdade ou trata-se apenas de um 'mito natalício'?

As músicas de Natal completam esta época do ano e é impensável passearmos por um centro comercial sem ouvir o ‘Jingle Bells’ no corredor, jantarmos num restaurante sem o ‘Silent Night’ como música de fundo ou aproveitarmos a consoada sem o ‘We Wish You a Merry Christmas’ durante a refeição. E uma das mais conhecidas do mundo terá sido composta por um português. Ou será que não passa tudo de um mito?

São muitos os que alegam que ‘Adeste Fideles’ (se não está a ver qual é a música, oiça o vídeo que está no final deste artigo e verá que vai reconhecê-la) foi composta pelo rei D. João IV, o líder da Guerra da Restauração. De acordo com os rumores – que começaram a circular muito antes da era da Internet -, existiria uma partitura no Paço Ducal de Vila Viçosa (que foi durante anos a sede da Casa de Bragança) assinada pelo rei português. Mas será que isto é mesmo verdade?

O i contactou a direção deste monumento, que prontamente resolveu o mistério: não passa tudo de um mito. “Infelizmente não temos nenhum manuscrito musical de D. João IV. É um mito. Temos de facto um arquivo musical, mas não temos nenhum autógrafo de D. João IV”, explicou Maria de Jesus Monge, diretora daquele espaço.

Assim, não existe qualquer prova de que ‘Adeste Fideles’ tenha sido composto pelo rei português.

Tal teoria já tinha sido deitada por terra pelo musicólogo Rui Vieira Nery. Em 2015, o ex-secretário de Estado da Cultura escreveu na sua página no Facebook que se tratava de um “disparate musicológico absoluto” e “fantasia romântica sem qualquer fundamento”.

A atribuição ao rei português “não é sustentada por nenhum – absolutamente nenhum – dos autores que estudaram a vida e obra de D. João IV, de Joaquim de Vasconcelos e Ernesto Vieira a Mário de Sampaio Ribeiro e Luís de Freitas Branco, o que sugere que [essa versão] tenha surgido já em meados do século XX”, escreveu. Para além disso, “é uma obra composta em harmonia funcional inteiramente tonal, com acompanhamento de baixo contínuo, num estilo absolutamente incompatível com a prática musical do tempo de D. João IV”, acrescentou.

Mas, afinal, quem é o autor da música?

Não existe resposta para esta pergunta. A Igreja Católica classifica-a como uma obra “tradicional”, sem especificar o compositor. Há quem atribua a sua autora a John Francis Wade (1711-1786), mas não existem certezas.

Sabe-se apenas que a música foi ouvida pela primeira vez em Paris em 1744, tendo sido considerada de origem inglesa. De facto, a primeira impressão da partitura dá-se em 1782, no livro inglês ‘An Essay on the Plain Chant’, refere um artigo da professora Carlota Miranda, da Universidade de Coimbra.

Mas a verdade é que esta obra é conhecida como ‘Hino Português’. Porquê? A explicação parece ser simples: várias publicações inglesas referem-se a esta composição como Portuguese Hymn (‘Hino Português’) pois era a música tocada na capela da embaixada de Portugal em Londres. Em 1811, o organista Vincent Novello publicou uma colectânea chamada ‘A Collection of Sacred Music, as Performed at the Royal Portuguese Chapel in London’, onde consta o tema.

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