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China. Carvoeiro, poluidor e ambientalista

China. Carvoeiro, poluidor e ambientalista

Shutterstock Félix Ribeiro 14/12/2017 18:31

Não há no mundo quem produza, importe, exporte e consuma carvão como a China. Apesar disso, Pequim prepara-se para tomar a liderança no combate às alterações climáticas

Os combustíveis fósseis não são igualmente poluentes. O carvão é-o mais que qualquer outro. O pior é o de antracite, carvão muito brilhante e negro que arde sem chama e que, por cada unidade de energia – neste caso, a unidade termal britânica –, liberta uns 103 quilogramas e meio de dióxido de carbono. Este é o irmão mais feio da família, mas mesmo o mais bem arranjado e menos prejudicial para o ambiente, o chamado carvão sub-betuminoso, liberta qualquer coisa como 97 quilos de CO2 para a atmosfera. A gasolina, como termo de comparação, produz uns 71 quilos de dióxido de carbono. Tendo em conta que o carvão é o combustível que mais polui no mundo e considerando que a China é o país que mais o queima, produz, importa e exporta; mais consome e dá aos outros a consumir; mais ergue fábricas de – e a – carvão e mais as pretende exportar para países em desenvolvimento; é difícil ver de que forma é que Pequim pretende também ver-se sagrado o campeão do combate ao aquecimento global.

Mas assim é. Pequim quer por estes dias liderar o rumo climática internacional, ou, pelo menos, uma parte importante dele. A missão é contraditória, principalmente levando em conta que a China é de muito longe o país que mais contribui para as próprias alterações ambientais que propõe combater. E considerando igualmente que o governo chinês só pretende reduzir as suas emissões de gases de estufa depois do ano 2030, como inscreveu no seu contrato do Acordo de Paris, embora por estes dias seja já a responsável por um terço destes gases no globo. Existem, todavia, algumas atenuantes. A China pode ser o país que mais polui, mas é também o que mais carros elétricos constrói, por exemplo, e um dos que mais avançou na tentativa de erradicar o consumo de combustíveis nas estradas – até 2025, um em cada quatro carros serão elétricos na China, e, segundo o governo, a proibição total destes veículos está para breve. Pequim é também o líder global em energia solar – em dez anos, o país multiplicou 800 vezes a área dos seus painéis foto voltaicos. E promete criar para breve o mais vasto mercado de carbono no mundo.

Falar do caminho chinês para a despoluição é falar do futuro imediato do clima mundial e do abandono do carvão. Ele é, afinal de contas, o grande responsável pelas emissões chinesas e a razão pela qual uma pessoa na China produz muitos mais gases de estufa com menos consumo de energia que um cidadão europeu, por exemplo. Trata-se, por um lado, do combustível fóssil mais fácil de usar na indústria e aquecimento, que está menos sujeito a cortes e problemas de abastecimento e, como explica o “Financial Times”, é também um dos grandes motores de riqueza económica no norte do país – em toda a Mongólia é o grande pilar financeiro e cortá-lo drasticamente significa enviar dezenas de milhares de pessoas para o desemprego. Os lóbis chineses do carvão são também poderosos e o rápido crescimento chinês depende dele. “A história das emissões chinesas é na realidade uma história sobre o carvão”, explica Glen Peters, do Instituto Cicero, em Oslo, que se dedica ao estudo das alterações climáticas.

O mundo vai ter mais emissões de gás de estufa antes de começar a cortá-las, mas a China tem uma estratégia para aumentar as suas emissões e despoluir-se. E adequa-se na perfeição ao seu ciclo económico e político. Pequim sabe que as suas taxas de crescimento vão abrandar. Isso permitir-lhe-á cortar no carvão, reduzir a poluição e ao mesmo tempo aumentar a emissão de gases noutras indústrias. As promessas chinesas no Acordo de Paris não se prendem tanto com a ideia de cortar nas emissões, mas sim na de reduzir a chamada “intensidade de carbono” – a quantidade de dióxido lançado para a atmosfera por cada euro de atividade económica –, o que conseguirá ao gradualmente abandonar o uso de carvão.

O incentivo chinês para tomar parte na nova economia ambiental é, em parte, económico – as suas indústrias lideram vários segmentos do mercado. No entanto, a maior motivação é política. Pequim não quer só ocupar o espaço que os Estados Unidos deixaram ao abandonarem o Acordo de Paris, mas também garantir a sua própria sobrevivência – a poluição é o assunto mais debatido e a maior razão de queixa nas redes sociais chinesas, segundo o “New York Times”. “A modernização de que estamos à procura caracteriza-se pela existência harmoniosa entre o Homem e a natureza”, explicava em outubro Xi Jinping a centenas de delegados do Partido Comunista Chinês, num momento em que as fábricas nos arredores de Pequim estavam obrigatoriamente paradas para que o grande Congresso pudesse avançar com céus limpos.

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