20/10/20
 
 
Luís Menezes Leitão 12/12/2017
Luís Menezes Leitão

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A ascensão de Mário Centeno

Se Mário Centeno tem alguma esperança de usar a pasta das Finanças para chegar a primeiro-ministro, que se desengane. A história não se repete e nem Mário Centeno é Salazar nem António Costa se chama Domingos Oliveira

A eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo não tem relevo internacional significativo. A maior parte dos europeus ignorava totalmente o que lá fazia Jeroen Dijsselbloem até que, em Março passado, ele se lembrou de pronunciar a frase célebre de que “não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda”. A frase não passava de uma versão mais adulta da história da cigarra e da formiga, mas a verdade é que foi motivo de escândalo em Portugal. António Costa veio logo dizer que o sr. Dijsselbloem, “numa Europa a sério, já estaria demitido”, uma vez que tinha uma “visão xenófoba, racista e sexista”. Só que essa exigência de demissão não teve sucesso algum, sendo imediatamente rejeitada pelo próprio Dijsselbloem e pelo resto do Eurogrupo. Vendo que ninguém lhe ligava, António Costa ainda mandou Mourinho Félix a uma reunião do Eurogrupo pedir que Dijsselbloem se retractasse, mas até isso este rejeitou, dizendo que a reacção de Portugal também fora chocante. E assim morreu a polémica, mostrando a (nula) influência que António Costa tem no Eurogrupo e na própria União Europeia.

Curiosamente, nesta polémica nunca se viu ou ouviu Mário Centeno, e bem se percebe porquê. O homem a quem Wolfgang Schäuble decidiu chamar “o Ronaldo do Ecofin” (e não apenas do Eurogrupo) não alinhou, naturalmente, em bravatas inconsequentes, preferindo manter o registo de credibilidade que tinha conseguido entre os ministros das Finanças europeus. Por esse motivo, e também porque os ministros das Finanças europeus quiseram fazer passar a mensagem de que vale a pena os países do Sul portarem-se bem e não gastarem o dinheiro em copos e mulheres, Mário Centeno foi, naturalmente, eleito para presidir ao Eurogrupo.

As reacções que causou em Portugal esta eleição é que pareceram absolutamente ridículas. O Presidente da República fez saber que temia pela equipa das Finanças com um ministro das Finanças “em part-time”, como se o Eurogrupo não fosse uma simples reunião mensal de ministros das Finanças, coordenada por um deles. Luís Montenegro quis reclamar os louros da eleição também para Passos Coelho, Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, parecendo assim que, para o PSD, esta eleição tem um enorme relevo quando, na prática, tem muito pouco. Já o Bloco e o PCP reagiram muito negativamente à eleição, receando perder influência na elaboração dos Orçamentos de Estado face à necessidade de se dar o exemplo de cumprimento das regras europeias. Por isso, o próprio Mário Centeno se sentiu na necessidade de vir garantir que nada tinha mudado na relação com o PCP e o Bloco. E, na verdade, não mudou nada, uma vez que o Bloco e o PCP não têm na verdade qualquer influência na gestão orçamental. Quando esses partidos exigem mais despesa no Orçamento, Centeno responde cortando essa despesa com as cativações. Resta assim aos partidos da extrema-esquerda propor medidas que aumentem a receita mas, mesmo aí, a sua influência é cada vez menor. Se o governo cedeu para 2017 no imposto Mortágua, já não cedeu para 2018 na contribuição das renováveis.

Assim, o único efeito da eleição de Mário Centeno é o de reforçar o seu peso político interno. Mas, aí, o caminho está totalmente bloqueado. Por muito bom que seja o seu desempenho na pasta das Finanças, não há a mínima possibilidade de Mário Centeno aspirar a substituir António Costa. Se Mário Centeno tem alguma esperança de usar a pasta das Finanças para chegar a primeiro-ministro, que se desengane. A história não se repete e nem Mário Centeno é Salazar nem António Costa se chama Domingos Oliveira.

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, escreve à terça-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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