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Órfãos. Nós, os outros e a destruição de um homem bom

Órfãos. Nós, os outros e a destruição de um homem bom

Estelle Valente Cláudia Sobral 04/12/2017 16:24

A partir do retrato de Dennis Kelly de uma sociedade violenta, racista e desigual que é a britânica, mas poderia ser a nossa, Tiago Guedes atira-nos numa peça de três atores e muito texto para uma vertiginosa descida em direção à destruição - e será a deles ou também a nossa?

 

Para este jantar à luz das velas só haverá sentido quando aparecer Liam a interrompê-lo. Liam, o irmão dela, de Helen, que vem cheio de sangue para o que será só o princípio de uma descida ao fundo destas três personagens - e de nós próprios. E descida em vertigem, que é isso o mundo lá fora. E vêm o medo, a violência, o racismo e as referências a esses “monhés” que tornaram este bairro impossível até batermos nesse fundo do ou “eles” ou “nós”. E o que faríamos nós? “Só perante as situações é que temos as respostas. Podemos dizer ‘não, eu vou fazer a coisa certa’... Nunca sabemos”, nota Tiago Guedes, que depois de em 2010 ter levado à cena “Blackbird” no Teatro Nacional D. Maria II traz agora à Sala Mário Viegas (São Luiz) “Órfãos”, na segunda encenação de uma peça do dramaturgo britânico em Portugal.

É isso que lhe interessa aqui. Colocar-nos, a cada um de nós, perante um dos maiores dilemas morais possíveis: “Até onde é que estás disposto a ir para ajudar os teus? No caso do Danny, vai ser essa a sua grande provação. E depois, até que ponto é que a querer fazer algo pelos que ama não destrói a sua essência?” Interessa-lhe isso e interessou-lhe à partida um texto de três atores num só espaço, daí que a pesquisa que o levou a “After de End”, outro texto de Kelly, tenha ido dar a este texto, por sugestão de Francisco Frazão, que fez esta primeira tradução para português. “É um texto muito difícil porque é escrito como é falado. Mesmo. Com interrupções, autointerrupções, sobreposições, silêncios pausas e tempos, tudo isso distinguido e muito guionado. Pode optar-se por não ligar muito a isso, mas apeteceu-me mesmo pegar nas pausas, nos tempos, no desconforto que dão.”

O resultado é esta vertigem de que havemos de escapar, não há como, ao longo deste jantar em quatro atos e a desenrolar-se em tempo real. Liam e Helen e Danny a descerem fundo, bem fundo,  mais fundo, e nós com eles, até à trágica conclusão de que aquilo a que assistimos durante uma hora e quarenta foi “a destruição de um homem bom”. E isto sem lados, sem protagonistas. Primeiro um, depois outro e o outro. “O texto vai fazendo isso e eu quis mantê-lo. Seria fácil pegar neste texto e tomar já essas decisões e os atores fazerem já esse percurso - o Liam como psicopata, ela como má e o Danny como um bonzinho cobardolas - mas de repente fica desinteressante.” Até porque, já sabemos, não há bons nem há maus. “Esta grande massa de cinzento que quisemos pôr aqui foi precisamente o não tomar essas opções pelo espectador.”

A única opção será então descer, descer vertiginosamente ao interior de Liam e de Helen e de Danny, um a um, os três em paralelo, arrastados pela cadência “quase matemática” deste texto. Texto e três atores num jantar, num palco, numa peça em que se vai, numa fúria que quando se dá conta já foi, os problemas de cada um. “No primeiro ensaio corrido,  [a peça] teve 2h10, neste momento está com 1h40. Não cortámos texto, acelerámos, foi só com o falar mais rápido. Velocidade de débito, velocidade de pensamento”, descreve Tiago Guedes, que vê neste tempo a medida certa para “Órfãos”. “Só funciona nesta vertigem, porque só assim estamos implicados.”

Sobre esta tensão falou também Dannis Kelly a propósito deste seu texto em 2009 e que, bem veremos, é mesmo um texto deste século para Londres ou para esta Europa do presente. “Quero sempre que as minhas peças tenham tensão; se a audiência odeia ou ama cabe-lhe a ela, o que não quero é que se aborreçam.” E Lisboa pode nem ser Londres, mas brandos costumes também não repelem o racismo. Talvez escondam. Como esconde Liam, que só adiantado na conversa há de mencionar esse “cabrão do monhé” que era afinal o tipo “normal”, “tipo eu”, “tipo, que podia ser meu amigo”, caído no chão... às fatias. Daí o sangue, que não só a ele há de manchar -  como esta Europa deste tempo, de onde ainda estamos para ver como haveremos de sair.

 

Ficha técnica

Tiago Guedes leva ao São Luiz "Órfãos", de Dennis Kelly, traduzido por Francisco Frazão. Com Isabel Abreu, Romeu Costa e Tónan Quito.  

Quando Ter-sex/21:00, dom/17:30, até 17/12

Onde São Luiz Teatro Municipal - Sala Mário Viegas

Preço €5 a €8,40 

 

 

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