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Anozero’17. Os deuses voltam a ter os pés assentes na terra

Anozero’17. Os deuses voltam a ter os pés assentes na terra

Diogo Vaz Pinto 04/12/2017 16:04

Na sua segunda edição, a bienal de arte contemporânea de Coimbra não esqueceu a missão de valorizar o património que a UNESCO consagrou, mas ao invés de um efeito de museificação, infunde-lhe nova vida, com as intervenções de 35 artistas a lançarem a moeda ao fundo do poço, devolvendo um olhar e um grito à sua memória.


No reino da arte contemporânea, os seus actores lembram muitas vezes deuses tresvariados, atirados para um recreio de crianças com necessidades especiais, onde passam os dias de robe a amestrar formigas, a avariar pássaros com assobios, a arranjar maneiras de virar do avesso o avesso, coisas de que já ninguém se lembra bem como eram na sua condição original. Passam ali os dias ribombando no quintal, a provocar céus escuros, tempestades no copo de água, muito longe dos tempos áureos em que faziam tremer a terra e provocavam choque, escândalo, tornando-se o assunto de debates que pareciam ter alguma relevância na forma como encarávamos o mundo.


A bienal de arte contemporânea de Coimbra encontrou uma encantadora solução para, num mesmo passo, arrancar Coimbra ao seu palor e oferecer aos artistas um campo de tiro onde as suas balas se enterram a fundo na carne dos séculos e a saboreiam. Com curadoria de Delfim Sardo e Ana Luiza Teixeira de Freitas e sob o tema Curar e Reparar, à semelhança do que acontecera na primeira edição da bienal, em 2015, esta exposição retira do limbo o património histórico, desdobrando a cidade no joelho, como um mapa, e propondo um percurso através do qual iremos encontrar as diversas obras, não apenas integradas no espaço, mas num diálogo e intervenção em que parece ser a nossa atenção e sentidos que são alvo de cura e reparação.


Como notou Delfim Sardo na conferência de imprensa de apresentação da bienal, para além de arranjo ou conserto, a palavra «reparar» vai mais longe na sua conotação, e aplica-se também à ideia de «parar para ver melhor, parar para observar. Implica pedir aos outros que desacelerem o seu ritmo para poderem atentar em alguma coisa que pode, nem que seja por uma pequena fracção de tempo, alterar as suas vidas».


Com obras de 19 artistas estrangeiros e de 16 artistas portugueses, entre escultura, pintura, vídeo, peça sonora, fotografias, instalação ou performance, é o tão velho mundo com as suas pequenas praças, o perfil austero dos edifícios de uma cidade que aproveita o prestígio da Universidade mas tantas vezes não sabe desembaraçar-se de uma certa sobranceria que se colhe nas atitudes e se infunde na pedra. É esta cidade que é chamada a despertar.


A decorrer até o último dia do ano, desde a Sala da Cidade à Galeria de História Natural do Museu da Ciência da universidade, passando pelos espaços do Circulo de Artes Plásticas de Coimbra, do Colégio das Artes, pela igreja do Convento São Francisco ou pelo Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, a bienal tem o enormíssimo mérito de promover um diálogo em que as obras não apenas tomam o fôlego da sua envolvência, como se aproveitam de tudo o que se ganha com o chegar-se tarde a um lugar, com os artistas a beneficiarem da «impureza inerente à recuperação de qualquer coisa que, já existindo, seja como um engrama, um problema, uma possibilidade de redenção  ou uma deformação, necessitava de ser cosida, suturada, remendada», como refere Delfim Sardo no texto curatorial.

De resto, o também programador de artes plásticas da Culturgest e professor do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (UC) frisa o facto de a bienal ter procurado situar-se «nos antípodas de um pensamento radical (...) ou de qualquer purismo», e contrariando o princípio de que a arte cura. «Em si, a arte não cura nada. Também não revoluciona, nem rompe, nem corta, mesmo que finja fazê-lo: encena, por muitas formas, esses processos e, no melhor dos casos, propõe-nos que reparemos.»


Contando com nomes como Dominique Gonzalez-Foerster, autora da instalação inaugural do MAAT, Fernanda Fragateiro, Francis Alys, Jimmie Durham, Julião Sarmento, Louise Bourgeois, Matt Mullican ou William Kentridge, deve ressalvar-se que 17 dos trabalhos foram produzidos a convite da bienal. Com um orçamento de apenas 325 mil euros, o circuito proposto por esta exposição só se torna tão impactante porque actua sobre as suas condicionantes, fazendo-se valer delas. Assim, ao invés de Coimbra ser apenas a hospedeira, oferecendo um conjunto de espaços neutros para o que quer que fossem as propostas dos artistas, ela mesma se vê implicada, e, se não houve margem para grandes obras de restauro, há uma inteligência que se percebe no apuro que foi conseguido com um conjunto de intervenções mínimas por parte da equipa que preparou esta iniciativa, e nomeadamente no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, desocupando e limpando, substituindo janelas, num acertar de horas dos relógios em eras tão distantes, para que fique a «memória à flor da pele» dos edifícios.


Não se pode passar ao lado daquilo que o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) conseguiu fazer ao adaptar a parte norte do mosteiro a um espaço expositivo efémero. Durante um século, este serviu de quartel, depois foi desactivado, estando há vários anos abandonado. Isso apurou o esplendor do imenso edifício enquanto ruína no seu lado norte. Ocupando uma parte deste, a Confraria da Rainha Santa Isabel permaneceu aberta a visitas do público, mas aquela foi esquecida, e Carlos Antunes, o director do CAPC, diz que o espaço tem permanecido uma zona de segredo, desconhecida mesmo de quem vive em Coimbra. 


Não temos o espaço aqui para ir mais longe no fascínio que nos causou visitar aquelas salas de tectos altos, pisos superiores com vista desde romances do século XVII para uma cidade que acaba de repente e dá por si no campo, espaços entregues a ecos e efeitos de assombração tão delicados e outros tão intensos, descobri-las pela mão de propostas como a de Julião Sarmento, que transforma um longuíssimo corredor que se faz da escuridão até uma luz que, 200 metros depois, vira do avesso a ideia que temos da cegueira.

A riqueza desta exposição é o não haver resumo possível. Como falar da impressão que nos causou os cinco automóveis que Rubens Mano encontrou numa das salas do mosteiro, fósseis do Estado Novo, que alguém decidiu salvar das fúrias revolucionárias escondendo-os, e que o artista suspendeu a uns palmos do chão, voltando-os num círculo, como se trocassem estórias entre si, dos tempos de ir impondo respeito pelas estrados do país quando Salazar ou Marcelo Caetano os usavam, e como para nos intrometermos nesta dolorosa reunião de carros, outrora tão elegantes, hoje numa lástima, temos de calçar galochas e andar de forma arrastada porque o piso está inundado, e por cima uma música lenta e grave que não se percebe se chora ou se lhe resta ainda um certo ímpeto ominoso?

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