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Zé Pedro. Punk e Cavalheiro

Zé Pedro. Punk e Cavalheiro

Davide Pinheiro 02/12/2017 13:07

Como músico, definia-se mais pelo carisma e empatia do que pelo virtuosismo. Como pessoa, combinava a rebeldia com a generosidade, a energia com a delicadeza, a atitude punk com o cavalheirismo. 

Naquela noite de sábado, 4 de novembro, os fãs que lotavam o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, já conheciam a condição debilitada em que Zé Pedro se encontrava. E, como uma claque, puxaram pelo seu ídolo. «E salta Zé Pedro, e salta Zé Pedro!». O guitarrista fez das fraquezas forças e deu um ar da sua graça - o momento, registado em vídeo, acabou por tornar-se uma espécie de última homenagem ao emblemático membro dos Xutos & Pontapés. No dia seguinte, com o cavalheirismo que todos lhe reconheciam, o músico mostrava o seu reconhecimento através do Facebook. «Como sabem tenho andado na luta da vida com alguns problemas de saúde... Tentei e tento dar sempre o melhor de mim. O vosso carinho, o vosso amor, a vossa energia, toda a força que me transmitem é-me tão forte e vital que só posso humildemente agradecer... Obrigado também a todos os que ontem gritaram o meu nome e fizeram com que tivesse força para continuar naquele palco até ao fim. Obrigado à Cristina [a sua mulher] e aos X&P por tudo e por tanto. Amanhã começo um novo tratamento e garanto que é para GANHAR. EU SEI LUTAR E ACREDITO».

Acreditou até ao fim. Admirado por todos, morreu em casa aos 61 anos, na passada quinta-feira, vítima de doença prolongada. «Partiu em paz», sintetizou um breve e consternado comunicado. 

Há um ano sofrera uma recaída. O Zé Pedro enérgico, comunicativo e telepático dos concertos perdera a energia. Chegou a pesar menos de 50 quilos. A banda foi obrigada a reagir. Encurtou o tempo do espetáculo. Passou a incluir um momento acústico para preservar a saúde do guitarrista. E não o deixou voar para o Canadá. «No início não sabíamos se a saúde do Zé Pedro ia aguentar o esforço necessário; esta incerteza marcou a digressão, mas graças aos deuses e ao ânimo do Zé tivemos grandes concertos por todo o país, e ele só não tocou em Toronto por imposição nossa», reconheciam publicamente os Xutos nas páginas do Expresso. Os fãs já suspeitavam do problema e após cada concerto, a questão repetia-se. «O que se passa, Zé Pedro?».

Senhor rock’n’roll

José Pedro Amaro dos Santos Reis, dono da guitarra mais carismática do rock, músico e agitador na mesma medida, autor de programas de rádio (o último dos quais Zé Pedro Rock’n’Roll, na Radar), apresentador do programa Vira o Vídeo da RTP2 na aurora dos anos 90, sócio do clube Johnny Guitar, um tubo de ensaio para bandas da nova música portuguesa, nasceu em 1951 e cresceu no bairro dos Olivais, Lisboa. 

Começou como jornalista, a escrever no Diário de Lisboa. Aventurou-se por festivais europeus quando não havia voos low cost. Só minis, boleias e ácidos que se experimentavam para ver um novo dia a nascer. 

«Quando era pequeno o meu pai dizia/ Olha pra isto que tu fizeste/ É só asneiras quando tu apareces/ Torna-te um homem, vê lá se cresces», dizia em ‘Submissão’, canção em registo autobiográfico em que assumia o microfone dos Xutos. «Fui para a escola pra saber ler/ Ensinaram-me coisas para eu ir fazer/ Maneiras de estar e maneiras de ser/ E davam castigos para eu aprender».

Para o bem e para o mal, ‘Submissão’ é um prólogo necessário para compreender o modo de vida rock’n’roll. «A qualquer dia/ A qualquer hora/ Vou estoirar, pra sempre/ Mas entretanto/ enquanto tu duras/ Tu pões-me tão quente», rasga o imparável ‘À Minha Maneira’.

O histórico de saúde de Zé Pedro contrastava com o sorriso que sempre o acompanhou. Caso raro de consenso, era de uma bondade contagiante. E de uma generosidade ímpar, vinda de quem se habituou a ser amado entre a multidão e a ter uma autêntica procissão de fiéis a segui-lo de Bragança a Lisboa, Alentejo, Algarve, ilhas e comunidades. Dele não se conheciam inimigos.

‘Um filantropo’ e ‘uma enciclopédia’

As solicitações choviam, mas Zé Pedro só não atendia o telefone se não podia mesmo. Quando estava com equipas de filmagens, ajudava a transportar as câmaras por cortesia. «Conheci o Zé Pedro ainda éramos os dois miúdos a começar na música», recorda Paulo Gonzo. «Ele já era um catalisador. Demo-nos logo bem e isso ficou para a vida toda, tanto com ele como com o resto da banda. Havia em nós um sentimento que ia muito para lá da música, um sentimento de amizade profunda. Era um amigo, um irmão. O meu filho que o conhece desde pequeno também o adorava. Continuávamos a falar quase todas as semanas e éramos visita de casa um do outro. O Zé Pedro era de uma bondade extrema com toda a gente, um filantropo. E deu tanto, tanto à música. Nunca o ouvi dizer que não a alguma coisa ou a alguém». Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, também sublinha esse traço da sua personalidade. «Era uma pessoa de uma bondade extrema. E uma autêntica enciclopédia», acrescenta.

Para os músicos de rock, e não só, Zé Pedro era uma espécie de pai adotivo. Um amigo para as ocasiões que fazia questão de acompanhar de perto novas bandas e de apadrinhá-las.

Era hábito vê-lo a assistir ao amanhã da música portuguesa, não se coibindo de elogiar publicamente novos talentos. E não só de bandas rock. Era conhecida a sua admiração pelos Da Weasel, uma das bandas que o Johnny Guitar viu crescer. Na alvorada da década de 90, quando os Xutos & Pontapés passaram por uma crise que quase os deitou ao tapete, era a segunda casa.

Namorava então com Xana, dos Rádio Macau, que, anos mais tarde, num dia 1 de agosto o levou para o hospital a tempo de ser salvo. «Foi o dia em que parei tudo: os consumos de álcool, droga e tabaco», contou à Blitz. À maneira dele, como sobrevivente que era, poucas semanas depois já estava de novo em palco.

‘Fui mais longe do que me era permitido’

Sem negar o passado, guardou os excessos num buraco fundo. «Hoje em dia não bebo nem me drogo. Na minha vida tudo tem o seu tempo. Nunca me considerei um bêbedo ou um toxicodependente. Andei lá, se calhar fui mais longe do que me era permitido, mas sempre tive uma noção. Ter os Xutos & Pontapés na minha vida penso que me terá safo. Ter um objetivo na vida torna mais fácil ultrapassar certas coisas. Certo é que desde que fui parar ao hospital, de um dia para o outro, as coisas limparam-se dentro da minha cabeça. Não faço nenhum esforço para não beber ou para não me drogar. Sem abandonar o que gostava de fazer: tocar, compor, falar com as pessoas e ter os meus amores», declarava em 2005. 

Acabaria por casar mas com Cristina Avides Moreira, após quatro anos de romance. Nunca escondeu a vontade de ter filhos mas esse talvez tenha sido um dos poucos sonhos que deixou por concretizar. «Eu já vi tudo», «já comi de tudo», «já fiz tudo», «já me fizeram tudo», resumia em ‘Submissão’.

O palco era a sua a sala de estar. Como músico, definia-se melhor pelo charme, carisma e empatia do que pelo virtuosismo. Porque a escola de onde vinha era o punk e três acordes chegavam para mudar o mundo. Nunca perdeu essa «vontade de ir, correr o mundo e partir» nem o sorriso adolescente.

Há quem defenda que Zé Pedro era maior do que os Xutos & Pontapés. Mas é com os Xutos & Pontapés que a sua vida se confunde. Na derradeira digressão, a canção escolhida para fechar os concertos, ‘Para Sempre’, era recebida como uma dedicatória final da banda ao fundador e vice-versa. «Juro, meu amor que sempre/ Voltarei, p’ra sempre/ Ai, meu amor/ O que eu já chorei por ti/ Mas sempre/ P’ra sempre/ Gostarei de ti». Face ao contexto, a letra funcionava como uma catarse emocional perante a incerteza. Se não mesmo como uma despedida.

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