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Bela Gil. “Uma batata frita pode ser ‘comida de verdade’”

Bela Gil. “Uma batata frita pode ser ‘comida de verdade’”

Marta Cerqueira 28/11/2017 13:12

Quase não come carne, mas não é vegetariana. Não bebe leite, mas não é vegana. “Gosto de comida de verdade”, diz Bela Gil. E nós fomos saber o que isso é

 

É filha do Gilberto Gil. Não há como fugir a esta curiosidade e por isso vamos despachá-la já no primeiro parágrafo. Mas Bela é muito mais do que “a filha de”. Defensora da comida a que chama “de verdade”, conquistou o seu lugar na cozinha saudável. Apresenta o programa de culinária mais visto do Brasil, um canal no Youtube, três livros de receitas e tem milhares de seguidores nas redes sociais.

Esteve em Lisboa, na oficina criativa gastronómica ‘A Sociedade’, numa palestra a que chamou “Mudando o mundo através da alimentação”. O mundo não terá mudado, mas viram-se muitas caras de espanto quando lembrou que as batatas fritas do McDonalds têm açúcar e que aquilo que vem nos pacotes azuis e verdes é tudo menos leite.

 

Está a dedicar a sua vida à alimentação saudável. Tem a ver com o meio onde cresceu ou partiu da sua vontade?

Sempre tive a liberdade de comer o que que quisesse, mas o meu pai foi macrobiótico durante muitos anos. Havia sempre a comida do meu pai e a nossa, por isso sempre me habituei a comer bem. A mudança deu-se aos 15 anos, quando comecei a praticar ioga e mudei a minha alimentação.

Foi o teu corpo que pediu essa mudança?

Senti essa mudança em mim. Cortei com o açúcar e os processados. Foi a partir daí que mudei a minha alimentação e caminhei para um estilo de vida mais natural.

Mas teve que aprender. Como foi esse processo?

Com 18 anos fui para os Estados Unidos viver e fiz um curso de culinária natural. Entre os 15 e os 20 anos já sabia o que queria fazer da vida. Sabia que queria trabalhar com saúde, com alimentação, só não sabia ainda como. Nessa altura já estava apaixonada pela culinária. A partir daí li muito, estudei muito e segui este caminho.

E como é que passou de aprender para ensinar?

Eu nunca acho que estou pronta, mas as pessoas dizem-me que sim [risos]. Tudo o que eu agora digo como óbvio foi uma surpresa para mim um dia. Eu quero surpreender muitas outras pessoas também, vou trabalhando assim. Tudo o que vou aprendendo, gosto de compartilhar.

Não é vegetariana, nem vegana, mas não come de tudo. Há nome para a sua dieta?

Eu digo que gosto de comida natural, mas não gosto de rótulos. Já fui vegetariana, já fui vegana, já tive uma alimentação macrobiótica, dieta ayurvédica, mas cheguei à conclusão que cada um é um e acima de tudo acredito no autoconhecimento. Temos que nos conhecer bem para saber aquilo que nos faz bem ou mal. Atualmente não sou vegetariana mas praticamente não como carne, não sou vegana mas não bebo leite. Mas não gosto de me rotular, porque se um dia eu quiser comer carne, eu como.

E o que é comida natural?

É comida verdadeira, comida caseira, mais próxima da natureza, não muito industrializada. É o arroz, o feijão, os legumes. Tudo sem aditivos. Pode estar ensacado no supermercado, mas não pode estar aditivado. Tem que ser o mais próximo da natureza possível.

Já comeu comida de verdade em Portugal?

Já! Vocês aqui comem muito bem.

Os números da obesidade não dizem isso.

Mas nos restaurantes portugueses encontram-se muitas opções de legumes. Tem muita peixe, carne.

Acha que se come melhor que no Brasil?

Aqui as pessoas cozinham mais, no Brasil as pessoas estão a deixar de cozinhar para ir comer mais fora. Não sei dizer quem come melhor, mas no Brasil, infelizmente, estamos a deixar de cozinhar.

Independentemente do local, agora come-se pior?

Ah, sim. As pessoas acham que a comida processada é muito mais prática, mais barata, mais acessível.

E é?

A verdade é que muitas vezes sim. É mais barata, mais prática, não diria que é mais gostosa, mas para muita gente é. As pessoas deixam de cozinhar para pedir uma pizza, para pôr uma lasanha no forno.

Alguma vez faz isso?

Não. Ou melhor, pizza já pedi algumas vezes. Posso pedir uma pizza um dia, mas eu não bebo refrigerante, não vou a cadeias de fast food. Mas uma pizza de massa, molho de tomate e queijo é uma comida de verdade, tudo depende da forma como é feita. Uma batata frita pode ser uma comida de verdade, feita em casa, frita no azeite, com um pouquinho de sal e pronto. A da rede de fast food não é verdade, aí está a diferença.

Que hábitos fáceis de mudar podem ajudar a ter uma vida mais saudável?

Reduzir os processados, comprar menos pacotinhos. Cozinhar mais também. E se conhecer. O auto conhecimento é muito importante. Se você se conhece, come algo e pensa ‘hum… isso não me fez bem’ e vai deixando de comer.

Sendo filha de artista, mas longe da música, fez da culinária a sua arte?

Sim. Acredito que a culinária é muito artística. Do mesmo jeito que um músico trabalha com notas e sons, nós trabalhamos com sabores e temperos. É uma arte.


Receitas do livro "Bela Cozinha"

Pasta de grão de bico com coentros

1 chávena de grão de bico cozido

1 colher (sopa) de tahini

1 colher (chá) de sal

1/2 chávena de coentros frescos

2 talos de aipo cortados em palitos

1 cenoura cortada em palitos

2 colheres de sopa de azeite

1 dente de alho pequeno

2 colher (sopa) de água

Coloque todos os ingredientes na liquidificadora ou robô de cozinha e triture até obter uma pasta homogénea.

 

Sopa de cenoura e gengibre

1/4 de cebola picada

1 colher (sopa) de óleo de sésamo cru 

(ou azeite ou óleo de girassol

2 centímetros de gengibre picado

5 cenouras picadas grosseiramente

4 chávenas de água

1/2 colher (chá) de sal marinho

Refogue  a cebola com óleo de sésamo. Adicione o gengibre, as cenouras e a água. Tempere com o sal e cozinhe por 20 minutos, com a panela tapada. Bata na liquidificadora com a água de cozedura até estar cremoso

 

Risotto de cou-flor com alho francês



1 chávena de arroz integral cateto

3 colheres (sopa) de azeite

4 chávenas de água

sal marinho a gosto

1 cabeça de couve-flor

1 alho francês pequeno

Refogue o arroz no azeite. Acrescente duas chávenas de água e sal marinho. Cozinhe o arroz por 35 minutos. Leve a couve-flor a ferver com duas chávenas de água por dez minutos. Acrescente um pouco de sal.

Bata a couve-flor cozida na liquidifcadora com a água da cozedura e reserve. Corte o alho francês em pequenos pedaços. Na mesma panela da couve-flor, refogue o alho-francês no azeite por dois minutos e adicione-o ao creme de couve-flor. Misture o arroz com o creme de couve-flor e sirva com um fio de azeite.

 

Gelado de fruta congelada

2 bananas bem maduras

12 morangos frescos

Coloque as bananas e os morangos no congelador. O ideal seria deixar de um dia para o outro.

Depois de congelada, bata a fruta na liquidificadora ou no robô de cozinha até obter um sorvete.

Sirva imediatamente.
 

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