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João Lemos Esteves 28/11/2017
João Lemos Esteves

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R.I.P., geringonça. Há eleições para o ano

O próprio Marcelo Rebelo de Sousa já confidenciou aos seus mais próximos que dificilmente não teremos legislativas já no próximo ano. R.I.P., geringonça – uma fraude que levou a hipocrisia política ao extremo.

1. A política portuguesa (entendida em sentido amplo, abrangendo igualmente o poder mediático) mostrou, mais uma vez, a sua natureza. Está impregnada de um discurso repleto de banalidades, de lugares-comuns, de domínio absorvente das conveniências sobre as convicções – e, bem mais grave, de mentiras. O leitor mais cauto e atento conhece a nossa posição de princípio sobre a geringonça, a qual temos aqui desenvolvido desde outubro de 2015: a atual (já próxima do fim) solução governativa assenta numa mentira, numa ilusão que foi imposta e vendida aos portugueses por um primeiro-ministro sedento de poder, por um Partido Socialista em estado de necessidade de carpir as mágoas socráticas, por uma extrema-esquerda em declínio preocupante – todos devidamente acompanhados por uma comunicação social (salvo honrosas exceções) que trocou a sua vocação funcional de imparcialidade pela sua obsessão disfuncional de parcialidade pró--António Costa. A conjugação destas circunstâncias políticas gerou a manutenção da geringonça, a maior fraude da história da democracia portuguesa.

2. Alguns políticos alinharam pelo diapasão do discurso oficial das esquerdas – a questão da legitimidade do governo estaria já ultrapassada. Puro erro: a realidade mostra diariamente a natureza fraudulenta da geringonça. E nós não nos cansaremos de aqui o evidenciar: mais não seja, para que a memória não se perca. Para que fique registado o período em que o nosso país esteve suspenso, parado, a nossa democracia limitada, à mercê da agenda política pessoal de um homem chamado António Costa. Sejamos claros: sem a geringonça, António Costa veria a sua carreira política irremediavelmente comprometida. Que margem de manobra teria o atual primeiro-ministro para ambicionar qualquer cargo na política nacional depois da forma como tirou a liderança a António José Seguro e ter perdido as eleições contra Pedro Passos Coelho, o “político da austeridade”? Nenhuma. Seria o fim do “génio (da lâmpada, com certeza) político” socialista. Para salvar Costa, prejudicou-se Portugal e os portugueses. Dir-se-á que os dados económicos até estão a correr bem. Pois, só que quem profere tal declaração são os mesmos que andaram com José Sócrates ao colo durante anos…

3. Aliás, a prova (irrefutável) de que a geringonça é uma fraude é a recente evolução do quadro político-partidário. Discretamente, sem que a maioria dos portugueses se apercebessem, já se iniciou o tão anunciado novo ciclo político: a extrema-esquerda retomou o seu tom de protesto e de agitação popular (embora ainda suave); António Costa e o PS já guinaram para o centro; Marcelo Rebelo de Sousa encostou-se mais à direita. Ora, esta evolução (a um tempo natural, por razões históricas e lógicas, e estranha, por razões conjunturais) demonstra que a geringonça não é, nunca foi, um governo; é e foi, isso sim e tão-somente, uma coligação antioposição. Prova-se que o mínimo denominador comum que permitiu solidificar (pelo menos, na aparência) os partidos da esquerda foi Pedro Passos Coelho. Ponto.

3.1 Não foi uma ideia, um programa, uma visão para o país, uma ideologia minimamente convergente – nada disso: foi apenas uma pessoa. Para além de ter segurado Portugal quando este se encontrava à beira do precipício socialista/socrático, há um mérito que ninguém pode retirar ao ainda líder do PSD: o título de único político português, na nossa história democrática, que logrou ser o fundamento exclusivo de união entre partidos tão díspares (e com desavenças históricas não negligenciáveis) quanto o PCP e o PS. É certamente com orgulho que Passos Coelho poderá dizer que, sozinho, obrigou os estalinistas à portuguesa a engolir o “sapão” das suas vidas: obrigou-os a apoiar um governo composto pelos mesmos que o PCP acusava de serem uns perigosos capitalistas, exploradores da classe operária, no tempo do governo Sócrates. Até para os comunistas cá do burgo, a vida dá muitas voltas…

4. Por outro lado, afinal, o que unia Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não era a afinidade pessoal, a consideração recíproca, a lógica da relação professor/aluno ou a partilha de uma perspetiva convergente sobre o futuro de Portugal – antes, era um objetivo comum que passava pela mudança, a curto trecho, da liderança do maior partido da oposição. O casamento entre Marcelo e António Costa nunca teve amor ou paixão: apenas ódio em relação a um terceiro (deve ser dos poucos casamentos em que o ódio é um sentimento de união…). O objetivo de derrubar Passos Coelho sobrepôs-se a qualquer outra consideração política – o que explica que Marcelo Rebelo Sousa, poucos meses após tomar posse, tenha declarado que as autárquicas marcariam um novo ciclo político. E que António Costa tenha asseverado, em entrevista a um jornal semanário, que o ciclo político entre as legislativas de 2015 e as autárquicas havia sido o tempo da política – daí em diante, seria o tempo dos consensos. Ou seja: um tempo com Passos Coelho; outro tempo sem Passos Coelho. Tudo isto, sempre, com a discussão da liderança do PSD em pano de fundo.

5. Ora, a manutenção de Passos Coelho como líder do PSD deu espaço a António Costa para se juntar taticamente à extrema-esquerda, sem que daí lhe adviesse uma fatura pesada: como o objetivo era atacar a direita que nos governou, todos os aliados seriam úteis. Uma frente de esquerda (mesmo incluindo políticos e partidos extremistas) seria sempre um ato patriótico, estando em causa o afastamento de Passos Coelho. E, jogando com a impopularidade mediática do líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa optou deliberadamente por atuar como se de um Presidente oriundo do espaço da geringonça se tratasse. Para quê? Para, precisamente neste novo ciclo político – que já se iniciou e que o próprio anunciou, urbi et orbi, em 2016 –, poder deslocar-se para a direita sem ser acusado de sectarismo ou de cumplicidades com o seu partido.

6. Neste contexto, a capitulação (temporária?) de Passos Coelho é uma excelente notícia para António Costa e para Marcelo Rebelo de Sousa – e uma péssima notícia para a geringonça. Fim de Passos Coelho significa fim da geringonça. Porquê? Fácil: porque, até agora, tivemos um “governo negativo”, mantido apenas pela necessidade de acabar com o ciclo de Passos Coelho, precipitando a sua saída e revertendo o seu legado. É algo inédito que deve ser estudado pelos cultores da ciência política: em Portugal tivemos uma solução governativa que se uniu para fazer oposição; e uma oposição que, muitas vezes unida, parecia que ainda governava. A geringonça foi, pois, uma espécie de solução governativa destrutiva: utilizou-se o expediente constitucional de formação de governo para fazer oposição às forças políticas eleitorais maioritárias.

7. Estando encerrado o ciclo Passos Coelho, o que resta da geringonça? Nada. Acabou. Agora, vamos para eleições quando António Costa quiser. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa já confidenciou aos seus mais próximos que dificilmente não teremos legislativas já no próximo ano. R.I.P., geringonça – uma fraude que levou a hipocrisia política ao extremo.

 

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