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Jeff Bezos. O fundadador da Amazon para quem nem o céu é o limite

Jeff Bezos. O fundadador da Amazon para quem nem o céu é o limite

Sónia Peres Pinto 22/11/2017 12:17

A Amazon, que começou por ser uma plataforma de venda de livros, hoje em dia está avaliada em mais de 460 mil milhões de dólares, emprega milhares de pessoas e conta com um exército de robôs. Considerada a maior retalhista do mundo, vende praticamente tudo. Jeff Bezos, o homem detrás da empresa, tem a ambição de lançar viagens ao espaço.

O império de Jeff Bezos, fundador da Amazon, começou a dar os primeiros passos em 1994 quando foi ‘obrigado’ a decidir o que iria fazer no futuro – continuar a trabalhar em Wall Street ou investir numa empresa de venda de livros. Antes disso ainda tentou lançar uma empresa de envio de newsletters em formato de faxes, mas a ideia não teve sucesso. Acabou por optar pela segunda hipótese já que sempre foi uma apaixonado por livros e acabou por revolucionar não só a indústria do comércio eletrónico como também mudou radicalmente outros mercados, como o publishing, televisão, cinema, jornalismo, entre outras. Jeff já tinha estudado os hábitos de compras dos norte-americanos e descobriu que a venda de músicas e livros pela internet seriam dois bons negócios. E nas suas pesquisas descobriu ainda que as livrarias poderiam ter milhares de livros, mas nunca conseguiriam expor todos os títulos disponíveis e, como tal, um catálogo digital seria a solução.

Com essa informação nas mãos foi desenvolvendo o projeto que é atualmente uma das maiores plataformas de comércio do mundo. Começou por se chamar Cadabra, mas rapidamente mudou de nome e, em outubro de 1994, nasceu a Amazon.

Em junho de 1995 depois de ter tido um curso rápido de venda de livros – que durou três dias – e ter recorrido à ajuda dos pais para o investimento, o site vai para o ar. Nos primeiros dias era o próprio Bezos que recebia os pedidos de clientes. Alugou uma garagem, em Seattle – onde já estava a Microsoft – onde empacotava os livros juntamente com a sua mulher, Mackenzie Bezos. Mais tarde, com o volume de negócios a aumentar, foi contratando vários colaboradores. Atualmente a empresa está avaliada em mais de 460 mil milhões de dólares (mais de 388 mil milhões de euros) e é conhecida pela sua forte componente tecnológica e visionária. A sua rede de armazéns está em países como Estados Unidos, Reino Unido e Espanha e inclui um verdadeiro exército de robôs para apoiar os trabalhadores, aumentar a autonomia e o desempenho e melhorar a rapidez das entregas. Só nos últimos cinco anos criou mais de 150 mil postos de trabalho nos EUA, aumentando a sua força de trabalho em 180 mil pessoas até ao fim do ano passado. O negócio da Amazon, como o Amazon Marketplace e o Amazon Flex, vai ainda criar centenas de postos de trabalho para pessoas que precisem de alguma flexibilidade para se tornarem empreendedores e criarem o seu próprio horário. Esta equipa é reforçada por mais de 45 mil robôs que que ajudam os trabalhadores nos armazéns de distribuição.

 

O Poder do Feedback

O crescimento deste negócio foi sempre acompanhado pela ideia de melhorar continuamente a atividade, daí o fundador deste gigante estar sempre preocupado com os ‘feedbacks’. E, por isso, não é de estranhar que tenha pedido para os pacotes de envio serem redesenhados após ter recibo um email de uma cliente que se queixava de ter pedido ajuda ao sobrinho para abrir o embrulho.

O caminho para chegar ao império nem sempre foi fácil. Numa entrevista ao The Wall Street Journal, o empresário lembrou que, durante as primeiras semanas, todos os funcionários trabalhavam até às três da manhã para empacotar e endereçar os pedidos. A única ação publicitária da Amazon consistia em alguns cartazes espalhados pela Barnes & Noble, que diziam apenas: «Não encontrou o livro que procurava?», juntamente com o endereço do site. Mas já nessa altura a empresa faturava 20 mil dólares por mês (perto de 17 mil euros por mês). Um valor bem longe dos quase 340 milhões de euros em que o negócio estavam avaliado quando, em 1997, avançou com uma oferta pública inicial (IPO). Dois anos mais tarde foi eleito pela revista Time a ‘Pessoa do Ano’.

Mas nem assim o empresário rendeu-se ao luxo. Salvo exceções, não se viaja na classe executiva, o refeitório não é grátis, não há massagens nem zonas de relaxamento. A decoração é simples. Ou seja, bem diferente do que caracteriza as outras empresas de tecnologia em que luxo combina com diversão.

Também é conhecido pela sua rigidez nas relações laborais. Por isso não é de estranhar que todos os funcionários sejam classificados em níveis que vão de 1 a 12, em que só ele é que tem nota máxima.

Mas Jeffs – formado em engenharia eletrónica – quis sempre mais. Em agosto de 2013, comprou o jornal The Washington Post por 250 milhões de dólares (quase 212 milhões de euros).

Entretanto, a multinacional não tem parado de crescer e hoje vende produtos eletrónicos, vestuário, joias, artigos desportivos, jogos, brinquedos, eletrodomésticos e até produtos alimentares. O crescimento da Amazon nos últimos anos representou um aumento de 10.200 milhões de dólares na fortuna de Bezos em 2017. O primeiro lugar da lista continua a ser ocupado pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, com uma fortuna avaliada em 86 mil milhões de dólares. Na lista anual da revista norte-americana Forbes, conhecida na semana passada, Bezos surgia em terceiro lugar com uma fortuna de 72.800 milhões de dólares.

Já em julho deste ano, Jeff Bezos foi eleito pela mesma publicação como homem mais rico do mundo, destronando o fundador da Microsoft, graças à valorização em bolsa dos títulos da empresa de comércio eletrónico. Mas a liderança durou apenas uma manhã. Quando os mercados abriram nesse dia, a fortuna de Bezos estava avaliada em 90,6 mil milhões de dólares, segundo a Forbes, o que colocava o fundador da Amazon no topo da lista pela primeira vez. Após uma subida da cotação no início do dia, as ações da empresa de Seattle voltaram a descer e fecharam o dia em queda. Foi o suficiente para baixar a fortuna de Bezzos para ‘apenas’ 88,7 mil milhões de dólares (540 milhões abaixo do dia anterior). Já depois do fecho do mercado, a fortuna de Bezos sofreu novo revés, com a divulgação dos resultados do segundo trimestre.

Ainda assim, o empresário poderá voltar de novo à liderança da lista, uma vez que detém quase 17% das ações da Amazon – isso significa que pequenas flutuações no valor da empresa possam ter consequências na ordem dos mil milhões de dólares.

Mas a ambição de Bezos não fica por aqui. O empresário fundou a Blue Origin, que tem por objetivo construir foguetões mais rápidos, com uma maior potência para conseguir viajar no sistema solar e ainda levar turistas a conhecer o «desconhecido». Bezos espera cobrar 300 mil dólares por bilhete (cerca de 275 mil euros) por uma curta viagem ao espaço.

 O empresário admitiu ao Washington Post que «é tempo de a América voltar à Lua – desta vez para ficar.» Na mesma entrevista, o fundador da Amazon e da Blue Origin afirmou que o futuro projeto de tornar a lua habitável é difícil mas alcançável. No início deste mês, vendeu um milhão de ações da Amazon correspondentes a 1,3% da participação que o líder da retalhista detinha no capital da empresa por 1,1 mil milhões de dólares (945 milhões de euros) para financiar esta nova empresa que deverá levar pessoas ao espaço.

 

Negócio quase sem limite

Não há dúvidas de que a Amazon é a maior retalhista do mundo e está bem longe do projecto que foi fundado: livraria online. A Amazon, que chegou a considerar-se «a loja de tudo», até produz programas de televisão através da Amazon Prime, com a empresa a aumentar gradualmente o investimento em conteúdos audiovisuais. Exemplo disso foi o anúncio feito esta semana de que vai adaptar O Senhor dos Anéis para a televisão. A fórmula para o sucesso é simples: as ambições de Bezos são aliadas à sua capacidade de reinventar negócio quase permanentemente.

A última novidade diz respeito ao mercado automóvel, com a marca Opel a tornar-se na primeira marca a vender automóveis diretamente no site de vendas online.

A marca alemã disponibilizou, através do seu importador espanhol, uma série especial, disponível exclusivamente através do domínio espanhol da Amazon (amazon.es). A Opel pretende verificar como o comércio online pode ser usado para vender automóveis. O Grandland X vai ser disponibilizado através da Amazon – serão apenas 20 unidades por 29.564 euros. Um comprador interessado deverá depositar um sinal de 500 euros, e depois de finalizada a compra, receberá o seu carro novo três dias depois.

Esta experiência já tinha sido realizada, no ano passado, pela filial francesa da Amazon ao vender online 15 exemplares do Mii by Mango. Quando adquirida através da plataforma Amazon.fr, esta edição especial da Seat oferecia a promessa adicional de ser entregue aos seus clientes, diretamente nas respetivas casas, em 72 horas. O êxito foi tal que acabaram por ser incluídas nesta acção mais 10 unidades suplementares, para o que terá contribuído também um preço exclusivo de 10.990 euros.

Mas mais insólito poderá ser a compra de uma casa que, apesar de ser de pequenas dimensões, já vem completamente decorada, mobilada e com tudo o que é precisa para lá viver. Trata-se de um contentor, igual aos que são usados nos portos, com pouco mais de 30 metros quadrados e até inclui ar condicionado. Estas ‘mini-casas’ são produzidas pela MODS International que garante a entrega deste segundo lar na morada escolhida. O valor ronda os 36 mil dólares (30,5 mil euros), aos quais acrescem 4 mil dólares (3,3 mil euros) dos portes.

Menos «radical» é a compra de produtos alimentares como leite, cereais ou produtos para limpar a casa. A estratégia é simples: aproximar a empresa de um modelo de comércio de retalho mais «tradicional». Nessa senda, é compreensível a compra da cadeia de supermercados norte-americana Whole Foods Market por 13,7 mil milhões de dólares (mais de 12,2 mil milhões de euros).

Esta compra veio reforçar o objetivo da Amazon de transformar o retalho norte-americano. Jeff Bezos acrescentou que a compra constitui «uma oportunidade para maximizar o valor dos acionistas da Whole Foods Market», expandindo, ao mesmo tempo, a missão da Amazon de «levar a melhor qualidade, experiência, conforto e inovação aos clientes». Ou seja, se por um lado ganhou uma presença física no mercado com centenas de lojas da Whole Foods, por outro, permitiu acelerar a sua estratégia de fundir as compras eletrónicas e as compras no espaço das lojas.

Mas como para Jeffs o céu é o limite, já está a desenvolver o projeto de um ‘avião-armazém’ gigante que utilizará drones para fazer entregas porta a porta. A ideia é que este armazém consiga planar a grande altitude (45.000 pés)sobre as maiores metrópoles do mundo — sem nunca pousar, pois será reabastecido de combustível, empregados, provisões e produtos em pleno ar –, saindo dela drones que entregarão as encomendas na morada desejada. Se o avião-armazém poderá ser considerado futurista, dirão alguns, o caso dos drones (e da entrega de encomendas via drone) já não é uma novidade. Tanto que a Amazon começou a testar estas entregas em 2016: a primeira foi realizada em dezembro do ano passado, na localidade de Cambridgeshire, no leste de Inglaterra.

E enquanto os negócios se vão multiplicando, o empresário já está a preparar a construção da sua segunda sede nos Estados Unidos, tendo para tal projetado um investimento superior a 5 mil milhões de dólares (cerca de 4,2 mil milhões de euros). Mas até aqui o empresário poderá ganhar dinheiro com esta operação, já que as ofertas das cidades candidatas foram generosas e há promessas de incentivos que poderão ultrapassar o custo do investimento. A cidade vencedora só será conhecida no próximo ano. A única garantia da retalhista online é a criação de 50 mil empregos com a construção da nova sede.

 

Inovação a dar cartas

Se há sempre uma garantia em torno da Amazon é o facto de estar sempre a revolucionar o mercado do comércio eletrónico e, acima de tudo, o seu modelo de negócio. Recentemente, por exemplo, foi lançado o novo serviço Amazon Key. Isto significa que, sempre que encomendar algo na gigante norte-americana e mesmo que não esteja em casa, a encomenda vai lá estar à sua espera quando chegar. Através desta solução é permitido aos distribuidores deixar a encomenda no interior da casa do destinatário, através de um equipamento especial que conseguirá abrir a porta. Para usufruir do serviço tem de ser membro do Amazon Prime e possuir esse tal equipamento especial, composto por uma câmara de segurança diretamente projetada para o efeito e uma fechadura especial.

Mas como funciona? Na hora de efetuar a sua compra online, selecione o modo de envio ‘normal’ mas, no modo de entrega, ‘Amazon Key’. No dia da entrega irá receber uma mensagem de aviso, com uma estimativa da hora de chegada. Por fim, receberá uma notificação com o aviso ‘a chegar agora’. Mesmo antes de tentar pelo sistema, o distribuidor vai bater à porta para se certificar se está alguém em casa. É aqui que a tecnologia começa a fazer efeito.

O distribuidor vai destrancar a fechadura remotamente, através da aplicação, e abrir a porta, ativando de imediato a câmara para que o destinatário consiga controlar a entrega, mesmo que esteja longe. Não há códigos nem chaves de casa. A encomenda é colocada no interior de sua casa e o distribuidor volta a sair, trancando remotamente a porta.

Após este processo, o destinatário receberá uma notificação de que a entrega foi concluída. Terá ainda acesso a informações como a hora exata de abertura da porta, assim como a hora exata de fecho. Poderá ainda bloquear o acesso através de um botão na aplicação, a qualquer momento. A Amazon garante que todos os seus distribuidores passam por testes de segurança e confiança, de modo a garantir que não existem problemas na entrega.

Para já, este novo serviço vai estar disponível em 37 cidades e não apresenta qualquer custo acrescido.

 

E em Portugal?

A Amazon não tem uma presença direta em Portugal, mas há muito que os portugueses podem fazer compras no mercado online da empresa e podem aceder a alguns dos seus serviços. No entanto, este cenário poderá ser alterado, já que a empresa, nos últimos meses, enviou vários sinais para o mercado português que parecem colocar Portugal na sua mira. A própria empresa de análise Caixa BI emitiu uma nota aos investidores em agosto deste ano onde assumia justamente isto. «A possibilidade de tal vir a acontecer [entrada da Amazon em Portugal] a relativamente breve trecho é agora mais elevada», diziam os analistas.

Ainda assim já foram anunciadas novidades práticas para o mercado português. A partir deste mês, todas as encomendas standard feitas em Portugal a partir da Amazon Espanha (amazon.es) e cujo valor ultrapasse os 29 euros, não vão ter qualquer custo de envio, assim como encomendas de livros com valores superiores a 19 euros. A empresa garante ainda que os clientes da Amazon Espanha em Portugal vão passar a ter acesso a «milhões de produtos diretamente vendidos ou expedidos pela Amazon.es» sem terem de pagar portes.

Ao mesmo tempo, foram adicionadas novas marcas ao catálogo de oferta disponível. «Algumas das marcas de moda adicionadas à seleção de produtos para Portugal são as marcas de roupa Zippy, Salsa e Tiffosi, além da marca de calçado Fly London. Também as obras de alguns dos autores portugueses mais relevantes, como António Lobo Antunes e Alice Vieira, por exemplo, estarão disponíveis para os clientes», revelou entretanto a empresa.

A verdade é que este é o sinal mais forte de que a empresa fundada por Jeff Bezos já enviou relativamente à sua aproximação ao mercado português. A criação de envios gratuitos mediante uma determinada despesa poderá ajudar a empresa a perceber melhor qual o verdadeiro nível de interesse dos portugueses na sua loja online e quais as categorias de produtos mais populares.

Sendo este o sinal mais forte de todos de que a Amazon.pt pode estar para breve, não foi o único. Em março, a empresa e a Repsol fecharam um acordo que prevê a criação de pontos de recolha de produtos nos postos da gasolineira em Espanha e em Portugal, o que engloba cerca de quatro mil pontos de venda.

 

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