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Esta ‘geringonça’ não se escangalha facilmente

Esta ‘geringonça’ não se escangalha facilmente

Luís Claro 21/11/2017 15:25

Os socialistas acreditam que a ‘geringonça’ vai durar mais dois anos. O deputado Tiago Barbosa Ribeiro defende que ‘seria um erro clamoroso o PS provocar uma crise política’.

Novembro é o mês da ‘geringonça’. Foi este o mês em que, há dois anos, o PS assinou os acordos com o PCP e o BE que permitiram uma solução inédita na democracia portuguesa. Foi também em novembro que António Costa tomou posse com a promessa de «virar a página da austeridade». Dois anos depois de Paulo Portas ter batizado a inédita aliança de esquerda como a ‘geringonça’, o espírito é que, ao contrário do significado que lhe é atribuído pelo dicionário, esta solução política não é uma «construção que se escangalha facilmente».

O socialista Tiago Barbosa Ribeiro está mesmo convencido de que, apesar das divergências e do aumento da contestação social, após as eleições autárquicas, o Governo vai durar até ao fim. «Passados dois anos há uma enorme coesão desta maioria. Não é uma coesão baseada em padrões tradicionais, mas considero que esta maioria é mais estável do que o último Governo de coligação em que assistimos a episódios dramáticos como a demissão de Paulo Portas». Da parte do PS, garante o deputado socialista, não existe «nenhum tipo de tentação de provocar uma crise política, isso, aliás, seria absurdo e seria um erro político clamoroso. O PS está comprometido em cumprir a legislatura até ao fim».

Tiago Barbosa Ribeiro não tem dúvidas de que os resultados, na primeira parte da legislatura, são «inequivocamente positivos» e os portugueses têm demonstrado «esse contentamento».

O Bloco de Esquerda também não se arrepende de ter assinado este acordo com os socialistas. «Foi um caminho que fizemos. Ainda bem que o fizemos», diz ao SOL José Manuel Pureza. O deputado do BE considera que «a finalidade para que se assinaram os acordos está a ser cumprida» e, apesar das «limitações que são muito claras, foi possível travar a agressão que estava a ser cometida. Foi uma forma que se encontrou para formular uma alternativa que passasse por devolver rendimentos e direitos essenciais e, ao fim de dois anos, essa marca é clara e inequívoca nas políticas que têm sido seguidas».

 

PCP promete uma ‘intensa intervenção própria’

À pergunta sobre se existem condições para cumprir a legislatura, Pureza responde com a garantia de que «mais do que condições há a exigência de que o caminho não fique por aqui». O deputado do BE diz que «cada um equacionará as suas responsabilidades», mas da parte do Bloco «há a exigência de que aquilo que se começou continue a ser aprofundado».

À mesma pergunta, o PCP responde com mais cautelas e com a garantia de que não abdicará de estar ao lado dos trabalhadores. «Quanto ao percurso dos próximos dois anos, da parte do PCP haverá uma intensa iniciativa e intervenção própria e o estímulo à luta dos trabalhadores e do povo, para levar tão longe quanto possível a defesa, reposição e conquista de direitos, elementos essenciais da resposta aos problemas nacionais e, ao mesmo tempo, a afirmação de que o que Portugal precisa, não é o regresso ao passado, mas sim a política alternativa patriótica e de esquerda que o PCP afirma e defende».

O gabinete de imprensa do PCP, em resposta ao SOL sobre o balanço que o partido faz destes primeiros dois anos, responde que «a nova fase da vida política nacional dos últimos dois anos é marcado por avanços na defesa, reposição e conquista de direitos, mas também por contradições e limitações». Mais uma vez, o PCP faz questão de esclarecer que aquilo que existe é «um Governo minoritário do PS» e não «qualquer acordo de Governo ou de incidência parlamentar».

 

Críticos internos sumiram-se ou reintegraram-se

António Costa tem governado o país num clima de paz interna. A aliança com os partidos de esquerda começou por ser contestada por alguns socialistas, mas os críticos sumiram-se. Uns adotaram uma posição mais discreta, outros integraram-se na ‘geringonça’. Eurico Brilhante, por exemplo, considerava, há dois anos, que esta solução era «pouco sustentável» e que «quem perde as eleições deve ir para a oposição», mas hoje é secretário de Estado da Internacionalização.

A contestação a uma aliança inédita na história da democracia foi liderada por Francisco Assis. O eurodeputado considerou o acordo com o PCP e o Bloco «um erro histórico». Optou, porém, por assumir uma posição mais discreta e desistiu da ideia de criar uma «corrente crítica e alternativa».

Um dos poucos socialistas que continua a assumir-se como crítico da ‘geringonça’ é António Galamba, um dos principais dirigentes do PS nos tempos de António José Seguro. Ao SOL, o ex-deputado defende que esta solução «aprisionou o PS». Para este socialista, o balanço «imediato para as pessoas acaba por ser positivo», mas «há um conjunto de questões estruturais que o PS tem negligenciado. O risco que se corre é o risco da política do ioiô. Ora se dá, ora se tira, porque não há uma lógica de sustentabilidade em muitas das opções que são tomadas».

Galamba acredita que o pior ainda está para vir, porque «estes dois anos foram para reverter e devolver», mas «a partir de agora é preciso encontrar soluções de sustentabilidade e é aí que começam os problemas».

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