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Mário Cesariny. Rapto desobediência exaltação e morte

Mário Cesariny. Rapto desobediência exaltação e morte

Diogo Vaz Pinto 20/11/2017 12:13

Está aí, pouco mais de uma década após a morte de Cesariny, a reunião da sua poesia, para lembrar-nos como, no fim, “no deitar a língua de fora, no grande manguito aos Autores/ é que se vê se uma obra está completa”


O perigo de um grito lindíssimo mantém-se. Ainda que o neguem e, à menor lufada que ateie a desordem nos papéis, se ponham a abanar as cabeças. E a tese de intenção malévola logo fica afastada face às evidências todas de como é de si mesmos que primeiro escondem esse risco, e vão cantar o desencanto comovidos com o seu desespero, espalhando aos ventos o evangelho de cinzas que esteja na moda. Asseguram, assim, aos demais como isto, este ser cada vez menos homem e cada vez mais as suas circunstâncias, é tudo o que há. Sem mistério nenhum; a existência ao rés dos impulsos, das compulsões naturais.


E se nada é mais natural do que ver-se cair ao lado de si, deixando que triunfe o outro, esse que adere à “inércia da consciência”, que em nome do que é digno e das responsabilidades vai ser gente na vida, e acaba a votar e participar no linchamento de quem revelou o instinto oposto. Se mesmo Einstein deixou inescapavelmente claro o quanto a ciência tem os seus limites relativos – “O que nós sabemos serve-nos apenas para as nossas relações, depois disso é falso. Falsa a concepção de espaço que nós temos, falso o tempo que fabricamos” – e se, ao citá-lo, António Maria Lisboa retirou tão vastas consequências, notando como esta sociedade “Obtusa” não pode senão interpor-se e criar problemas ao “Destino do Homem”, porque é que volvidas algumas décadas deixámos o pressentimento deste perigo afastar-se tanto de nós?


Mário Cesariny foi um astro desses que tão cedo quanto surgem indignam a paisagem que fica a vê-los fulgurar. E mesmo hoje, quanta coragem é ainda preciso para, sem o cerimonial das meias-tintas, atender ao seu incitamento, não desviar-se do caminho desse “fogo devorante”. A sua influência ameaça desde logo consumir inteiramente o golpe de ar que somos capazes de reunir. Mas eis a pergunta com a qual haveremos de nos confrontar em algum momento: Seria isso pior do que escapar-lhe, salvar a inocência em nome de mais alguns títulos depostos na biblioteca do esquecimento?


O mais fastidioso dos pecados, na arte como na vida, só pode ser esta forma de pudicícia, mesmo se por estes dias prefere dissimular-se na pele de “um certo pudor tardio”.


“Há trinta anos os jovens gafanhotos caíram sobre a poesia radioactiva de Cesariny, comeram dela, fulguraram dela um instante como pequenas jóias uranianas. Carbonizou-os o fogo roubado. Jazem agora nos arrabaldes.” É notório o deleite com que, nestas palavras, em 1988, Herberto Helder parece dar o nó e lançar ao rio o saco em que mete cada um dos gatos que, ao lado do autor de “Pena Capital”, ousaram tomar os telhados da cidade, espiando e quebrando telhas, apontando às cabeças, provocando infiltrações de todo o feitio – das diluvianas chuvas aos antigos sóis –, e abalando a casa inteira sob o efeito dos “secretos ritmos do mundo”, quando lá dentro prosseguia e já se retomou hoje o murcho debate entre as duas ou 500 barricadas das frívolas oposições para brincar à arte e aos seus desígnios sociais. 


Pretender terminantemente que o surrealismo possa ter fracassado, que todo o seu abalo tenha sido curado como uma febre passageira, não pode deixar de nos inquietar. Se este tinha o seu fascinante arsenal apontado à tacanha moral burguesa em que hoje chafurdamos, negar a grandeza heróica dos seus propósitos e tomá-lo como infantilidade equivale a tirar o corpo e o juízo do caminho de um sonho sem o qual a nossa condição não se distingue favoravelmente da do gado reunido às portas de um matadouro.


Tire-se à vida o fôlego da invenção, essa através da qual os homens pretendem vingar-se ou tomar sobre si mesmos a tarefa de “acabar de construir a realidade”, tire-se isso e o que nos resta? Se, como Botho Strauss notou “observar o real é sempre insatisfatório”, como se explica esta resignação que se abate de tempos a tempos sobre nós, ao ponto de se abdicar da grande aventura de fazer da vida algo que implique de nós toda a astúcia, talento, fervor e, em troca, nos dê verdadeiro gosto viver.


“Uma tremenda força reaccionária cobre de noite a Poesia.” Por estes dias reassumem toda a suas ênfase as palavras de Ernesto Sampaio ao assinar um dos mais poderosos testemunhos da série de efeitos sísmicos que este movimento procurou engatilhar na arte, para que a liberdade e o amor impusessem a sua cadeia de choques, provocando a vergonha sobre esta baixíssima condição na qual investimos diariamente a porção mais mensurável dos nossos esforços. Falar de Mário Cesariny e querer levantar muito alto a sua cabeça na tentativa de, exaltando a faustosa e indesmentível individualidade do seu génio, fazê-la transcender o próprio surrealismo, pôr-lhe os cornos para tomar o seu lugar no cânone, é um baixíssimo propósito.


Sem surrealismo talvez ao poeta não tivesse sucedido aquela contracção com os dentes, a imposição violenta ou cutilada atroz que o levou a indignar-se muito a montante desses trocos mal contados que nos servem de indignação: “Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu deus de Vasconcelos?/ Porque é que querem fazer passar para o meu corpo/ uma caricatura a todos os títulos porca?”


Não venham com equações fantasistas: Sem Cesariny certamente o surrealismo português seria uma mancha talvez fácil de esconder na fatiota do século passado, mas sem a glória ardente que lhe permitiu reclamar tão furiosa e ancestral linhagem, talvez estivéssemos só aqui a falar de versinhos. E podia até ser dessa loiça muito rica que, depois de provocar asco, acaba a enfeitar as paredes da nossa bela tradição lírica, mas o que distingue Cesariny é a sua vaidade intensa não ter desejado impor-se pela ofuscação de outros corpos dançando ao mesmo ritmo e relações de atracção e repulsa que mantem em órbita as grandes esferas. 


A reunião da obra poética de Mário Cesariny é, naturalmente, um dos acontecimentos editoriais do ano. E não tanto por termos agora reunidos num mono de quase 800 páginas –  uma vez mais pelos exorbitantes 44€ que obrigam o jovem leitor a pôr no prego os brincos da mãe, os botões de punho do pai ou, de preferência, roubando o volume numa dessas cadeias livreiras –, não tanto por ser esta edição o melhor encontro que se possa ter com um poeta que deixou bem claro que não estava ansioso por ver tudo o que publicara ser compilado num matacão com peso para um corpo ir ao fundo do rio. Antes porque nos permite ver sair ilesas e cintilantes as borboletas do poeta debaixo dos escombros do odioso tempo que lhe foi dado viver.


E esta é uma altura tão preciosa quanto qualquer outra para virar o jogo contra o reaccionarismo magoado de alguns poetas e dos mortos-vivos que pastam na crítica, que vão em procissão saudando aquilo a que a pátina do tempo já cobrio de verniz. Mas o aviso de Artaud de que a realidade não está ainda acabada não se esquece, e mesmo se o instinto que dá caça ao improvável anda embotado, brilham como coral no fundo do mar os versos de Cesariny, são inexauríveis as suas páginas àqueles que trazem ainda um golpe de ar e estão dispostos a afogar-se. A sua singularidade mede-se em anos luz, e ao mesmo tempo sente-se na pele o seu calor, que irradia e queima também, mas deve preocupar-nos menos o perigo de acabarmos carbonizados do que o de envelhecermos, morrendo como é tão comum por aí sem amor nenhum pela nossa morte, vítimas nada extravagantes de alguma dessas tão tristes causas naturais.
 

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