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No sonho de D. Quixote. Entre altura e altitude...

No sonho de D. Quixote. Entre altura e altitude...

Afonso de Melo 14/11/2017 20:29

António Gedeão escreveu: «Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes». A propósito de gigantes vale a pena recordar o Dr. Braz Luís de Abreu e o seu Portugal Médico. Um livro que Camilo Castelo Branco considerou não haver novela nem poema satírico português que lhe chegasse à barba.

 

Golias dos Evangelhos era enorme. Como se diz popularmente: um calmeirão. Media, segundo a verdade das Escrituras, seis côvados e um palmo - qualquer coisa como dois metros e oitenta. Assim mesmo, por extenso. Ficava ali no meio entre a altura e a altitude, se quiserem.

Agora vou falar de uma figura extraordinária do Portugal do Século XVIII: o Dr. Braz Luís de Abreu. Escreveu um livro chamado Portugal Médico, também conhecido por Monarchia Medico Lusitana. 

Não se pode dizer que seja uma obra autenticamente científica. Aliás, basta dar uma olhada ao que o Dr. Abreu diz sobre a espécie Humana: «Há homens que são Gigantes, outros são Pigmeus, outros Andróginos, uns Monstruosos e outros Prodigiosos».

Interessante analogia, sem dúvida. Resolveria, até, questões rácicas incomodativas.

Mas essencialmente pouco prática.

Falar de Pigmeus costuma ser comum: o de anões, melhor dizendo.

Os gigantes já costumam ficar um pouco à parte da escrita do dia a dia.

Em Portugal houve um gigante famoso: chamavam-lhe O Gigante de Moçambique.

O seu nome de batismo era Gabriel Estêvão Monjane.

Haverá muitos leitores que se recordam dele.

Foi pastor na sua juventude, em Manjacaze, e desde que nasceu não parava de crescer.

Os portugueses sempre tiveram um fascínio especial pelo Guinness Book of World Records. Para garantirem o nome na curiosa publicação são capazes de tudo e mais alguma coisa, por mais estúpida que seja.

Gabriel Mondjane só teve de ser ele próprio: medir 2,45 metros de altura.

Os registos do Guinness encaixam-no, atualmente, no 13º lugar dos gigantes de todos os tempos. Gigantes a sério: isto é, não valem nem os das lendas nem os das Escrituras.

O primeiro classificado é Robert Pershing Wadlow - nascido em 1918, falecido em 1940 - com 2,72.

Mondjane entrou no Guinness em 1988. Morreria em Janeiro de 1990, com 46 anos. Sempre foi fraco de pernas. Caiu de umas escadas, na sua casa de Mandlazaki, a terra onde nasceu. E do alto de si mesmo.

Andou por aí a ser exibido como um fenómeno de feiras: em Portugal e no mundo.

Como vimos, o Dr. Braz Luís de Abreu estava-se nas tintas para o fenómeno do gigantismo ou da acromegalia, geralmente uma síndrome causada pelo aumento da secreção da hormona do crescimento devido a uma disfunção da glândula pituitária. Estava mais interessado nas monstruosidades em si. 

O seu livro tem muito de monstruoso. Vale a pena ler: «Os rabinos dizem no seu Talmude que houve um gigante de tão avultada grandeza que sendo Moisés da altura de dez côvados, e tendo na mão uma lança de outros dez, e dando um salto de outros dez, só chegou a ferir o gigante no tornozelo». Infelizmente para ele devia sofrer do tendão de Aquiles, já que morreu. «Ficando no campo o corpo gigante morto, depois de desunidas as partes do cadáver, sucedendo que indo um caçador atrás de um veado e entrasse este pela canela de uma perna do gigante, e o caçador montado a cavalo atrás dele, correu em sua perseguição durante seis horas pela dita canela».

O nosso insigne doutor não ficava atrás do Barão de Munchausen nas suas descrições, convenhamos.

E, para compensar a irrealidade da sua ciência médica, era supinamente divertido.

Do sonho à realidade

Não deixo para trás mais uns gigantes descritos pelo Dr. Abreu que tinha um olho de vidro e mereceu ser personagem de Camilo Castelo Branco. Por exemplo Poro, Rei da Índia, mais alto do que o maior dos elefantes, ou Pallante, filho do Rei Evandro, cujo cadáver, levantado em pé, chegava às ameias dos muros de Roma.

Ao pé desta gente, Wadlow era um minorca.

E Jonh William Rogan (1868-1905), natural de Summer County, Tenessee, um rodas-baixas, a despeito de ser considerado pelo mesmíssimo Guinness como o segundo homem mais alto de todos os tempos. O problema de Rogan era grave: anquilosado, muito cedo deixou de conseguir andar, ficando confinado a uma cadeira, de tal ordem que o mediram sentado: 2,64 metros. 

Já o Sultan Kösen, turco, medido em Ankara em Fevereiro de 2009, não só ultrapassava os 2,51 metros como tinha umas mãos e uns pés descomunais - 28,5 centímetros e 36,5 centímetros, respectivamente - coisa que o impediu de prosseguir os seus estudos mas não de ser estudado ao pormenor pelos especialistas da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. Contra si, surgiu a rivalidade do ucraniano Leonid Stadnyk que sempre reclamou publicamente ser dez centímetros mais alto do que Kösen mas se recusou terminantemente a ser submetido a uma mensuração oficial.

Não entrou para a história dos gigantes a sério.

Por seu lado, John F. Carroll (1932-1969), natural de Buffalo, Nova Iorque, foi um gigante que encolheu: chegou aos 2,63 metros e 5 milímetros mas, uma curvatura da espinha, uma escoliose, foi-o minguando a pouco e pouco, tendo morrido com apenas 2,34 metros, o que não deve ter deixado de ser frustrante.

O tesouro desprezado

É-me difícil fugir às maravilhosas descrições do Dr. Braz Luís de Abreu. Acredito que me percebam: «Os primeiros gigantes que houve no mundo foram demónios disfarçados na espécie humana. Valésio tem para si que eles foram gerados por demónios íncubos. O certo é que houve gigantes verdadeiros homens, como consta de muitos lugares na Sagrada Escritura, e ainda depois do nascimento de Cristo os houve e há ainda agora. Comentam os mitológicos que os gigantes foram filhos da Terra, gerados e produzidos de sangue celestial e divino. Fingiram os poetas que estes portentosos homens intentaram fazer guerra aos deuses, pondo montes sobre montes até chegarem a escalar os céus».

Quem não simpatizou grandemente com o nosso distinto doutor foi Teixeira de Aragão. 

O Portugal Médico seria escrito em 1718, mas apenas publicado em 1726, em Coimbra.

Diabruras, Santidades e Profecias, de Teixeira de Aragão, viu a luz em 1894. E a sua referência a Luís de Abreu não tem nada de simpático, como se imagina: «Um livro recheado de puerilidades e inverosimilhanças que documentam, em citações clássicas, o grande atraso em que se encontrava a medicina como ciência em toda a Europa, e com mais especialidade em Portugal».

Seja. Ninguém o contrariará.

As fantásticas descrições do Dr. Abreu valem mais pela criatividade da prosa do que pelo seu valor à luz seja de que ciência for.

E por isso mesmo o desenterrei lá do olvido ao qual tem sido devotado.

Camilo Castelo Branco, o autor da novela O Olho de Vidro, era da mesma opinião: «Este livro, a meu ver, é a mais pitoresca história dos costumes daquele século. Ninguém lê o Portugal Médico e pouco sabem que desprezado tesouro ali está. Como autor de livros de Medicina é vilipêndio nosso que Braz Luís seja contado na lista dos escritores médicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relação das usanças do Século XVIII, não há novela nem poema satírico em português que lhe chegue à barba».

Ora, bem podia o estimado doutor garantir que existia na Mauritânia, ao tempo da escrita da sua obra, um tal de Anteu que media mais de 70 côvados.

Poucos o levaram a sério, e com toda a razão. 

Pena terem deixado de o ler. No meio de tanto prodígio, ele também foi um prodígio.

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