22/11/17
 
 
Mário Cordeiro 14/11/2017
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

Encarar a morte com tranquilidade

Quando teremos a ousadia de, em vez de pensarmos na morte, pensarmos na vida, sim, na vida, mesmo
sabendo-a finita

Ao meu cunhado Tomaz e aos meus filhos, seus diletos sobrinhos

A compartimentação da duração da vida

Quando nascemos, a Organização Mundial da Saúde – que supostamente sabe destas coisas e quer o melhor para nós – “dá-nos” a nós, cidadãos da União Europeia, mais de 80 anos de vida, variando conforme os países, o sexo e outros fatores antropológicos, económicos e sociais.

Seja como for, é nessa perspetiva que condicionamos a nossa vida a partir daí. Na Idade Média, quando se morria aos 30 – na guerra, de acidentes, tuberculose, fome ou vítima de qualquer epidemia –, a visão da duração da vida era outra, bem como a gestão do tempo… Como o é. Aliás, nos países ditos “menos desenvolvidos”, em África, na Ásia ou na América do Sul.

Se nos falarem do que vamos fazer daqui a 200 anos, damos uma risada e dizemos: “Era bom, era!” Mas como sabemos ser impossível, o assunto não nos causa qualquer ansiedade. A nossa gestão do tempo não inclui vidas humanas com 200 anos. Mais, quando um ou outro indivíduo chega aos cem anos, lúcido e brilhante (leia-se: Fernando Pessa, Manoel de Oliveira ou a rainha-mãe inglesa, por exemplo), ficamos surpreendidos: essa pessoa “passou do prazo” e é uma exceção. Isso, mas apenas isso: uma exceção.

É no sentido de mais ou menos 80 anos que programamos a nossa vida: nascer, crescer, ser adolescente, estudar, ter uma profissão, casar, ter filhos, trabalhar, ser avó ou avô, reformarmo-nos, conformarmo-nos e morrer então, ao fim de “uma vida”. Temos pegada à nossa pele (e à nossa alma), desde os 18 meses de idade, altura em que passamos de deuses a humanos, a finitude da vida, a angústia da finitude da vida com que alguns de nós vivem o quotidiano, tentando mitigá-la através da criatividade, engenho, tranquilidade e o aprender a não perder tempo com pessoas ou situações que, para nós, “não valem um caracol”.

É nessa perspetiva de vida que estabelecemos a gestão do tempo, dos minutos, das horas e dos dias, das semanas, dos meses e dos anos. Compartimentamos a vida humana e, com este excesso de zelo organizativo, muitas vezes dividimos (esquartejamos) a sociedade em blocos que não contactam uns com outros, com toda a perda que advém dessa atitude anacrónica e errada. É por isso que alguns ainda dizem “no meu tempo” ou “quando chegar o meu tempo”, conforme os casos, porventura esquecidos de que o tempo é de todos os que o vivem, novos e velhos, bebés e adultos. 

A morte, que intimida…

Por outro lado, e como amamos a vida, a ideia da morte assusta-nos. Morte significa doença, dor, luto. A morte do próprio e a morte dos outros. É um assunto desagradável e que evitamos, e se o evitamos é porque, na maioria das vezes, não assumimos ainda a tranquilidade necessária perante a nossa própria morte, embora seja – como sabemos – a única coisa certa que nos acontece depois de nascermos. Talvez esteja aí o paradoxo: dentro da barriga da mãe, só nos espera a vida; depois de nascermos, só nos espera a morte.

Quando morre uma criança ou um adolescente, por exemplo, a sensação de injustiça ainda é maior, porque vai contra a “ordem natural das coisas” e porque desafia o que previamente antevemos: uma vida de nove décadas.
É altura de levantar uma questão quiçá incómoda, mas real: porque é que temos medo da morte ou, dito de outra forma, porque pensamos na morte e não na vida quando, por exemplo, surge um diagnóstico de cancro ou de outra situação potencialmente fatal numa pessoa de qualquer idade, mas designadamente numa pessoa “nova”? Explicando-me melhor: porque é que a vida passa, tantas vezes, para um segundo plano face à ideia da morte, quando deveria, isso sim, ser prioritária?

Redimensionar o tempo, reprogramar os sentimentos

Não se tratará, afinal, de uma questão de tentarmos redimensionar completamente a duração da vida e, em vez de a programar para 80 anos, programá-la para “x” meses ou anos? Espremendo a nossa vida, quanto é que fica de positivo, de encontro com amigos, com familiares, de partilha, de dádiva, de produção? De sentimentos, afetos, amor, paixão, sim, paixão? Pelas pessoas, animais, ambientes, trabalho, hobbies… Pela própria vida? Quanto?

Quando teremos a ousadia de, em vez de pensarmos na morte, pensarmos na vida, na vida que sabemos finita… E depois?, que pode estar reduzida em relação ao que esperamos em termos de longevidade, mas que é vida, sempre vida, e merece a melhor qualidade e dignidade até ao fim, até ao último batimento cardíaco?

A morte é um acontecimento perturbador, seja qual for a relação entre as pessoas e o grau de maturidade dos que ficam. Por muito grandes que sejam as convicções – religiosas ou outras –, a irreversibilidade e a (quase sempre) sensação de injustiça e de perda que a morte nos deixa levantam muitas interrogações. O que dizer, por exemplo, de adolescentes, já de si cheios de dúvidas, incertezas e angústias existenciais?

A esperança de vida aumenta ano após ano (é apenas “esperança”, não uma certeza…). A qualidade de vida, também. O aumento do número de casos de cancro, cada vez mais precoces – como afirma o prof. Manuel Sobrinho Simões, um em cada dois portugueses terá um cancro, e um em quatro morrerá desse cancro –, põe-nos perante situações anteriormente raras. A sociedade abriu-se, a solidariedade aumentou, estes casos são felizmente compartilhados e vividos em conjunto. Tantas vezes, porém, numa perspetiva negativa, de desistência, de abandono, de só contabilizar os anos “que não se vão viver”.

Pensemos, contudo, na vida como o primum movens de tudo. Vivamos momento a momento, com alegria e felicidade, mesmo nas alturas mais difíceis, pensando sempre mais no que temos e que podemos do que no que nos falta ou não é possível. Valorizemos os minutos ganhos e não os potenciais anos de vida perdidos.
Só assim poderemos adquirir a tranquilidade necessária para gostar da vida avidamente, mesmo quando ela se reduz por esta ou aquela razão. Mas não serão o tempo e a sua gestão, afinal, coisas tão subjetivas e tão relativas?

Pediatra, escreve à terça-feira 

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