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Desporto. Shearer alerta para casos de demência

Desporto. Shearer alerta para casos de demência

Bruno Venâncio 13/11/2017 17:34

O antigo avançado inglês é a figura central de um documentário que visa perceber como as pancadas na cabeça podem causar problemas cerebrais aos desportistas.

Um dos grandes nomes do futebol inglês nas décadas de 90 e 2000 - é ainda hoje o melhor marcador de sempre da Premier League, com 260 golos em 441 jogos -, Alan Shearer está agora a colaborar em pesquisas com a universidade escocesa de Stirling, com um propósito muito específico: determinar até que ponto os repetidos cabeceamentos dos jogadores de futebol podem afetar as funções do cérebro. «Estou preocupado por poder desenvolver demência, é algo que me incomoda, que eu possa não ter futuro por causa do futebol», referiu Shearer, hoje com 47 anos, ao jornal britânico The Telegraph.

O antigo avançado de Southampton, Blackburn Rovers e Newcastle é protagonista no documentário Alan Shearer: a demência, o futebol e eu, do canal televisivo BBC, que será transmitido neste domingo e que revela as diferenças na química cerebral do antigo jogador. Ali, Shearer viu analisadas as suas funções cerebrais antes e depois de cabecear uma bola nova por 20 vezes, projetada por uma máquina que simulava a potência de uma bola, como vinda de um pontapé de canto. «Com um grande número de pessoas no mundo a fazer este desporto, é importante estar consciente do que está a acontecer no cérebro e os efeitos duradouros que isso possa ter», alertou.

Um estudo recentemente divulgado pela revista Acta Neuropathologica, de resto, já havia indicado que os futebolistas profissionais são uma classe com elevado risco de desenvolver doenças cerebrais, que em última instância podem causar demência. O referido estudo analisou 14 futebolistas aposentados, que começaram a jogar futebol na infância ou juventude e que apresentam sintomas de demência, realizando ainda exames post mortem a seis futebolistas - todos tinham Alzheimer e quatro deles apresentavam sinais do distúrbio cerebral denominado Encefalopatia Traumática Crónica (CTE).

São dados que ficam muito acima da taxa média de 12 por cento encontrada na população em geral. «As conclusões do nosso estudo mostram uma ligação potencial entre a prática do futebol profissional e a CTE», disse a diretora do estudo, Helen Ling, do Instituto de Neurologia do University College de Londres, embora ressalvando a necessidade de se continuar a aprofundar a matéria.

Desde que o estudo foi tornado público, têm surgido várias críticas. A maior parte considera que o mesmo não reuniu as evidências suficientes para que seja feita uma relação direta entre a prática desportiva do futebol e a demência, uma vez que vários aspetos genéticos e de estilo de vida dos jogadores - fatores que potenciam a propensão de ter a doença - não foram tidos em conta.

Bolas chegavam a pesar 1 kg

Os autores admitiram também ainda não saber qual a frequência ou força necessária para que uma pancada na cabeça crie uma doença neurológica. Peter Jenkins, neurologista e investigador na área das lesões cerebrais traumáticas do Imperial College em Londres, enfatizou que a escala da pesquisa foi muito pequena e que não aborda, de verdade, a questão de quão comum esta doença é para os futebolistas, ou ainda que tipo de golpes a podem causar.

Uma bola de tamanho 5, utilizada por jogadores com mais de 12 anos, deve pesar entre 420 e 450 gramas, com uma de tamanho 4 a pesar entre 350 e 390. No entanto, há vários fatores que podem influenciar o peso da mesma - em dias de chuva, a bola Duplo T, utilizada no Mundial de 1950, chegava a dobrar o seu peso, atingindo quase um quilo, pois era feita de esponja e absorvia muita água. Anos consecutivos a fazer remates de cabeça ou a colidir contra outros jogadores potenciam, de facto, ao aparecimento de danos nos cérebros dos futebolistas. Em 2002, um inquérito apurou que Jeff Astle, antigo internacional inglês, morreu da chamada ‘doença industrial’, ou seja, de demência provocada pelas repetidas cabeçadas na bola.

Esta é uma problemática que, todavia, não se esgota no futebol. Nos últimos anos, têm sido vários os casos de ex-jogadores do chamado futebol americano, râguebi ou antigos pugilistas e desportistas de combate com problemas cerebrais, entre Alzheimer, Parkinson ou demência. Uma análise da Universidade de Boston ao cérebro de 94 antigos jogadores da liga de futebol americano revelou que 90 deles tinham demência, e em 2016 a liga reconheceu oficialmente a ligação do desporto a traumas neurológicos.

Nos desportos de combate, é sobejamente conhecido o caso de Muhammad Ali. Considerado por muitos como o melhor pugilista de todos os tempos, Ali travou desde os anos 80 outra luta - talvez a mais difícil que teve de enfrentar: contra o Parkinson, uma doença neurodegenerativa que, no seu caso, se terá devido precisamente à doença conhecida como demência pugilística - assim chamada por ter sido observada, no início do seu estudo, em antigos lutadores de boxe -, bastante comum em quem sofre repetidos golpes na cabeça, que causam danos irreversíveis e permanentes nas células cerebrais. Os sintomas são de vários tipos: dores de cabeça, problemas de memória, de atenção e concentração, tremores, fala arrastada, desorientação e falta de coordenação motora. Com a progressão da doença, é visível maior irritabilidade, agressividade, confusão mental, má coordenação dos músculos da fala e demência progressiva.

Na altura da sua morte, a 3 de junho de 2016, Muhammad Ali - anteriormente Cassius Clay - já mal conseguia falar e andar. No Brasil, há também dois exemplos muito conhecidos. Éder Jofre, estrela do boxe nas décadas de 50, 60 e 70, tem hoje 81 anos e apresenta dificuldades na fala, embora ainda se mostra consciente e faça inclusive exercício físico. Maguila, por seu lado, abandonou a carreira em 2000, quando começou a sentir sintomas de uma doença degenerativa - acabaria por ser-lhe diagnosticado Alzheimer, originado precisamente pela demência pugilística.

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