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Carlos Carreiras 08/11/2017
Carlos Carreiras

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Todos somos feministas

Estamos a acabar a segunda década do séc. XXI. A luta pelo alargamento dos direitos humanos a quem eles mais têm sido subtraídos, as mulheres, é um imperativo moral.

Portugal tem vivido uma onda de indignação por acontecimentos casuísticos relacionados com violência doméstica. Envolvem figuras mediáticas, da política ao entretenimento, e até decisões e afirmações no âmbito da aplicação da justiça.

Compreendo e partilho a frustração dos portugueses perante os atentados à dignidade humana e o regresso a uma época medieval. Mas está na altura de fazermos mais do que encher as caixas de comentários do Facebook, criar polémica no Twitter ou escrever linhas inflamadas em textos de jornal.

Há uma guerra silenciosa nas nossas sociedades. Há uma guerra que corrói e destrói os fundamentos da família, da comunidade e da economia. Há uma guerra contra as meninas e mulheres do nosso mundo. Essa guerra tem de ser travada. Já.

Uma em cada três mulheres será vítima de algum tipo de abuso – físico, psicológico ou sexual – durante a vida.

Uma em cada quatro mulheres experimentará algum tipo de violência durante a gravidez.

E apenas uma em cada dez tem coragem de reportar o crime e o criminoso.

No mundo, 600 milhões de meninas e mulheres vivem em países onde a violência doméstica não é crime.

A violência contra mulheres e meninas configura mesmo o maior e mais reiterado ataque aos direitos humanos. E nós – pais, irmãos, maridos, avós – não queremos saber? Somos complacentes com o primarismo? Compactuamos com a decadência da humanidade?

Na Índia, as mulheres são alvo de violência sexual animalesca. Na Colômbia, um estudo com dois anos sobre a tolerância face à violência doméstica descobriu que um quinto dos inquiridos concorda com a afirmação “homens a sério têm de controlar as suas mulheres”. No coração da guerra, como a Síria, são todos contra todos – e todos contra as mulheres. Nas nações sem Estado, como as recônditas regiões do Paquistão, Afeganistão ou Somália, as meninas não vão à escola, não podem brincar fora de casa e são forçadas ao casamento, que as condenará a uma vida de escravidão doméstica. Já para não falar nas mulheres adultas que, além de terem de andar cobertas, não podem sair de casa sem os maridos e são colocadas à margem da sociedade. Noventa por cento destas mulheres não sabem ler ou escrever.

É um erro pensar que a violência baseada no género (GBV na sigla inglesa) é um exclusivo de países em desenvolvimento ou zonas de guerra. Onde os direitos humanos são fracos para todos, mas inexistentes para as mulheres. A GBV também é um vírus das sociedades ocidentais.

Tanto na Europa como na América do Norte, a percentagem de mulheres que vivem situações de agressão pelo menos uma vez na vida é chocantemente elevada.

Cascais, fiel à sua tradição humanista e universalista, acolhe por estes dias um encontro do Fundo das Nações Unidas para o Apoio à População (UNFPA) que tem na ordem de trabalhos um ponto crucial: definir políticas de combate à GBV e promover as melhores práticas de abordagem, recuperação e libertação das vítimas. A comitiva de cerca de 50 quadros da ONU que operam em terrenos de extraordinária hostilidade face aos direitos – como a Síria, a Somália ou o Paquistão – é liderada pela chefe da Representação Regional da UNFPA, Mónica Ferro. Académica e com forte intervenção política, Mónica Ferro está a destacar-se de forma competente na promoção global dos direitos humanos. Mais: tem reforçado a ideia de que a diplomacia portuguesa é, claramente, um dos melhores produtos do país.

A iniciativa consolida o caminho que Cascais tem construído de aproximação aos valores promovidos pelas Nações Unidas. Sabemos que sozinhos não podemos mudar o mundo. Mas também sabemos que o somatório de múltiplas ações locais tem efeitos globais.

Perfilhámos, desde a primeira hora, os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Fomos felicitados pelo secretário-geral António Guterres por isso.

O objetivo 5, entre os 17, é a Igualdade de Género. Lutar pela igualdade de género, à escala local ou global, é defender salário igual para trabalho igual, é não obstruir os percursos de liderança (política ou profissional) feitos no feminino. Mas não é só isso: a igualdade de género tem de ser uma luta de todos, um combate civilizacional e inter-religioso que ponha fim aos casamentos forçados, à mutilação genital, à exploração sexual e a todas as formas de violência com base no género.

Que a tolerância não seja a resposta aos que toleram a violência.

Que o medo não seja a nossa resposta aos que, como dizia Mia Couto, têm medo que o medo acabe. Dentro ou fora de portas.

Estamos a acabar a segunda década do séc. xxi. Não há sociedades decentes com direitos fundados na violência. A luta pelo alargamento dos direitos humanos a quem eles mais têm sido subtraídos, as mulheres, é um imperativo moral.

É tempo de assumir o nosso humanismo mais profundo, no feminino. Por elas. Por todos.

 

Escreve à quarta-feira

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