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Quando é que ficámos agarrados aos telemóveis?

Quando é que ficámos agarrados aos telemóveis?

Marta F. Reis 04/11/2017 14:56

Basta olhar à volta para ver como se tornaram omnipresentes. Ocupam tempos mortos ou livres, quer tenhamos ou não companhia. Vão connosco para a cama. Resolvem problemas de trabalho sem ser preciso andar com o portátil atrás. Servem para ligar quem está longe, sossegam mães ansiosas com a indumentária que os pais escolhem para os filhos e tudo o mais que dá para imaginar, até para passar horas a apanhar pokémons – sim, a loucura do verão de 2016 ainda tem adeptos.

Carlos Monteiro está sentado num banco do parque da Quinta das Conchas, no Lumiar. Sem companhia, agarra o telemóvel compenetrado, dois palmos à frente da cara, e deixa-se observar assim uns minutos sem quebrar a atenção no que está a fazer. Mas o que o ocupa tão afincadamente?, indagamos ao fim de algum tempo. A neta gastou-lhe as bolas todas a apanhar pokémons e veio repor o stock, sorri. “Cheguei às 13h e estou quase a ir embora, estive a fazer tempo para ir buscá-la à escola.” 

O local onde está sentado é estratégico e nada tem a ver com o enquadramento das árvores ou a sombra: à volta tem três locais onde dá para apanhar as tais pokébolas sem ter de se mexer – basta carregar em cima deles no ecrã. Passa das 15h, por isso foram mais de duas horas de coleta para o adepto do jogo Pokémon Go. Carlos tem 67 anos, foi encarregado de limpezas e está reformado há dois anos. Nunca se imaginou num parque agarrado a um telemóvel a apanhar bolas para caçar bichos virtuais – mas diga-se que, além deste jogo, gosta do Criminal Case e descarregou há dias um sobre o Halloween. 

Na realidade, não se lembra de quando o telemóvel passou a ser uma companhia tão frequente, mas quando trabalhava já tinha de estar sempre contactável. “Em casa, é mais o computador”, diz. Mas na rua, sem nada para fazer e longe das jogatanas de cartas de outros tempos, é como vai ocupando o tempo. “Tive o primeiro telemóvel aí há 40 anos”, atira, usando as mãos para dar a dimensão do objeto que agora cabe no bolso das calças. “Chegava a gastar 12 contos em chamadas.” E, se recuar mais tempo, até aos cinco ou seis anos nem tinha telefone em casa, no Bombarral.
Agora, a despesa com chamadas não tem nada a ver, mas há outras preocupações. No carro tem um powerbank, para quando o jogo consome a bateria toda. E já chegaram a vir à noite ao jardim – ele, a filha, o genro e os netos – para apanhar pokémons. Ainda assim, quando recorda os jogos de sueca com os amigos, tem saudades desses tempos de convívio em pessoa. “Divertíamo-nos mais.”

Vício de miúdos e graúdos Carlos não se sente viciado em tecnologia: em casa, o uso é regrado, até porque a mulher não gosta de telemóveis e redes sociais no geral. “Noutro dia fui tirar uma frase ao Facebook para lhe dar nos anos e veio logo perguntar o que estava a fazer. É um bocado ciumenta”, ri-se. 

Mas, nas gerações mais novas, reconhece que o uso é bastante mais intensivo. “Tenho um neto de 21 anos que está todo o dia agarrado ao telemóvel. E há noite faz batalhas com o pai, gostam de jogar boxe.” Lá em casa, à mesa, filhas e netos também vão pegando no telemóvel, embora nem ele ou a mulher vão tão longe no uso. 

Passeando pelo jardim no centro de Lisboa, não é difícil encontrar outros adeptos de pokémons. É também isso que entretém Pedro Silva e Rui Verde, de 29 e 23 anos, agarrados aos respetivos telefones. Depois da moda em 2016, recuperaram o hábito nos últimos meses e aproveitam todos os tempos livres. “Eu mais”, corrige Pedro, que sempre que tem uma ou duas horas livres entra em ação. E costumam encontrar muita gente, de adeptos mais velhos a famílias inteiras de telemóvel em riste. “No último ano conheci aí umas 200 pessoas, de médicos a advogados, de todas as profissões”, diz Pedro, professor de Educação Física. Quando é preciso ajuda para derrotar um “boss”, fazem apelos nas redes sociais e quem pode aparece. 

Na esplanada encontram-se outros usos para os telemóveis. Em quase todas as mesas há um à mão. Helena Vicente tem a chávena de café à frente e está entretida com o seu. Almoça no trabalho mas, “para não ficar em frente ao ecrã”, vem tomar a bica na rua. E o visor mais pequeno do smartphone acaba por servir de companhia. 

Também não é viciada, então se o telefone ficar sem bateria ou esquecido em algum lado no fim de semana, melhor ainda. Mas, durante a semana, o facto é que dá jeito. “É o meu despertador”, começa a descrever. Dorme por isso no seu quarto, não na cama. Como vem de Torres Vedras para Lisboa para trabalhar e tem uma filha de dez meses, há outro papel importante para o dispositivo:“Como é o pai a arranjá-la, todos os dias tem de mandar uma fotografia de como ela está para ver se está tudo bem”, sorri. Se esquecer o telemóvel em casa, não há problema. “Tem de mandar a fotografia por outro sítio”, ri-se, que vício mesmo só o de mãe babada. E assim também dá para ir guardando as memórias do crescimento, com a salvaguarda de passar tudo para o computador e para um disco externo.

Helena aproveita a viagem de autocarro para dormir, mas é nesse trajeto diário que se apercebe de que os telemóveis se tornaram incontornáveis. “Dantes era 100% das pessoas a dormir. Agora, até porque o autocarro passou a ter wi-fi, vem 10% a dormir e o resto agarrado ao telefone.” 

No seu caso, continua a ver a tecnologia mais como uma ajuda do que como uma prisão: apesar de trabalhar em marketing, não está sempre ligadas nas redes sociais; usa-as mais para ler o que outros publicam e às vezes, admite, sabe das “notícias do Facebook” depois de toda a gente. 

Lados positivos? Se chegou a levar o computador para a praia por precisar de trabalhar, agora resolve o problema com o email no telefone. Seja onde ou a que horas for. “Trabalho com a China e lá é de dia quando cá é de noite. Como tenho de preparar o leite da minha filha durante a noite, chego a estar a fazer o leite e a responder a emails.” Numa altura em que se fala do direito a desligar, não sente que esteja obrigada a fazê-lo, mas simplesmente a aproveitar uma oportunidade de dar resposta em tempo mais útil. Por agora, a filha ainda é pequena, mas espera conseguir mantê--la longe das tecnologias até ao quarto ano da escola, ainda que ela já vá achando graça ao aparelho. “O meu marido não tem um iPhone e ela percebe que falta ali o botão redondo de desbloquear.”

Irresistível Veem-se pais a passear com filhos pequenos e telemóvel na mão, embora o motivo quase sempre seja que estavam a mandar uma mensagem ou uma foto. 

Numa tarde de um dia de semana, o parque infantil não tem quase nenhuma criança, mas Caroline, a única mãe à vista, encarna a imagem habitual para quem costuma frequentar estes espaços. Enquanto espreita a filha em cima do escorrega, vai manobrando o smartphone na ponta dos dedos. Está no WhatsApp a falar com o companheiro, conta. Chegou do Brasil há um mês e usa sobretudo o telefone e as redes sociais para matar saudades. Admite que às vezes é difícil resistir a responder logo, embora todo o cuidado com os miúdos seja pouco. A filha de dois anos gosta de ver vídeos e tenta evitar que o faça em excesso, mas há um efeito de contágio. “Se o pai chega a casa e se senta no sofá agarrado ao telemóvel, passado um bocado, ela está a fazer o mesmo”, conta Caroline.

Apesar de a dependência de telemóvel não ser um distúrbio oficial na lista da Associação Psiquiátrica Americana, responsável pelo manual de referência das doenças mentais, tem havido propostas nesse sentido. A fobia de ficar incontactável e sem acesso a telemóvel já foi chamada nomofobia (do inglês no mobile phone), sendo associada a sintomas de ansiedade ou baixa autoestima. 

Em 2014, um artigo de dois autores italianos lembrava uma sondagem inglesa que sugeria que metade dos britânicos que utilizam telemóvel sofreriam desta nomofobia. E apontavam outra condição particular: a “ringxiety”, que numa tradução livre seria a ansiedade do toque – aquela ansiedade gerada por ter a sensação de estar a ouvir o telefone tocar. 

Os autores propunham mais investigação nesta área, ideia repetida num trabalho publicado há um ano por investigadores da Universidade Complutense, em abril. 

Reviram diferentes estudos sobre esta matéria que sugerem que, quanto mais cedo se tem um telemóvel, em particular antes dos 13 anos, maior probabilidades de uso problemático no futuro. Apontam também características que parecem estar ligadas a um uso mais problemático de telemóveis: extroversão mas também baixa autoestima, impulsividade e neuroticismo – ter tendência para estados emocionais negativos. 

Já as consequências do uso problemático de telemóveis incluem alterações de sono e insónias, em particular nas mulheres, mas alguns estudos apontaram também a coexistência de outras dependências, como o abuso de substâncias. Ainda assim, os autores pediam prudência na classificação do uso abusivo de telemóveis. “Quer sejam ou não um vício, os telemóveis dão origem a problemas que afetam cada vez mais o nosso quotidiano, na maioria das vezes sem o risco de despesas descontroladas, uma vez que foram estabelecidas tarifas fixas e há wi--fi gratuito e uso ilimitado. Se observarmos a equivalência dos sintomas com os critérios para a dependência de substâncias ou o jogo patológico, confirma-se um grande paralelismo”, diziam. “Consideramos, ainda assim, que estamos perante uma adição que não será tão disseminada como defendem alguns investigadores”, diziam os autores da Universidade Complutense, em Madrid, defendendo uma identificação do perfil do utilizador problemático e mais estudos, não só em adolescentes mas também em adultos.

“Não quero que um filho meu chegue ao meu nível” À porta de uma escola básica e secundária da capital, Ana e Paula conversam de telemóvel na mão. Paula, de 16 anos, vai usando a câmara para retocar o rímel. Ana, de 14, vê as notificações. Têm telemóvel desde os 6 e 8 anos – um estudo recente concluiu que a maioria das crianças em Portugal tem telemóvel aos dez. Não foram elas que pediram, contam, mas os pais que quiseram dar. “Era para usar quando fosse urgente, mas nunca é”, resume Ana. Tornaram-se mais “viciadas” aí aos 11 ou 12 anos e usam sobretudo o WhatsApp e o Instagram. 

Depois de uma aula ou de uma pausa no uso do telemóvel, chegam a ter mil mensagens por ler. Na sala de aula, toda a gente espreita o telemóvel, embora seja proibido, contam. Até chegam a ligar uns aos outros. Em casa, às vezes, os telemóveis dão discussão com os pais. Ana pode tê-lo à mesa – vê a notificação ou mensagem e continua a jantar. Filipe, 15 anos, junta-se à conversa. Apesar de ser daqueles que leva o telefone para a cama – mesmo quando já está com muito sono não desliga enquanto não vir a mensagem que chegou, e enquanto conversamos vai passando o dedo pelos últimos instastories disponíveis –, à mesa com a família, o aparelho está fora de questão. “Apanhava logo um carolo.” 
Usam os grupos do WhatsApp para combinar coisas com os amigos e às vezes “há discussões da vida real que passam para o virtual”, com a sua dose de “mal-entendidos”, diz Paula, que fala também do perigo de o telemóvel ser usado para controlar, tirar liberdade, por exemplo nas relações. Mas a distância também serve para vencer alguma timidez ou ter mesmo mais lata. E dizer de uma maneira mais fácil o que não sai tão bem ao vivo. Por exemplo “amo-te”? Paula e Ana contam que nunca o disseram pela primeira vez por telefone. Filipe não se lembra. 

Ainda é cedo para pensar no assunto, mas como vão lidar com filhas adolescentes como elas quando quiserem telemóveis? “Espero que nunca cheguem ao meu nível”, diz Ana. 

Ao lado, dois amigos preferem jogar às cartas e não há telemóveis à vista. João, de 15 anos, e Carlos, de 17 anos, dizem--se pouco ligados, mas admitem que na turma há sempre alguém a mexer no telefone. Para eles, os tempos livres são mais bem gastos a jogar “loba”, o tal jogo de sequências com cartas que Carlos trouxe da Argentina. E, além disso, também há grupos que preferem conversar. 

Bruna, 11 anos, aguarda perto da escola de smartphone na mão, com uma capa turquesa que salta à vista. Teve-o no ano passado, quando foi para o 5.o ano, com a condição de que tinha de passar de ano. Assim foi. No início, lembra-se que ficou “mesmo viciada”, mas agora está tudo mais calmo. Usa-o para falar com os pais e as amigas nos grupos do Instagram. À noite, deixa o telefone na sala ou com o irmão mais velho. Se no ano passado ainda havia colegas que não tinham telefone, agora, no 6.o ano, já toda a gente tem, responde. Mas mesmo entre os mais velhos há quem use muito e há quem use menos, é uma escolha, diz. Sempre que publica fotografias, e mesmo tendo uma rede fechada só para amigos, não marca o local onde está nem mostra sinais que permitam localizá-la. Quem lhe ensinou as regras de segurança? “Ninguém”, sorri. É o mundo deles.

Os nomes dos menores neste artigo são fictícios

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