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Relacionamentos. “A idade importa se só a idade importar”

Relacionamentos. “A idade importa se só a idade importar”

Ana B. Carvalho 02/11/2017 22:10

Há quem tenha dez, vinte e até cinquenta anos de diferença, mas para que servem os números afinal? Quem vê idades não vê corações e este podia ser o lema dos vários casais que falaram ao i sobre as suas histórias de amor

Estamos no final de 2017 e a internet ainda delira com as diferenças de idades nos relacionamentos. O mais recente caso a explodir a opinião pública aconteceu esta semana quando Mick Jagger, de 74 anos, e a sua mais recente namorada de 22 anos, foram vistos a passear pelas ruas de Paris. Mas depois de tantos anos a serem conhecidos pares famosos cujas idades se distanciam mas o amor os aproxima, será que o amor e as idades ainda vão ser assunto por muito mais tempo?

João Teixeira Lopes, sociólogo e professor universitário, considera que o tempo vai se encarregando de diluir este tipo de preconceitos. “Apesar das tendências de standardização se manterem na sociedade, hoje há uma certa tendência crescente, principalmente em meios urbanos, de desinstitucionalização e de maior informalidade nas relações. Por exemplo a conjugalidade, o casamento e a igreja estão cada vez mais dissociados”, comenta. “Acho que há cada vez menos. É claro que as pessoas têm sempre de ter “standards” para tipificar e classificar os comportamentos. É uma tendência muito analisada pelos psicólogos sociais, isto é, tem de haver previsibilidade, tem de haver ajustamento de expetativas que se moldam constantemente para os dois lados e nesse aspeto ainda há alguns princípios, como por exemplos os ciclos de vida, as transições, o que é próprio de uma idade e o que é próprio de outra.”

João Teixeira Lopes está casado com uma mulher 20 anos mais nova mas nunca sentiu nas pessoas qualquer tipo de “antipatia, julgamento ou agressão”, passando-se apenas alguns exemplos de “equívocos” em que as pessoas chegaram a pensar que a sua “esposa era filha e que a filha era neta”, o que conta ser “bastante recorrente e no início era embaraçoso, mas hoje em dia já não sentimos as coisas dessa forma”, comenta.

Em Portugal, um dos casais mais conhecidos pela diferença de idade era o de Camilo de Oliveira e Paula Marcelo, com 42 anos de diferença. Também José Raposo e Sara Barradas, quando assumiram a sua relação cuja diferença de idades era de 28 anos causaram surpresa. Mas são várias as figuras públicas que assumem o lema de que o amor não escolhe idades. Madonna, de 59 anos, que hoje anda pelas bocas dos portugueses por se ter mudado para terras lusas, namora com Kevin Sampaio, modelo português, de 31 anos. Do outro lado do Atlântico, a mítica atriz brasileira Susana Vieira, aos 75 anos, também vive o seu relacionamento de sem qualquer tipo de problema em assumir publicamente os seus relacionamentos tivesse ela 30 ou 40 anos de diferença de idade dos seus companheiros.

O sexo e a diferença de idades

“O tamanho do preconceito está diretamente relacionado com o tamanho da diferença de idades”, disse à “National Geographic” Justin Lehmiller, professor assistente de Psicologia Social na Universidade do Colorado. “Se uma pessoa tem idade suficiente para ser pai/mãe ou avô/avó do parceiro, as pessoas à volta tendem a desaprovar a relação. E essa desaprovação centra-se à volta do sexo”, explica. Para Sudepeeta Varma, psiquiatra em Nova Iorque, também entrevistada para a “National Geographic” a propósito da temática “amores proibidos”, as pessoas tendem a olhar para as diferenças de idades como uma manutenção de papeis familiares. “Assim que se dá uma conotação sexual a essa manutenção parentesca subentendida, então aí passa a ser tabu, porque ninguém quer imaginar os pais a terem relações sexuais”, explica.

O tabu tende a ser maior se a mulher for o elemento mais velho da relação “porque a sociedade não está habituada a ver a mulher como parte dominante de um relacionamento e associa-se a idade a poder”, explica o psicólogo social Lehmiller.

“É claro que as pessoas têm sempre de ter “standards” para tipificar e classificar os comportamentos. É uma tendência muito analisada pelos psicólogos sociais, isto é, tem de haver previsibilidade, tem de haver ajustamento de expetativas que se moldam constantemente para os dois lados e nesse aspeto ainda há alguns princípios como, por exemplo, os ciclos de vida, as transições, o que é próprio de uma idade e o que é próprio de outra. Ainda há uma extrema necessidade de um mundo previsível, classificado, ordenado que ainda é muito forte e isso causa evidentemente estereótipos e preconceitos vários”, explica ao i João Teixeira Lopes. “Sempre houve casais com grandes diferenças de idade ao longo da História, mas a certa altura, em particular com a revolução industrial, com o aumento da escolaridade, com o nascimento da juventude, que não existia até ao século XIX, começámos a ter muito associado a cada fase de vida um determinado comportamento e isso de alguma maneira cria nas pessoas uma perceção do que é correto ou adequado à normalidade”, conclui.

A idade importa? 

“A idade importa se só a idade importar”, é assim que responde ao i Albino, de 47 anos, sobre o seu noivado com uma jovem de 28 anos. Mas nem sempre o romance vence. Miguel, de 27 anos, acabou há cerca de um mês um relacionamento com uma mulher quase vinte anos mais velha, que, entre vários fatores, tinha o da idade como medida. “Nunca pudemos assumir nada perante a família dela, por exemplo, nem podíamos passear juntos na cidade dela porque ela não queria. E a questão de gerirmos as expetativas em relação à vida, o facto de ela já não poder ter filhos, enfim, estas coisas pesam sempre não é?”, comenta ao i embora sublinhe que nunca valorizou a diferença de idades. Pedro também está numa situação parecida. Mantem um relacionamento com uma mulher 14 anos mais velha, mas nada assumido. “Ela tem 3 filhos e ao início ninguém sabia. As filhas dela aceitam com normalidade. Mas os meus avós ficaram em choque quando souberam. Acalmaram-se um bocado depois de perceberem que não é para casar”.

Ainda que as mulheres continuem a passar por mais preconceito no que diz respeito à diferença de idades, um dos casais que faz ver aos olhos de quem julga relacionamentos pelos números é o casal Macron. Conheceram-se em 1994, ainda Macron tinha 15 anos, e desde logo o aluno e professora mantiveram uma relação “demasiado próxima” aos olhos dos pais. Mais tarde, Brigitte Trogneux, já então professora de teatro e com 42 anos, viu Emmanuel Macron e os seus rebeldes 18 anos prometerem-lhe que um dia iriam casar. A verdade é que 11 anos mais tarde, aos 29 de Macron, a história viu o final desejado pelo jovem Emmanuel, assinando o contrato matrimonial com a agora divorciada Brigitte de 54 anos. Hoje Brigitte Macron tem 64 anos e o presidente francês declarou numa entrevista que a família é a base da sua vida. “Ela tinha três filhos e um marido. Quanto a mim, era apenas um estudante. Ela não me amava por aquilo que eu tinha ou por interesse. Pelo conforto ou segurança que eu lhe dava. Ela desistiu de tudo por mim. A nossa família é a minha base, o meu rochedo. A nossa história ensinou-nos que uma vontade tenaz não pode ceder ao conformismo”.

O i falou com dez casais cujas diferenças de idade poderiam “ser um problema, mas não neste século”, como afirmou Maria Pinto, de 25 anos, que hoje mantem um relacionamento com um homem 18 anos mais velho. “O que me importa a mim e aos meus amigos e família é que eu esteja com alguém que me respeite e que me faça feliz. A sociedade tem é de se habituar a julgar menos e a amar mais”.

 

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