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República Checa. Mais um eurocético no clube de Visegrado
Partido de Babiš venceu as eleições legislativas, mas necessita de se coligar para ter maioria no parlamento

República Checa. Mais um eurocético no clube de Visegrado

Partido de Babiš venceu as eleições legislativas, mas necessita de se coligar para ter maioria no parlamento AFP António Saraiva Lima 23/10/2017 19:08

Vitória eleitoral do populista Andrej Babiš coloca em evidência o crescimento do sentimento antieuropeu na Europa Central e pode vir a reforçar a agenda de confrontação de checos, húngaros, polacos e eslovacos com Bruxelas

“Somos pró-europeus. Não entendo como é que alguém nos pode retratar como uma ameaça à democracia”. Quem o garante é Andrej Babiš, o segundo homem mais rico da República Checa, líder de cerca de 250 empresas do país, ex-ministro das Finanças e, em virtude dos resultados das legislativas do passado fim de semana, o próximo primeiro-ministro checo. 

O homem que durante a campanha eleitoral defendeu a rejeição do sistema de distribuição de migrantes e requerentes de asilo por quotas, a manutenção do país fora da zona euro, ou a inadequação da ingerência de Bruxelas em diversos assuntos internos checos, não se revê na onda autoritária, iliberal e eurocética que tem varrido os governos dos parceiros de Praga no grupo de Visegrado – uma aliança regional, também conhecida por V4, com raízes no século XIV e recriada no início dos anos 90, após o colapso soviético, que junta Hungria, Polónia, Eslováquia e República Checa – e afasta, por isso, ser colocado no mesmo saco de Viktor Órban ou Jaroslaw Kaczynski.

A rejeição de uma postura antieuropeia e a demarcação dessa conduta seguida pelos restantes membros, é justo dizê-lo, fazem parte do discurso dos dirigentes dos quatro países da Europa Central – ainda esta segunda-feira, citado pela Reuters, o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico mostrava-se “satisfeito” pelo facto de, em virtude da vitória eleitoral de Babiš, a Eslováquia “se ter tornado numa ilha pró-Europa na região”. Talvez isso ajude a explicar o pouco impacto de uma aliança que se estende ao longo de 530 quilómetros quadrados e representa mais de 64 milhões de cidadãos europeus, e que, excetuando a luta concertada contra o acolhimento de refugiados, pouco ou nada tem logrado em matéria de política externa, de segurança e de defesa – três setores vitais para o grupo aquando da sua criação.

O triunfo eleitoral da Ação de Cidadãos Descontentes – ANO, na sigla em checo, que também significa “sim” –, a plataforma política criada em 2011 por Babiš, pode, no entanto, vir a alterar essa realidade. Mesmo não sendo garante de um compromisso mais aprofundado de contestação a Bruxelas pelo clube de Visegrado – tendo em conta as posturas das várias partes, acima referidas – é um sinal claro da descrença cada vez maior do eleitorado da Europa Central nas instituições europeias. Essa legitimação popular, aliada a uma intenção dos seus líderes políticos nesse sentido, podem vir a ser utilizadas como arma de arremesso dentro da própria UE. O potencial para tal, aliás, é reconhecido e olhado com interesse na Áustria, onde, de acordo com a imprensa local, o recém-eleito primeiro-ministro conservador, Sebastian Kurz, estará a ponderar pedir adesão ao grupo, descontente com o rumo seguido pelos 28, aceitando a proposta da extrema-direita, com quem poderá formar governo.

Uma atuação de choque isolada da República Checa contra a União nem sequer seria recomendável, pelas dificuldades óbvias em ser bem-sucedida e pelas consequências negativas para a economia que tal acarretaria. Quem o diz é Jirí Pehe, analista político e antigo conselheiro do ex-presidente Václav Havel. “Babiš aparenta ser bastante eurocético mas terá de mudar de ideias. Não conseguirá liderar uma economia eficiente sem estar totalmente integrado na União Europeia. Se não o fizer, a República Checa poderá acabar na periferia da Europa e esse cenário não é do interesse de ninguém, já que 80% das exportações do país vão para a zona euro”, explica ao Politico.

Que coligação?

Antes de se pôr a pensar no que pode fazer a nível europeu, Andrej Babiš terá, porém, de encontrar alguém que queira governar consigo – o presidente Miloš Zeman já lhe prometeu o cargo de primeiro-ministro. A ANO logrou 29,64% dos votos, equivalentes a 78 dos 200 lugares no parlamento checo e, por isso, necessita de pelo menos outros 23 para conseguir a ambicionada maioria de 101 deputados. 

A tarefa não se afigura nada fácil, uma vez que, para além dos anticorpos que criou durante a campanha eleitoral, em virtude do seu discurso antissistema e do facto de a sua candidatura ter suscitado diversas denúncias de conflitos de interesse – Babiš controla grande parte das empresas de alimentação, comunicação social e produtos químicos do país – o milionário caiu em desgraça junto dos restantes candidatos quando, há cerca de duas semanas, foi formalmente denunciado por fraude. Segundo a acusação, Babiš terá vendido uma empresa agrícola do seu grupo, em 2007, que assim pôde concorrer a um fundo da UE destinado a pequenas empresas. Um ano depois dessa operação, o milionário terá voltado a adquirir a referida empresa, beneficiando assim dos 2 milhões de euros de financiamento europeu que tinham sido alocados pela União.

Pelo menos seis dos nove partidos que foram eleitos para o parlamento já vieram a terreiro rejeitar uma eventual coligação, incluindo os conservadores do ODS (25 deputados), os liberais do Partido Pirata (22) e os sociais-democratas do CSSD (15) – os grandes derrotados das eleições de sexta e sábado, que abandonam o governo após uma humilhante votação de apenas 7,27%. Resta à ANO e ao seu líder procurarem um entendimento com as duas forças antissistema da nova assembleia: os nacionalistas do SPD (22) ou os comunistas do KSCM (15). Uma negociação perdedora logo à partida, no caso da extrema-direita. O seu líder de ascendência japonesa, Tomio Okamura, apenas aceita falar com Babiš se este  proibir a promoção do Islão na República Checa e convocar um referendo, ao estilo britânico, para a população decidir de fica ou sai do clube europeu. 

Tem a palavra Andrej Babiš. Ou, como alguns lhe chamam, o “Silvio Berlusconi checo”.

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