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Sérgio Azevedo: ‘Vamos ser um Partido Socialista com um D à frente? As pessoas não votam em cópias’

Sérgio Azevedo: ‘Vamos ser um Partido Socialista com um D à frente? As pessoas não votam em cópias’

Teresa Neto Sebastião Bugalho 23/10/2017 14:20

Ficou desiludido com a saída de Passos. Apoiará Santana Lopes. O deputado com a pasta da Defesa no grupo parlamentar do PSD deixa alertas ao desleixo do Governo com a Europa.

Esperava que Passos Coelho anunciasse que não seria recandidato à liderança do PSD depois das autárquicas?

Não. E confesso-lhe que, num primeiro momento, foi uma desilusão. Estava à espera que ele surpreendesse, não esperava que saísse. Ele corporizava um projeto de mudança, teve um papel histórico na recuperação de Portugal durante – e depois – do ajustamento financeiro. Um apurado sentido de Estado, que se viu na comunicação que fez sobre os incêndios esta semana. A verdade é que as lideranças têm uma dimensão de alguma solidão.

Isolou-se?

A decisão que ele tomou foi uma decisão sua. Interpretou o sinal de que o país ambicionava algo diferente do PSD. Depois de ouvi-lo no Conselho Nacional, compreendi-o.

A má votação em Lisboa teve mais peso por ser uma candidata próxima do líder?

O resultado de Lisboa é o corolário de um conjunto de episódios que se passaram dentro do PSD e cuja responsabilidade não pode ser exclusivamente atribuída a Passos Coelho. O processo autárquico na capital começou como uma intenção dos órgãos locais em torno de Pedro Santana Lopes: foram feitos esforços nesse sentido e ele veio, mais tarde, dizer que não.

Ele também tem responsabilidades no mau resultado?

Não. A responsabilidade era local, como foi de todas as outras concelhias. Podemos discutir se devia – ou não – ter sido uma responsabilidade do líder do partido, mas houve um entendimento que não seria e Lisboa não fugiu à regra. Depois disso, testou-se um conjunto de nomes, tornando-os públicos, o que dificultou a escolha de um candidato. Até Pedro Santana Lopes recusar, apoiei-o, aliás publicamente. Depois disso, também publicamente, acreditei que havia uma oportunidade para o PSD e o CDS encontrarem uma solução.

Se Santana Lopes tivesse sido o candidato em Lisboa, Passos ficaria presidente do PSD?

Se tivéssemos tido uma candidatura forte, que disputasse poder com o executivo socialista, sim. Julgo que a ‘hecatombe eleitoral’ não teria acontecido.

É um dos nomes mais jovens da direção de bancada. Como vê o facto de a sucessão a Passos ser disputada por dois sexagenários?

Rejeito totalmente a ideia de uma guerra geracional dentro do partido. Se alguém fizer um apelo a essa divisão, está a faltar ao legado de um partido que é – e sempre foi – interclassista e intergeracional. A imposição geracional, na lógica novos contra velhos, não dá bons resultados. Isto não significa que eu desvalorize a renovação dentro da política, significa que há – ou tem que haver – argumentos melhores que a idade.

Mas essa renovação não aconteceu no curto prazo. Rio e Santana são até mais velhos que o próprio Passos. Porquê?

Porque nenhum rosto mais jovem se quis posicionar. Talvez seja uma geração que entende que este não é o seu momento. Com todas as limitações que o tempo nos impõe... A ideia de que é necessário serem figuras mais públicas para liderarem não é inteiramente falsa: quem quer ser líder do PSD quer ser candidato a primeiro-ministro.

Rio define-se como um candidato mais do centro-esquerda. O Sérgio Azevedo já escreveu um artigo a falar de um PSD de direita moderada.

O que me parece é que nunca foi tão importante na história do partido uma afirmação ideológica – ou uma matriz de atuação – em relação ao futuro: não só o seu, mas o do país. Fala-se muito nesse chapéu onde todos cabem: o centro. Mas o que é isso? Significa disponibilidade para servir de muleta a um eventual desentendimento entre a maioria parlamentar de esquerda? Rejeito-o. Mas a rejeição desse Bloco Central – que julgo partilhar com ambos os candidatos a presidente do partido – não significa um desleixo nas questões estruturais do país. Também é importante esclarecê-lo. Agora, vamos ser um Partido Socialista com um D à frente? As pessoas não votam em cópias quando têm o original. Quando escrevi sobre uma direita moderada, que puxe pela iniciativa privada, que proteja as liberdades individuais, lute pela redução da carga fiscal e pela sua progressividade, era como alternativa a isso. É possível cultivar uma sociedade que desafie, positivamente, o Estado a fazer melhor, a ser melhor. Isso está na nossa matriz.

E as críticas a Passos por ter desvirtuado essa matriz?

Um governo que fecha a porta ao maior banqueiro nacional que controlava os maiores negócios do país e lhe diz ‘os seus erros não vão ser pagos pelos contribuintes, vão ser pagos pela via judicial’, não é social-democrata? Um primeiro-ministro que descongela as pensões mínimas, que aumenta o salário mínimo, que põe a economia a crescer e inverte uma tendência – tão esperada – de desemprego, não é social-democrata?

Mas esse legado não foi chumbado nestas autárquicas?

2015 não diz isso. Os contextos eleitorais são distintos, perderam-se votos, naturalmente, devido ao exercício dificilíssimo de ter que vencer uma imagem de austeridade. É preciso é ver que atrás dessa imagem estava um governo que reduziu um défice de 11 para 3%, que tirou um país da bancarrota. Os portugueses viram-no.

Mas essa imagem de austeridade não deve muito a falhas na comunicação?

Bem, isso é hoje evidente. Mas não foi só o governo ou as suas políticas. Houve uma arquitetura da comunicação social que preferiu não perceber. Digo-o como defensor absoluto da liberdade de imprensa, mas dia após dia, semana após semana, 90% dos editorais criticavam o Governo do Partido Social Democrata. Se a estratégia comunicacional poderia ter sido diferente? Podia. Eu prefiro louvar o que foi feito do que gabar-me do que não faço.

Por exemplo?

Ainda hoje estou à espera que o secretário de Estado Pedro Nuno Santos vá a Bruxelas bater o pé à Europa e dizer que ‘não vão pagar’. Essas reuniões são à porta fechada – e não deviam ser por uma questão de transparência –, mas eu adorava saber o que é que esses membros do governo, que estiveram anos em campanha contra a União Europeia, lhe dizem hoje. É que não acabaram com austeridade nenhuma: ela está lá. Transmutaram-na para os impostos indiretos com um discurso que ludibria as pessoas. Eu não vou bater palmas a isso. E espero que nenhum dos candidatos do PSD caia nessa tentação. Sobretudo, espero que se respeite o que Pedro Passos Coelho fez pelo país, sem desconsiderar as ideias que tenham num cenário, claro, diferente daquele que ele enfrentou. E ainda bem que assim é.

Falou em Bruxelas. Ainda é um ato de coragem ser federalista no nosso parlamento?

Ser federalista já não é só um ato de coragem, é uma postura realista de olhar o nosso futuro. Hoje, estamos a discutir na Europa a reforma mais importante desde que debatemos o mercado único. Infelizmente, em Portugal não tem merecido a devida atenção.

Que é?

O mecanismo de cooperação reforçada na área de segurança e defesa, por um lado. E a consolidação de um fundo europeu de defesa, por outro. Esse fundo, criado com contribuições nacionais, vai gerir os investimentos em defesa de todos os Estados-membros para evitar o duplo gasto dos Estados, especificar investimentos na defesa e desenvolver tecnologias que vão de encontro ao tal mecanismo de cooperação. E o que é esse mecanismo? Uma antecâmara para a criação de um exército europeu.

É uma novidade.

Não é bem. Na fundação do projeto europeu já lá estava: a ideia de uma comunidade europeia de defesa. Curiosamente, foram os franceses a chumbá-la, na ironia que é ver os maiores europeístas a atrasar a sua refundação. Talvez com o novo Presidente [Macron] seja diferente. Mas um aprofundamento será sempre nas áreas financeiras, da segurança, da defesa e da justiça.

A fazer o doutoramento em segurança e com a pasta da defesa no grupo parlamentar, está mais próximo de uma delas. Mas essa reforma europeia mal é falada em Portugal. Porquê?

Não é falada de todo. E é pior. O governo tem escondido as conversas sobre essa reforma. Os ministros da Defesa portugueses costumavam ter uma de duas características: profunda força partidária (Mota Pinto, Jaime Gama, Freitas do Amaral) ou académicos e conhecedores do mundo da segurança, como o professor Nuno Severiano Teixeira. Azeredo Lopes não tem nem uma nem outra. É um jurista de renome, mas péssimo ministro. O caso de Tancos foi paradigmático.

Em que medida?

Meses de incerteza sem sabermos o que roubaram, se roubaram, quem roubou e em que condições estavam as infraestruturas militares, os serviços de informação saberem do caso pelas notícias, a unidade de coordenação antiterrorista ter reunido apenas 48 horas depois... Depois do Presidente exigir que o Governo assumisse responsabilidades, afinal o material estava na Chamusca. Isto sim, é uma coincidência do diabo. Nós somos um país que é produtor de paz no mundo – quer no contributo em missões da NATO ou da UE – e aquilo que se passou desonra esse estatuto. Não há responsabilidades?

Mas atribui a mesma desatenção do ministro nas relações com a Europa?

A alta-representante para a Política Externa europeia, Federica Mogherini, com quem estive recentemente, atribuiu um prazo até meados de outubro para os países dizerem se participam no mecanismo de cooperação reforçada e o parlamento português não sabe hoje a posição do seu Governo. Fizemos audições, requerimentos, perguntas e nada. Isso não é revelador da dimensão política e técnica deste ministro? De falta de sentido de Estado, é!

A demissão de Constança Urbano de Sousa é suficiente?

Percebe-se pela sua carta de demissão que foi algo vítima das circunstâncias. Podemos concluir três coisas. Primeiro, faltou à verdade: já tinha pedido para sair em privado enquanto dizia em público dito que não era tempo de sair. Segundo, foi usada como escudo do falhanço do Estado pelo primeiro-ministro. Terceiro, que as responsabilidades do MAI foram, este tempo todo, de António Costa.

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa era-lhe muito direcionado.

Também. Além de pedir responsabilidades aos partidos que suportam o Governo [PCP e BE], exigiu a esse Governo que reconhecesse a sua omissão num dever fundamental, que é o dever de vigilância. O Estado falhou porque o Governo falhou. E Marcelo Rebelo de Sousa não é presidente deste Governo, é o Presidente de todos os portugueses. Isso viu-se bem naquele discurso.

E entre Rio e Santana Lopes, está mais próximo de apoiar quem?

Sabe, há uma peça de Brecht que aprecio particularmente. Chama-se ‘Na Selva das Cidades’. A dada altura, há uma personagem que diz assim: em circunstâncias normais, a pele de um homem é demasiado fina para este mundo; com a vida, a pele vai ficando mais grossa e perdemos alguma vulnerabilidade. Ganhamos impermeabilidade ao que se passa. Eu considero-me um tipo de uma pele ainda relativamente fina, vou tentando compreender as mudanças do mundo. O que eu quero para o PSD é uma verdadeira alternativa a este Governo. É uma oportunidade que não podemos desperdiçar e não estarei equidistante. Nunca apoiarei algo que se assemelhe a quem hoje nos governa. Lamento, mas de centro-esquerda, não sou. Domingo, estarei na apresentação da candidatura de Pedro Santana Lopes.

No último congresso, integrou uma lista ao Conselho Nacional do partido. A intenção mantém-se para o próximo?

Somos um grupo de pessoas que faz política em conjunto há bastante tempo. Fomos a terceira lista mais votada. Esse resultado obriga-nos a refletir, independentemente da posição que cada um tomar acerca da liderança do partido.

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