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Na hora da morte de Van Gogh

Na hora da morte de Van Gogh

Cláudia Sobral 20/10/2017 18:31

Mais de 100 artistas para mais de 60 mil telas a óleo que, para lá de dezenas de obras do pintor holandês, recriam a sua vida – e o mistério em que está envolta a sua morte, aos 37 anos. Eis “A Paixão de Van Gogh”, o primeiro filme de animação totalmente pintado à mão

“A tristeza durará para sempre”, terá dito Van Gogh ao seu irmão, Theo, mesmo antes de morrer, 30 horas depois de, na versão da sua morte que ficou para a história, um suicídio, se ter alvejado no peito. De saúde débil, Theo, colecionador de arte que era quem apoiava financeiramente o irmão pintor em luta pelo reconhecimento, haveria de morrer seis meses depois. Conhecida é a correspondência que trocavam. E dias antes de morrer Vincent Van Gogh tinha-lhe escrito mais uma carta, que seria a última sem que nela se vissem sinais disso.

Depois da morte, pouco convencido com a versão do suicídio, Joseph Roulin – o carteiro que pintou num dos seus retratos e com quem estreitou amizade em Auvers-sur-Oise, onde viveu nos seus últimos meses, pede ao seu filho, Armand, que vá entregar em mão a Theo essa última carta que Van Gogh lhe tinha escrito. Pouco convencido, parte nessa missão para vir a descobrir que Theo tinha afinal morrido também, e aí inicia uma série de encontros com aqueles que se cruzaram com o artista na última fase da sua vida – e quanto mais histórias ouve, mais se convence das razões que levaram às suspeitas do seu pai.

A quem entregaria então essa última carta, se todos lhe parecem potenciais culpados – será esta já a história de “A Paixão de Van Gogh” (“Loving Vincent”, no título original), que estreou este ano no Festival de Animação de Annecy e chega agora às salas portuguesas como a primeira longa-metragem de animação pintada à mão, em telas a óleo, com a colaboração de mais de uma centena de artistas liderados por Dorota Kobiela, artista e realizadora polaca, que começou já há dez anos a pensar num projeto bem menos ambicioso do que aquele em que “A Paixão de Van Gogh” se tornou. “Pelo meu passado ligado à pintura – estudei Belas Artes antes de realização – tinha a ideia de fazer uma curta de animação pintada a óleo”, conta ao i num evento de apresentação do filme na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. “E ao começar a pensar nisso, em contar a história de um artista através do seu trabalho, teria que ser com o Vincent.”

Vincent

Refere-se a Van Gogh como Vincent, sempre, como passou a fazer o produtor Hugh Welchman, que conheceu nesse processo e que a acabaria por convencer a transformar a curta numa longa-metragem de uma hora e meia, realizada pelos dois num trabalho que se prolongou por seis anos, em três fases de produção: as filmagens com os atores, a edição e efeitos visuais e o processo de pintura, frame a frame, de mais de 60 mil quadros para uma animação a 12 frames por segundo, em que são recriadas 94 das obras do pintor, algumas delas adaptadas para o formato horizontal.

Só para a primeira cena do filme, por exemplo, em que são recriadas “A Noite Estrelada” (1889), “Terraço do Café à Noite” (1888) e “O Zouave” (1888), foram necessárias 729 pinturas – entre tudo o que foi pintado e repintado chegaram ao fim do processo com perto de mil telas a óleo desses mais de 100 artistas que num intenso processo de trabalho procuraram recriar o estilo de Van Gogh. “Quando se vê o filme percebem-se algumas diferenças”, diz-nos Dorota, que vê também nesse lado artesanal parte da riqueza de um trabalho a tantas mãos. “Dessas mil, em boas condições estão 600, porque muitas delas foram usadas muitas vezes.” Parte delas continuará em exposições, duas centenas foram postas à venda ainda durante o processo no site do filme como forma de financiamento – e parte delas está ainda disponível para venda.

Mas não será todo no mesmo registo e a cores este filme em que os flashbacks a um passado que Van Gogh, que iniciou a sua carreira como pintor apenas aos 29 anos, não pintou são recriados a preto e branco, ao estilo das fotografias de época.

Mas falta a história, que Welchman explica que, nesta animação entre o biopic e um quase policial, se condensou nas últimas dez semanas de vida de Van Gogh. Não por decisão inicial, que o princípio foi uma seleção de obras que queriam reproduzir, que os levaram às personagens para a partir daí perceberem que tudo iria dar a esse trágico fim, aos 37 anos. “Sabíamos que queríamos usar uma série de retratos” – explica Kobiela – “e quando começámos a ler sobre essas pessoas, na pesquisa, foram elas que nos conduziram a estas últimas semanas de vida. Estava tudo ligado.” Muitos deles fizeram declarações sobre Van Gogh após a sua morte, acrescenta Welchman.

“Declarações que se contradizem umas às outras, portanto ou alguém está a mentir ou alguém está a recordar mal o que aconteceu.” Daí para esta espécie de investigação policial a que foi dar o filme foi menos de um passo. “Porque há um mistério natural aqui – e a biografia publicada em 2011 [por Steven Naifeh e Gregory White Smith, “Van Gogh: The Life”] traz de volta essa versão de que foi alvejado, de que não foi um suicídio. Nessa altura estava a começar a ficar conhecido, os jornalistas começaram a aparecer e há esse rumor de que terá sido alvejado por uns rapazes de Paris. Não há provas disto, mas esta narrativa ajuda a resolver algumas questões por clarificar na história”, explica o produtor e realizador. “Então fizemos o papel de detetives, começámos a investigar entre os arquivos do Museu Van Gogh. Quem disse o quê e o que contradiz o que vem nas cartas. Por exemplo, o [Paul] Gauguin falou duas vezes sobre isto e disse coisas completamente diferentes, que se contradizem. Foi a partir daí que achámos que devíamos fazer uma história de investigação e essa foi a razão para viajar por estes lugares. Pareceu-nos o caminho ideal para fazer uma viagem, através das suas pinturas, pela sua vida, colocando em perspetiva a sua morte.”

Respostas não têm, contudo. “Acho que é necessária mais investigação. O Museu Van Gogh centra-se sobretudo na sua obra e na relação entre ela e as suas cartas. Mas definitivamente há uma vontade no mundo para se descobrir o que realmente aconteceu.”

 

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