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Manifestação. Nem a chuva parou a revolta

Manifestação. Nem a chuva parou a revolta

Teresa Neto Ana Petronilho 18/10/2017 10:08

Cerca de 500 pessoas gritaram durante horas e sob chuva “demissão” e “vergonha”, exigindo a saída da ministra da Administração Interna

Nem a constante chuva que caiu ontem ao final da tarde em Lisboa travou as 500 pessoas que empunharam cartazes, acenderam velas e gritaram palavras de revolta em frente a Belém a exigir a demissão da ministra da Administração Interna. 

Ao mesmo tempo que Marcelo Rebelo de Sousa falava ao país em Oliveira do Hospital, ouviam-se em frente ao Palácio de Belém palavras de ordem como “assassinos”, “vergonha” ou “demissão”. 

E não foram poucas as vezes que entre a multidão se ouviram gritos emocionados como “pelos meus avós”, “pelos meus amigos” ou “pelos meus pais”. 

Nesta que foi a primeira manifestação espontânea - organizada por três cidadãos que lançaram movimentos no Facebook - a exigir respostas ao governo e ao Presidente da República para a tragédia que assolou o país com a morte de 106 pessoas por causa dos fogos, estavam familiares de vítimas. 

Junto a um manto de velas acesas no chão, estavam Carina e João Abreu, dois irmãos de 34 e 42 anos, respetivamente, que perderam os pais e dois avós no incêndio de Pedrógão, na estrada da morte (a EN236-1). A lembrar os avós Aurora Abreu (84 anos) e Manuel Fidalgo (91 anos) e os pais Fernando e Arminda Abreu (de 64 e 62 anos, respetivamente) os irmãos mostram uma fotografia. Viviam em Lisboa e Queluz e “tinham ido a Pobrais passar o fim de semana para mostrar as obras que fizeram na casa”. Acabaram por morrer queimados dentro do carro na estrada enquanto tentavam fugir ao incêndio, contou ao i Carina Abreu, que diz que era suposto ela e o irmão também terem ido.  

Os dias não têm sido fáceis para os irmãos que não deixaram de celebrar recentemente o aniversário da mãe. E Carina Abreu conta que, para descobrir a família e conseguir ter notícias, teve de passar por todo um périplo.  

Partiu de Lisboa no sábado de madrugada para procurar os pais e os avós e andou nos vários postos da GNR. “Fui ver listas de evacuados, estivemos uma noite inteira em contacto com bombeiros e com a Proteção Civil, sempre com informações contraditórias, tanto a mim como ao meu irmão”, recorda Carina. “No dia a seguir,  continuei à procura e não consegui saber informação nenhuma. Fui encaminhada para vários sítios e cheguei a ser maltratada por um funcionário da Proteção Civil”. No meio disto tudo, Carina conta que ficou retida em Figueiró dos Vinhos, por causa dos incêndios, sem conseguir regressar a Lisboa. “Só na segunda-feira me deram um contacto de um inspetor da PJ que me deu a certeza”, conclui. Tinham passado dois dias sobre a morte dos familiares.   

Quanto aos apoios que receberam foi “nenhum”, diz João Abreu. “Do governo nem as condolências nos deram, tivemos que fazer quatro funerais e ninguém do governo se aproximou de nós, ninguém se voluntariou para nada. Apoio psicológico tivemos que ser nós a procurar logo na altura”, remata. O único acompanhamento que têm recebido vem da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão.   

Por tudo isto, se pudessem dizer alguma coisa à ministra Constança Urbano de Sousa seria: “Vá de férias e não volte. A incompetência é mais do que muita. Ela que perca a família e depois venha falar connosco”, diz Carina Abreu.

Mas os irmãos não são os únicos familiares de vítimas dos incêndios que aproveitaram o protesto para manifestar a sua revolta. Também João Galrinho perdeu os seus avós nos fogos deste fim de semana. Ermelinda Gomes, de 78 anos, e Virgílio Gomes, de 83 anos, viviam em Setúbal e tinham ido passar o fim de semana a Relvas, uma aldeia perto de Santa Comba Dão. “Morreram a cerca de 200 metros de casa, perto do IP3, debaixo de um túnel”, conta João Galrinho ao i. 

Foram encontrados na segunda-feira pela mãe de João Galrinho “dentro do carro que foi devorado pelas chamas” na berma da estrada. 

A mãe de João Galrinho tinha ido ao norte passar férias com as amigas e estranhou a falta de resposta, por parte dos avós, às chamadas de telemóvel. Foi então que decidiram fazer um desvio e procurá-los. “Deram de caras com aquela situação” e o carro “ainda lá está”, frisa João.

No momento, a família, que ainda não consegue precisar a hora da morte de Ermelinda e de Virgílio, está a tratar da burocracia necessária para as autópsias e para remover o veículo. Por isso, “nos próximos cinco dias não haverá cerimónias fúnebres”, prevê o neto. 

Se pudesse dizia à ministra que “não tem outra alternativa senão demitir-se. É o mínimo que pode fazer”, porque “perdeu completamente a autoridade e a credibilidade”, remata. 

E enquanto ouvimos os relatos dos familiares das vítimas dos incêndios não foram poucas as vezes que se ouviu cantar o hino nacional ou se fez um minuto de silêncio. 

Foi para mostrar toda esta “revolta” que os três organizadores dos movimentos “Todos a Belém”e “Vão de Férias” decidiram  convocar o protesto de forma espontânea através do Facebook. Sem se conhecerem, decidiram organizar-se na segunda-feira depois de terem ouvido o discurso do primeiro-ministro.”Não é possível que morram mais de cem pessoas e que isto passe assim de forma tão leve”, reclama  Nuno Cruz, advogado e amigo de Jorge Santos, enólogo, envolvidos no movimento “Vão de Férias”.  

A adesão surprendeu os organizadores e Paulo Gorjão, professor universitário e do movimento “Todos a Belém”, diz que tomou a iniciativa para  sensibilizar o Presidente da República “para que faça uso dos poderes constitucionais”, nomeadamente “a palavra”, no sentido “de por um ponto final” ao que aconteceu, que “é uma vergonha”.

Estas foram as primeiras manifestações espontâneas organizadas através do Facebook contra os incêndios, mas são já várias as que estão agendadas para os próximos dias em várias cidades do país.

Protestos agendados nas redes sociais

Quarta-feira, dia 18

•  “Todos juntos pela reflorestação do Pinhal de Leiria.” É este o nome do evento, criado no Facebook, marcado para hoje às 21h na Praça Rodrigues Lobo, em Leiria. Pedem para levar uma t-shirt branca, “mas o importante é estar presente”

•  A ideia é que hoje, por volta das 18h30, sejam depositadas flores na Assembleia da República e em todas as câmaras municipais para homenagear as vítimas dos incêndios

Sexta, dia 20

•  ”Incêndios, até quando?”, começa por questionar este grupo. O protesto está marcado para Braga, na Praça do Município, às 16 horas

•  Com o mesmo mote, mas em Coimbra, está prevista uma concentração a começar às 16 horas na Praça 8 de Maio

•  A partir das 20 horas, está convocada uma vigília na Praça do Comércio, em Lisboa. Os organizadores pedem que os participantes se vistam de luto e acendam uma vela

Sábado, dia 21

•  Há uma manifestação silenciosa agendada para várias cidades. No Porto, o encontro está marcado para as 16 horas na Avenida dos Aliados. Em Lisboa será à mesma hora, na Praça Luís de Camões

•  Das 18h às 21h, em frente da Assembleia da República, terá lugar o protesto “Basta! Por um futuro sustentável”, promovido pelo Movimento Fénix - Renascer das Cinzas

Domingo, dia 22

•  Viana do Castelo: concentração às 14 horas na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra

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