28/01/2022
 
 
Francisco Simões Rodrigues 13/10/2017
Francisco Simões Rodrigues
Cronista

opiniao@newsplex.pt

Financiamento de carreiras no surf: antes, durante e depois

O percurso de formação de campeões no desporto considera duas fases principais: primeiro, a formação e desenvolvimento da personagem e, segundo, a vivência da figura entretanto criada. Num plano financeiro, a designada primeira fase deve ser encarada como investimento, seguindo-se, em caso de sucesso, o viver do estrelado e sonho onde a consciente economia de carreira é crucial para viabilizar uma adequada sobrevivência em fase posterior. No caso específico do surf, contabilize-se a projeção de bem- -estar que transpira das redes sociais ou os inúmeros destinos paradisíacos que fazem parte do percurso, o que, conjuntamente e por muitas vezes, deixam os mais incautos distraídos. No entanto, os desafios financeiros estão todos lá e não avisam quando tiverem de se intensificar.

O modelo tradicional de financiamento de carreiras foi muitos anos assente em patrocínios das marcas endémicas do surf, com fundamento quase exclusivo proveniente dos resultados das competições. Em tempos mais recentes, com a globalização do surf, e a generalização da internet e das redes sociais, e também por força das imposições económicas conhecidas por todos, viveu-se uma reformulação (e retração) da lógica inerente aos budgets de sponsoring das marcas de surf.

As alternativas de financiamento que rapidamente passaram a participar no modelo de sobrevivência dos surfistas foram não só as marcas não endémicas como também os eventos. No caso das primeiras, a relação comercial com o surfista é, naturalmente, diferente, aproximando-se muito mais da noção clássica de prestação de um serviço. Por sua vez, nos segundos, o mérito desportivo é o senhor da razão na distribuição das respetivas premiações. Em ambos, seja feita a devida saudação ao grupo de “investidores” (leia-se marcas mainstream e entidades públicas) que decidiram passar a apostar no surf enquanto veículo de apoio ao desenvolvimento das suas atividades e que, culturalmente, aceitaram este desporto nas suas matrizes de estratégia empresarial. Por sua vez, do lado dos surfistas, aceite-se os paradigmas e desafios a que estas novas relações assim obrigam.

Olhando para alguns exemplos, existe uma natural barreira por volta dos 25 anos. Mais ano, menos ano, é nessa altura que se vive o famoso momento do “ou vai ou racha”. E a tendência é ser cada vez em idade mais jovem. Este momento chega com toda a naturalidade! E os surfistas de créditos desportivos firmados prosseguirão as suas carreiras. Os demais terão de procurar outras soluções de longo prazo. Por créditos firmados entenda-se a excelência nas competições, como Frederico Morais, ou a solidez da personagem desportiva de Nicolau von Rupp. Quanto à procura doutras soluções, mantendo o tema nuclear do surf, para além dos naturais cargos na indústria endémica, temos os exemplos de João Kopke, que passou a usar o surf em plano criativo e extracompetição para desenvolver conteúdos para marcas não endémicas, de José Ferreira, que se multiplicou entre a música e o empreendedorismo social, ou ainda do experiente Rodrigo Herédia, que se construiu por via dos eventos e do turismo. E por aí diante… no surf ou noutras paragens.

É certo que existe uma tendência para olhar para estes momentos de viragem de página de forma negativa. É a natural aversão à aceitação de que o modelo de vida até então tem de mudar. No entanto, não é só no desporto, mas também nas mais diversas vidas profissionais, que estas são alturas para transformação em que as oportunidades e os desafios exigem uma total capacidade de saber empreender. Uma palavra de encorajamento para aqueles que hoje atravessam estes momentos de reflexão. Citando Steve Jobs: “Quer passar o resto da sua vida a vender água com açúcar ou quer ter a possibilidade de mudar o mundo?”

 

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline