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Mallu Magalhães. Incrivelmente normal

Mallu Magalhães. Incrivelmente normal

Davide Pinheiro 12/10/2017 19:10

O novo álbum de Mallu Magalhães convida a vir mas os factos são lacónicos. “Sem disponibilidade”, indicam as bilheteiras digitais. A “pitanga” cresceu no tempo e na forma. No dia 24 aguarda-a uma apoteose mas, por ela, o melhor ruído é o do silêncio do anonimato. Enquanto se encontra em Lisboa, a urbe onde todos os dias desce as escadas do metro está sob escuta

No Jardim da Estrela há quem reconheça Mallu Magalhães, entre um gole de água e as dicas de aeróbica do personal trainer a dar uma aula. No Brasil, mal pode sair à rua. Em Lisboa vive em regime de semianonimato, mas no dia 24, quando regressar a um Teatro Tivoli BBVA já esgotado, a fila para as fotos engrossará. Este sábado, o concerto é no Centro de Arte de Ovar. 

O que lhe traz Lisboa que não tinha no Brasil?

Sou de São Paulo e morei durante algum tempo no Rio de Janeiro. São cidades muito grandes. Há vários São Paulos, vários Rios e várias Lisboas também. Lisboa tem lugares mais movimentados e urbanos, mas não tantos como São Paulo. Gosto de circular pelos lugares mais confusos. Acalma-me.

É mais fácil ser-se anónimo aqui?

Não sei se é por isso. Gosto muito do ser humano e sabe-me muito bem sentir-me mais uma pessoa. Isso faz-me exigir pouco de mim. Não preciso de ser incrível. Sou mais uma na manada. Não me incomoda nada. Transmite-me a sensação de estar na luta. A urbe e a multidão trazem-me dinamismo, o estar na entrada e saída do metro. 

Então como reage se alguém disser que “a Mallu Magalhães é incrível”?

(sorri) O meu trabalho sempre foi em função da simplicidade. Nas redes sociais procuro mostrar o meu dia-a-dia, a rotina da casa e da minha vida. Não me sinto genial. Acho ótimo que as pessoas gostem, mas eu tento explicar-lhes que sou como elas, procuro chamar a atenção que também podem ser tão incríveis como acham que eu sou. É aí que mora a minha contribuição. Isso, as letras e o meu Instagram fazem as pessoas pensar que aquela pessoa existe e é tão incrível como as outras podem ser. 

Na entrada e saída do metro observa situações “incríveis”?

Sim, essa é a maior vantagem de a minha cabeça ser confusa. Tenho muita dificuldade em concentrar-me, em entender a equidistância. A minha memória é muito fraca, enrolo-me a falar. Parece que falta café (gargalhada). Eu tomo e não adianta. Fico mais acelerada, mas sinto que o meu cérebro é meio relaxado. Livre. 

Como se lida com os compromissos promocionais e a obrigação de cumprir calendários?

Sim, eu também tenho um lado pragmático. A minha cabeça é naturalmente mais artística, mas sei como ser prática. Chego a horas às entrevistas e aos ensaios. Pago as contas e os impostos. Não te digo é a quantidade de vezes que queimei panelas. (ri) Não é queimar comida, é a panela mesmo... esqueço-me, saio de casa e a panela a ferver. Outro clássico é sair de casa com a chave por dentro. E ir a exposições no ano errado? Quantas vezes... Gosto de um artista e, quando chego à exposição, foi no ano passado. 

O que trouxe a Banda do Mar [triângulo transatlântico com Mallu Magalhães, o marido, Marcelo Camelo, e o amigo português Fred]? 

Muita coisa. Mais sabedoria sobre a canção direta. Simples no trato. Trouxe-me libertação no palco. Consegui entender melhor o meu corpo. Passei a tocar mais guitarra. Foi fantástico poder estar em palco sem cantar. Nunca tinha feito isso antes. E podia falar em nome de um coletivo, é um alívio. Sou sempre eu na linha da frente e no alvo. Uma banda é como ir a uma festa com os amigos. 

A simplicidade era a marca. 

Sim, a Banda do Mar era bem simples.

O “Vem” é um contraste?

Sim, quando eu e o Marcelo começámos a fazê-lo queríamos um disco clássico com arranjos incríveis, a canção na sua perfeição formal. Sabes quando vais a uma festa e estás perfeito? O fato está engomado, o laço posto, o cabelo penteado e os ténis condizem? O “Vem” é assim. Não tem meias rotas. Está elegantérrimo. Foi uma tentativa. Nos outros discos, o erro estava muito presente. Desta vez, não. Se as canções não estavam como queria, não entravam. Foram escolhidas a dedo. Foi um disco muito trabalhado, com muitas cabeças a pensar. 

De onde partiu essa vontade de inverter o processo?

É uma tentativa super-humana, na mesma. A perfeição, como a da natureza, nunca será atingida. Funciona por oposição, por tentativa de experimentar coisas. O “Pitanga Madura” (2011) era muito caseiro. Neste chamámos vários músicos e isso está impresso no disco. Costumávamos tocar todos os instrumentos, mas ninguém é bom em todos. Aliás, é raro ser-se bom sequer em um.

O Prince era bom em todos. 

Ok, à excepção do Prince, ninguém consegue. (ri)

Os clássicos brasileiros serviram de farol?

Sim, também. São referências. Ouvimos essa música em casa, mas não só. Escuto muito jazz. Adoro. A música que ouço em casa para trabalhar ou cozinhar é diferente da que ouço para me emocionar. Nem sempre o resultado final segue as influências. A linguagem é repetição, mas a linguagem da música vem muito do lugar onde o raciocínio ainda não atua. O impulso da composição é muito selvagem. Já perdi a conta às vezes em que estou decidida a fazer um disco de rock e não consigo. A Banda do Mar foi o mais próximo, por ter o Fred e o Marcelo. A intenção inicial nem sempre é a final. Bem pelo contrário. Mas é válido. 

Mais espontâneo?

Sim, e mais assertivo. Não adianta querer transformar uma canção. Não é por acelerar o tempo que ela passa a ser dançável ou desacelerando que ela se transforma numa balada. A canção já vem com o ADN, por isso é que é tão bom ser respeitoso e aceitar o que a música pede. 

O vídeo do “Você não Presta” gerou uma grande polémica por ter sido acusado de racismo. 

Não foi intencional e até publiquei um texto a explicar. Serviu de aprendizagem, minha e de quem acompanhou a polémica. É um assunto muito grave que deve ser falado. A minha intenção não era aquela, mas se ofendeu alguém é preciso repensar o que foi feito. E eu repensei de ponta a ponta. Fiz um vídeo bonito - os bailarinos dançam tão bem -, mas hoje teria outros cuidados. Li as críticas, acompanhei a discussão e aprendi muito. Sempre tive uma noção histórica e cultural do racismo, no Brasil e no mundo, mas hoje tenho um olhar muito mais apurado. Achava que sabia do assunto, mas há muito mais. Como aprender senão errando? 
 

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