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Herman José. “Muitas vezes, o dinheiro que ganho a fazer espetáculos lá fora derreto-o no hotel e nas refeições”

Herman José. “Muitas vezes, o dinheiro que ganho a fazer espetáculos lá fora derreto-o no hotel e nas refeições”

João Girão José Cabrita Saraiva 05/10/2017 21:58

Numa conversa franca e aberta, o humorista fala sobre a fase em que perdeu o controlo e outras “coisas desagradáveis”, mas também sobre os pequenos prazeres da vida, como a excitação de ir buscar um carro novo.

Temos a sensação de que o Herman se calhar gostava de ter feito carreira como cantor…

Tive um drama terrível. Até à mudança de voz, cantava tão bem, tão bem, tão bem… Era unânime. Era como a Mariza agora. A Mariza desata a cantar e toda a gente ‘Ahhhh’. Esse dom eu tinha. De tal maneira que na Escola Alemã chegaram a considerar mandar-me para os Wiener Sängerknaben, o coro dos cantores de Viena. Só não fui porque era filho único, a minha mãe desatou a chorar com a ideia… se não tinha ido. Era absolutamente genial.

Angelical?

Angelical e perfeito. Quando mudei de voz tornei-me um tipo muito musical mas com um aparelho vocal vulgaríssimo. A música serve a minha profissão enquanto humorista, mas como sou muito crítico, o que ouço não é um cantor, é um ator que canta afinado. O cantor para mim tem de ter um timbre. Mesmo que cante mal como o Bob Dylan ou o Leonard Cohen, há ali uma característica. Isso acho que tenho enquanto humorista.

O que gosta de ouvir?

Depende. Quando estou com insónias a música clássica faz-me bem.

Relaxa-o?

Relaxa-me, dá-me prazer, induz o sono.

Por ser chata?

Não, porque mexe com partes do cérebro que não me fazem rebentar bolhas de adrenalina. A última grande insónia que tive estava no Alentejo, um calor insuportável – o ar condicionado estava avariado – e eu pus a Martha Argerich a tocar o concerto para piano e orquestra número 2 do Rachmaninov. Soube-me tão bem, tão bem, tão bem. Aquilo entrou-me dentro da alma, esqueci-me de que estava com calor, deixei-me levar e quando acabou o concerto induziu-me no sono.

Costuma ter problemas para dormir?

Não. O que acontece é que às vezes há pequenas sementes que pegam de estaca algures no meu cerebelo e criam ali uma árvore que em vez de me induzir o sono começa a mobilizar-me o cérebro. Podem ser coisas benignas, ótimas, soluções profissionais, a excitação de ir buscar o carro novo, ou coisas desagradáveis.

Preocupações?

Preocupações. Tudo o que meta dinheiro, impostos, finanças, é sempre muito desaustinante. Lidamos muito mal com isso porque não é a nossa especialidade.

Não tem quem lhe trate dessas coisas?

Tenho, mas há sempre coisas que não correm bem, independentemente de termos pessoas competentes, e eu tive uma fase em cresci muito em muitas direções, restaurantes e porcarias, estúdios, Tivolis, e perdi o controlo. Tenho estado estes anos todos a arrumar a casa, a fazer um downsizing à minha vida para voltar a ser feliz como quando vivia só do meu trabalho e tinha poucos ordenados para pagar. Não me dá prazer nenhum ser patrão, nenhum prazer ter reuniões, nenhum prazer falar com bancos… é uma coisa anti-natura para mim. E estupidamente algures nos anos 90 achei que ia ser também ser empresário, um erro desmedido.

E o que lhe dá prazer agora? Ainda sente aquela excitação quase infantil quando vai buscar um carro novo, como disse há pouco?

É impossível não sentir. O cheiro a carro novo, o brinquedo novo. Ou descobrir uma coisa que adoro no Ebay e ficar ansioso que ela chegue. Coisas tão fúteis, tão fúteis, que o pudor me impede de explicar quais são. Gadgets ou uma porcaria de um cachecol que se descobre de um padrão que a gente queria ter porque liga com não sei o quê. Ou uma calçadeira de 55 centímetros para eu usar no espetáculo. Vibro imenso com essas pequenas porcarias. Se eu tiver um porta-moedas da Vuitton que uso para pôr os auscultadores, como é da Vuitton e vale 200 euros já não o perco. Se for barato deixo num sítio qualquer. Sou muito infantil nesse aspeto.

Além dessas compras qual é o tipo de coisa que lhe dá prazer? Viajar, comer uma boa refeição?

A viagem ancorada nos restaurantes certos. Com bons hotéis – tem de ser. Não raras vezes o dinheiro que vou ganhar quando vou fazer espetáculos fora derreto-o no hotel e nas refeições. Mas paciência. É essencial para mim ficar bem instalado. E ir a sítios comer coisas interessantes, frescas, não precisam de ser super-requintadas. Em Paris há uns restaurantes maravilhosos sem fama nenhuma que servem as melhores ostras do mundo. A gente escolhe entre seis variedades, faz uma refeição de ostras e no final come um pequenino steak tartare e bebe um champanhe e teve uma explosão de felicidade. Se me perguntarem como é que se chama o restaurante, não sei. É onde? Não sei. Tenho enfiado grandes barretes também em restaurantes duas e três estrelas Michelin. Tenho um desgosto enorme: não gosto de vinho. O vinho não me dá prazer.

Costuma beber o quê?

Continue a ler esta entrevista na edição de fim-de-semana do i

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