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Abstenção. Quando o ficar em casa é uma arma

Abstenção. Quando o ficar em casa é uma arma

Marta Cerqueira 01/10/2017 18:29

Os analistas têm tendência a ler a abstenção como um sinal de desinteresse. Mas há portugueses que não votam por convicção e que esperam que essa tomada de posição seja vista como uma arma política

Paulo tem 32 anos e nunca votou. Não por falta de interesse ou por ter outras coisas para fazer no dia das eleições. “Não voto por convicção”, resume. João explica ao i que apesar de estar bastante atento ao panorama político, não se revê em nas propostas de nenhum dos partidos a votos.

“Votar não deixa de ser uma falsa sensação de liberdade”, admite. Não acredita que o seu voto faça a diferença, uma vez que olha para o sistema democrático como algo “cíclico”, feito de “uma sucessão constante entre o PS e o PSD”.

Tem por hábito ir a assembleias públicas e acredita no poder local. Por isso, não põe de parte a hipótese de um dia ir às urnas exercer o seu direito se tiver um partido que se foque na gestão local. “Não sou de clubismos”, avisa e, por isso, desde que a ideia seja arrojada, “até pode vir do CDS”, mesmo tendo uma simpatia pelo Bloco de Esquerda.

Paulo não gosta de ver a sua abstenção ser lida como desinteresse. “Para mim é uma arma”, garante. Também Luis Kaizeler se irrita quando vê os analistas a “falar da sua ausência nas urnas como uma comodidade. “Eu não me abstenho para ir a praia”, garante. Luís gosta de política, interessa-se em ouvir as propostas, mas não se identifica com nenhum partido. Não vai às urnas na esperança que alguém veja a abstenção como um “cartão amarelo”, até porque tem consciência que cada voto vale dinheiro, mesmo que branco ou nulo. “= meu voto, ainda que em branco, ia dar dinheiro ao partido vencedor e eu não quero isso”, refere.

Luís sente falta de ver políticos que se moviam por convicções, “como o Mário Soares ou o Sá Carneiro”, e lamenta que atualmente os partidos “sejam feitos de jotinhas e de interesses”.

Eleições especiais, ou talvez não

Há quem, como Marcelo Rebelo de Sousa, veja as autárquicas como umas eleições especiais. “Se não se vota, então em que eleições é que se há de votar?”, questionou hoje, lembrando que as autárquicas equivalem a escolher os representantes que estão mais próximos da população. Mas Luis contra-ataca este argumento e lembra que nem sempre as escolhas locais são as mais consensuais. “Oeiras é o concelho mais letrado do país e vão votar hoje num cadastrado”, refere, fazendo alusão a Isaltino Morais, que se candidata depois de, em 2013, ter sido preso por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Os argumentos de Mafalda para se manter afastada das mesas de voto não são tão completos, mas são exemplos como estes que fazem com que, com 40 anos, nunca tenha votado. “É um misto de desinteresse com o facto de não haver ainda um candidato que me convença a ir às urnas”, explica. Mesmo assim, se há uns tempos a decisão de não votar era definitiva, agora não. “É muito provável que venha a votar caso surja alguém com quem me identifique”, refere.

Mas a verdade é que em 2013 foi atingido o recorde de abstenção numas autárquicas, com 47,4% dos eleitores a ficar em casa. Por agora, estamos num limbo: até às 16h, a afluência às urnas foi superior à das últimas eleições autárquicas mas não superou os valores que se registavam à mesma hora em 2005 e 2009.

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