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Ex-administrador da PT ‘denuncia’ Salgado, Bava e Granadeiro

Ex-administrador da PT ‘denuncia’ Salgado, Bava e Granadeiro

João Porfírio Felícia Cabrita e Joana Marques Alves 16/09/2017 09:36

Ex-administrador da PT confirma que a empresa foi usada para servir os interesses do BES e de Ricardo Salgado. 

O Banco Espírito Santo ‘coordenou’ a distribuição de dividendos aos acionistas da Portugal Telecom após a rejeição da OPA da Sonae. A revelação foi feita ao Ministério Público por Jorge Tomé, antigo administrador não executivo da PT por designação da Caixa Geral de Depósitos.

Durante o interrogatório, no âmbito da Operação Marquês, Tomé explicou que, do seu posto de vista e defendendo os interesses dos acionistas da PT, a OPA «deveria ser tida em consideração», ou seja, não deveria ser rejeitada liminarmente. E garante ter transmitido esta opinião a Zeinal Bava, CEO da operadora, mas sentiu da sua parte «um desconforto» e «preocupação» relativamente ao eventual sucesso da oferta.

O mesmo receio era partilhado por Ricardo Salgado, que o MP suspeita ter estado por detrás da derrota da Sonae, por forma a manter o domínio da PT, bem como a sua capacidade de influência nas decisões estratégias da operadora, nomeadamente no Brasil.

No seu depoimento, Jorge Tomé afirma ainda que teve «a perceção que o BES pressionava a administração da CGD para que votasse contra a OPA». O sentido de voto do banco público só seria conhecido pouco antes da assembleia geral de 2 de março de 2007, mas Carlos Santos Ferreira, presidente da CGD, explicou a Tomé que o banco iria votar contra a OPA, «por ser essa a recomendação da administração da PT».

O MP suspeita que, após a derrota da Sonae, Salgado financiou acionistas da operadora que votaram contra a OPA. Esta hipótese é reforçada pelo testemunho de Jorge Tomé, segundo o qual a administração da PT prometia «melhorar o rendimento dos acionistas», estratégia essa que era promovida pelo BES.

Encontros entre Granadeiro e Dirceu

Jorge Tomé falou ainda sobre os negócios da PT no Brasil, nomeadamente a saída da operadora portuguesa da Vivo e a entrada na Telemar/Oi. «No conselho de administração da PT dizia-se que o Governo estava a impor a participação da PT na Oi como condição para levantar o bloqueio à decisão de venda da participação na Vivo», afirmou, referindo-se ao uso que Sócrates fez da golden share do Estado na operadora portuguesa.

José Dirceu, homem-forte do então Presidente Lula da Silva, terá feito ‘a ponte’ entre o poder político brasileiro e os administradores de ‘peso’ da PT, com o objetivo de levar a operadora portuguesa a investir na Oi, que era controlada à data pela Andrade Gutierrez (empresa investigada na Operação Lava Jato) e pelo grupo La Fonte.

Esta teoria é suportada por Jorge Tomé, que revelou aos investigadores que teve conhecimento de contactos entre o então presidente da PT, Henrique Granadeiro, e as autoridades brasileiras, entre 2007 e 2010. E confirmou que o próprio Granadeiro viajou até ao Brasil para tratar deste assunto, chegando a falar na criação «de uma grande operadora de língua portuguesa».

Recorde-se que o MP suspeita que Henrique Granadeiro, em troca do recebimento de ‘luvas’, tomou decisões estratégicas para favorecer certos acionistas da PT, nomeadamente o BES, que queria manter uma posição firme no mercado brasileiro.

75 milhões para a Ongoing

A partir de 2009, Jorge Tomé passou a integrar o Comité de Investimentos da PT – e foi neste âmbito que, no seu depoimento, abordou as aplicações financeiras da PT Prestações (uma subsidiária do grupo) em fundos geridos pela Ongoing.

Liderada por Nuno Vasconcellos, a Ongoing tornara-se acionista da operadora pouco antes da votação da OPA, sendo então financiada pelo BES e vista como ‘testa-de-ferro’ de Ricardo Salgado. Tomé contou aos investigadores que se deparou então com uma saída de 35 milhões de euros, uma movimentação que não tinha, aparentemente, qualquer explicação. Perante a recusa de vários responsáveis internos em esclarecer as transações – que, soube-se mais tarde, ascenderam na realidade a 75 milhões de euros –, Tomé ameaçou demitir-se do cargo, mas Bava dissuadiu-o. E, mais tarde, apercebeu-se de que a decisão da PT Prestações fora sugerida por Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, vogais da administração da PT designados pelo BES.

No seu esclarecedor depoimento, Jorge Tomé afirmou finalmente que, até sair da PT, tentou descobrir o destino do dinheiro aplicado naqueles fundos, mas sem sucesso.

Hoje, sabe-se que esse dinheiro teve vários fins, entre os quais investimentos numa empresa de Rafael Mora, no grupo Impresa e no fundo de jogadores do Benfica. E, por detrás desses movimentos, estava o posicionamento de Ricardo Salgado e do BES no Brasil.

Em 2009, Salgado realizou um acordo de serviços com a Ongoing Brasil – empresa do grupo Ongoing. Para concretizar este acordo, constituiu-se a BRZTech. E terá sido nesta empresa que o dinheiro da PT foi investido. Esta ficava com 15% do capital da BRZTech, mas sem poderes de intervir na gestão, enquanto a Ongoing Brasil e o GES cobriam em partes iguais o restante capital da nova sociedade.

 

 

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