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Merkel ou Schulz. O amanhã que nos toca depois de os alemães irem a votos

Merkel ou Schulz. O amanhã que nos toca depois de os alemães irem a votos

Filipa Traqueia* 13/09/2017 19:33

Quando se vota no país mais poderoso da União Europeia, os efeitos sentem-se para lá das suas fronteiras. Que influência poderá ter a escolha dos eleitores alemães em Portugal? Mas para além da dúvida entre Merkel e Schulz, o lugar mais disputado é o de terceiro maior partido e fiel de uma futura coligação

“Ninguém está a pôr neste momento em causa que o partido de Angela Merkel vai ganhar”, afirma Miguel Szymanski, correspondente do “Der Freitag” em Portugal. “O país tem uma tradição de governação em coligação desde o pós-guerra e estas eleições não serão diferentes”, acrescenta. As sondagens preveem que a União Democrata Cristã (CDU-CSU), de Angela Merkel, vença e o Partido Social Democrata (SPD), de Martin Schulz, fique em segundo lugar. Thomas Fischer, jornalista alemão a viver em Portugal há mais de 30 anos, vê “como muito difícil haver alguma maioria que não inclua Merkel”. A questão, portanto, não é quem vai vencer a 24 de setembro, mas com quem é que a chanceler alemã, que vai para o quarto mandato consecutivo à frente do governo, terá de se coligar para formar o próximo executivo.

Além da CDU e SPD – que formam a atual coligação –, na corrida ao parlamento (Bundestag) estão outros quatro partidos: o Partido Democrático Livre (FDP), o Die Linke (A Esquerda), os Verdes e o movimento Alternativa para a Alemanha (AfD).

Com base nas sondagens, o cenário mais provável aponta para a continuação do atual acordo de governo CDU-SPD. “A repetição da grande coligação é a melhor opção para a Alemanha, para as reformas de que a zona euro precisa e a que mais beneficia Portugal”, explica Bernardo Pires de Lima, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova. Apesar de o SPD ter afirmado rejeitar a repetição da grande coligação, não se deve colocar de parte esta possibilidade. “No momento em que há seis partidos no parlamento alemão será muito difícil conseguir uma coligação com apenas um partido que não o SPD”, explica Mónica Dias, investigadora da Universidade Católica Portuguesa.

A continuação da grande coligação não implica que tudo fique igual, podendo haver mudanças. E uma das alterações em cima da mesa é a permanência de Wolfgang Schäuble, conhecido como o pai das políticas de austeridade, no Ministério das Finanças. A saída de Schäuble pode abrir a Alemanha às políticas de ajuda externa e ser o fim da política alemã do défice zero. “Os principais economistas do mundo dizem que a Alemanha tem é de gastar dinheiro e investir na Europa”, explica Miguel Szymanski. “Os burgueses alemães”, diz o jornalista, “têm medo de duas coisas: de abrirem os cordões à bolsa e da inflação.”

Se o SPD mantiver a palavra e não quiser repetir a grande coligação, Merkel terá então de procurar acordo noutro lado. O partido liberal é uma forte possibilidade. A CDU já tem experiência de coligação com o FDP no segundo mandato e, não fosse o fracasso eleitoral nas últimas eleições, a experiência podia ter continuado.

Pior cenário para Portugal

A coligação com os liberais do FDP seria “o cenário mais difícil” para Portugal, explica Mónica Dias, “porque aí a CDU poderia entrar numa linha de mais austeridade, de pagar mais quem tem de pagar, de mais responsabilidade individual e de mercado e sem solidariedade” para os países em dívida. Szymanski partilha da mesma opinião e acrescenta que “se Merkel fizer uma coligação com o FDP, a abertura para, por exemplo, o perdão de dívida à Grécia é praticamente nula. Logo, por extensão, há uma enorme inflexibilidade em relação aos créditos aos países do sul, entre os quais Portugal” – a dívida pública portuguesa é superior à da Grécia quando rebentou a crise.

No entanto, os liberais estarão tentados a pensar duas vezes antes de aceitar um acordo com a CDU, tendo em conta que a última experiência não foi positiva para eles. Bernardo Pires de Lima relembra que “o FDP praticamente desapareceu depois de ter passado quatro anos na primeira coligação”. Nas eleições de 2013 nem sequer conseguiu representação parlamentar por não ter atingido o mínimo de 5% dos votos, como prevê a lei eleitoral alemã.

Bernardo Pires de Lima acredita que num acordo com o FDP, Merkel “precisaria também de um outro partido para equilibrar as reivindicações dos liberais e diminuir o seu poder dentro de uma coligação”. É aí que entra a denominada coligação Jamaica, juntando CDU, FDP e os Verdes, que é a hipótese considerada mais provável para uma governação a três. O nome vem da junção das cores dos partidos, preto, amarelo e verde, como a bandeira jamaicana. Ao contrário dos liberais, CDU e Verdes defendem uma maior aproximação à Europa e às políticas de apoio e solidariedade.

Mónica Dias não acredita que o FDP tenha força para, sozinho, enfrentar dois partidos com ideologias semelhantes. Neste acordo de coligação, “a voz da CDU e dos Verdes” iria “rapidamente disciplinar este júnior da coligação”, explica.

A hipótese de uma coligação Jamaica não é vista como viável por Szymanski e Christian Linder, líder do FDP, já colocou fora de questão qualquer acordo governativo com os Verdes. Se do lado do FDP há um não a esta coligação, do lado de Merkel nada se sabe. “Não vejo como Merkel, no seu último mandato, iria apostar numa coligação chamada de risco”, afirma Szymanski.

Geringonça alemã?

E se na Alemanha aparecesse uma solução governativa à moda de Portugal, uma qualquer geringonça que em alemão teria uma palavra tão ou mais estranha? A possibilidade está em cima da mesa, mas para Miguel Szymanski teria de “haver um António Costa alemão” capaz de a negociar. Seria Martin Schulz homem para isso?

A coligação juntaria o SPD com os Verde e o Die Linke, “um partido assim entre o Bloco de Esquerda e o PCP”, na definição de Szymanski. “Obviamente que é o sonho e a esperança dos sociais-democratas,” explica Tilo Wagner, correspondente em Portugal da Deutschlandradio. “Teoricamente pode existir essa possibilidade porque a esquerda alemã está farta de ver Angela Merkel no poder. Na prática, as sondagens não dão uma maioria a essa coligação,” acrescenta.

O problema de Schulz são as sondagens. A matemática é simples: as previsões para o SPD rondam os 24%, e Verdes e Die Linke terão cada um 8%, o que resulta em 40% – um valor que fica aquém da maioria. “É possível do ponto de vista político, é improvável do ponto de vista de resultado eleitoral”, conclui Szymanski.

Schulz precisa de uma alternativa para os sociais-democratas porque “a grande coligação enfraquece o SPD, leva o partido a deixar de ter voz própria”, explica Mónica Dias tendo por base as declarações de Sigmar Gabriel, atual ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-secretário-geral do SPD. “Quando falamos de política alemã, falamos em Merkel e esquecemos que se trata de um governo de coligação entre a CDU e o SPD”, acrescenta. Também Szymanski acredita que “é um erro o SPD voltar a coligar-se com Merkel porque o SPD vai perder ainda mais votos e vai perder a identidade”.

Terramoto alemão

A última hipótese seria se Martin Schulz vencesse as eleições. “É hipotético e altamente improvável,” frisa Mónica Dias. “Eu creio que [o SPD] poderá ganhar mais 3 ou 4%, mas mais do que isso será muito difícil” acrescenta. No entanto, numa mesa cheia de hipóteses, se o improvável acontecer e o SPD levar a melhor nestas eleições, Schulz também se veria obrigado a formar um executivo de coligação.

Se se juntasse aos Verdes haveria possibilidade de alteração das políticas europeias. “Schulz é um europeísta convicto e o SPD é um partido que sempre defendeu a Europa” e, por isso, “seria um governo que iria olhar mais para os países pequenos, introduzir mais apoios, mais investimento na prosperidade e na integração da União Europeia”, refere Mónica Dias. Para Szymanski, a coligação destes dois partidos no governo alemão “era, de facto, um terramoto na Europa”.

Extrema-direita e indecisos

Fora de qualquer coligação está a Alternativa para a Alemanha (AfD), o novo partido de extrema-direita. “Acho que nenhum dos chamados partidos do arco mais moderado fará coligação com o AfD”, afirma Bernardo Pires de Lima. O partido que apareceu com o objetivo de forçar a saída da Alemanha da zona euro apresenta um discurso xenófobo que não lhe granjeia simpatias dentro do atual quadro partidário. O mesmo não é dizer entre os eleitores. Szymanski não acredita que o AfD seja um “fenómeno efémero”; as suas “melhores previsões – melhores para o AfD” – apontam para uma votação à volta de 10%. “Se chegar aos 15% dos votos, é uma hecatombe! Mas não é de todo impossível,” refere.

Os números poderão mudar muito e o resultado das eleições de 24 de setembro pode ser uma surpresa, tendo em conta que há ainda 49% de indecisos. Segundo os especialistas, a distribuição dos votos acabará por se aproximar das sondagens, mas há um quinhão de imprevisibilidade. Até porque, como alerta Mónica Dias, até às eleições podem ocorrer situações capazes de alterar o resultado, seja um atentado terrorista numa cidade alemã, conflitos entre a Alemanha e a Turquia ou influência russa no processo eleitoral.

O processo eleitoral alemão resulta de uma votação em dois níveis, estando atribuído a cada um 299 dos 598 lugares do parlamento. Em cada círculo, os eleitores escolhem o deputado e o partido que querem ver no Bundestag. No final é feito um ajuste entre os eleitos diretamente e os lugares alcançados pelo partido.

*Texto editado por António Rodrigues

 

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