19/11/17
 
 
Carlos Zorrinho 13/09/2017
Carlos Zorrinho
opiniao

opiniao@newsplex.pt

O Estado da União (num tweet)

No momento em que escrevo estou cheio de curiosidade sobre o que estarão a dizer neste momento em que o leitor me lê as agências noticiosas? Terá cabido a síntese da mensagem num tweet? Se não coube, é porque não foi um discurso conseguido

Quando este texto for lido pela grande maioria dos leitores, Jean-Claude Juncker já terá feito o seu discurso de abertura no debate sobre o Estado da União, aprazado para a manhã de hoje (8h de Portugal). No momento em que o escrevo, estou cheio de curiosidade sobre o que estarão a dizer neste momento em que o leitor me lê as agências noticiosas? Terá cabido a síntese da mensagem num tweet? Se não coube, é porque não foi um discurso conseguido.

Desejo que da fala de Juncker tenha saído, límpida e credível, uma ideia central. A UE quer ser um ator liderante na nova ordem global e, para isso, decide reforçar-se, apostando na convergência interna. Cento e vinte e um carateres. Uma estratégia clara, possível e refundadora. Foi esta ideia que saltou as “barreiras da comunicação”? Se foi, temos futuro. Se não foi, teremos futuro à mesma, mas o caminho será bem mais complexo e Juncker terá nele um papel secundário.

O discurso do Estado da União hoje proferido por Juncker foi o penúltimo do seu mandato. Para muitos analistas, constituiu mesmo a última oportunidade para que o seu legado vá para além da cenarização e do controlo de danos na saída do Reino Unido.

Juncker fez e ainda irá fazer muitas coisas de grande relevância. Seria injusto não sublinhar que em momentos importantes pudemos contar com ele como um amigo de Portugal. A Grécia deve-lhe em larga medida a permanência na zona euro. Foi de uma primeira proposta sua, lançada no discurso do Estado da União de 2016, que nasceu a iniciativa WIFI4EU – Acesso gratuito à internet em espaços públicos para todos os cidadãos europeus, de que sou relator no Parlamento Europeu e cujo acordo institucional foi ontem mesmo aprovado no Parlamento.

A aceleração da comunicação e das mensagens nos tempos modernos é implacável. O mandato de Juncker será avaliado pela eficácia política do tweet que resultar do seu discurso ou pela incapacidade de nele encontrar 140 carateres, ou menos, capazes de fazerem a diferença.

Um processo de consolidação do projeto europeu implica no mínimo que a União Europeia (UE) afirme uma voz global, se posicione na liderança da transição energética e digital, assegure níveis aceitáveis de segurança aos seus cidadãos e complete a União Económica e Monetária. Não há poção mágica que permita fazer isto com transferências nacionais de 1% do PIB dos 27 países que a integrarão pós-2019.

A UE tem de fazer escolhas inteligentes, convergir para ser mais eficiente e eficaz na gestão dos seus recursos e encontrar receitas próprias baseadas na taxação de operações transeuropeias geradoras de valor, no domínio dos mercados financeiros, dos mercados ambientais ou dos mercados digitais. Afirmar valores à escala global através de uma consolidação de vontades políticas internas só será possível se o projeto europeu for percebido como benéfico por todos, e não apenas por alguns povos europeus.

Acha o leitor que já conhece o discurso de Juncker, coisa que eu não conheço quando escrevo esta crónica, que ele se pode sintetizar no tweet que referi no segundo parágrafo? Se considera que sim, saiba que a esta hora, em Estrasburgo, estou muito feliz e entusiasmado. Se, pelo contrário, pensa que não, saiba que continuarei determinado a lutar para que esse seja o futuro do projeto europeu.

 

Eurodeputado

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×