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Carlos Carreiras 13/09/2017
Carlos Carreiras

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Catástrofes e alterações climáticas: não foi por falta de aviso

O país precisa de cidades preparadas para lidar com fenómenos extremos. As autarquias, em parceria com o governo, têm de abraçar uma nova era de planeamento urbano

Seis milhões de pessoas entupiram as estradas num cenário de êxodo de dimensões bíblicas. Cidades vibrantes, como Miami, foram abandonadas à sua sorte. Os mais idosos e as franjas sociais mais desfavorecidas encheram centros de abrigo transformados em habitações comunitárias.

As imagens que nos entraram em casa nos últimos dias, relatando a passagem do furacão Irma pelas Caraíbas e Florida, remetem mais para um cataclísmico filme de Hollywood do que para blocos de noticiários.

Estamos em plena época dos furacões no Atlântico. E a novidade é que os fenómenos climáticos extremos, como há muito nos vêm avisando, estão a tornar-se mais frequentes e mais potentes.

A devastação provocada pelos furacões Harvey e Irma obriga-nos, deste lado do Atlântico, a fazer perguntas.

Primeira pergunta: estamos ou não, em Portugal, a preparar as nossas cidades para os fenómenos meteorológicos extremos?

As cheias tornaram-se a catástrofe mais frequente no mundo. Todos os anos, 250 milhões de pessoas são afetadas pela subida repentina do nível das águas. Portugal, tendo uma extensa frente marítima, está particularmente exposto. Pior ainda no caso da frente ribeirinha e costeira da Área Metropolitana de Lisboa, que ao risco de cheia acrescenta o risco sísmico. Se considerarmos que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, que uma percentagem esmagadora da população está concentrada no litoral e que uma parte da nossa infraestrutura está obsoleta, temos um quadro de risco considerável.

Reconhecer o potencial de catástrofe e agir em conformidade é o primeiro passo para uma política de proteção civil capaz de proteger as pessoas quando for preciso.

Como aqui escrevi há umas semanas, a resiliência das cidades é uma questão fulcral no planeamento urbano do século xxi. Não se trata de jargão da moda. Como Miami e Houston mostram, trata-se de salvar vidas humanas e preservar ao máximo o património das pessoas. As Nações Unidas têm os seus próprios parâmetros de avaliação da resiliência das cidades. É preocupante que apenas 8% dos municípios portugueses, entre os quais Cascais, sejam considerados preparados para lidar com catástrofes naturais.

O país precisa de cidades preparadas para lidar com fenómenos extremos. As autarquias, em parceria com o governo, têm de abraçar uma nova era de planeamento urbano. Especial atenção deve ser dada aos edifícios públicos como hospitais e escolas, essenciais no apoio e proteção das pessoas em cenários de crise, mas também às infraestruturas como pontes, aeroportos e portos, barragens e toda a rede de estruturas críticas para o regresso à normalidade.

A aposta nas smart cities e na regeneração urbana deve ter na construção da urbe resiliente um dos seus pontos mais críticos.

Segunda pergunta: durante quanto tempo mais vamos negligenciar a evidência das alterações climáticas?

Donald Trump, líder do país mais poderoso do mundo, não acredita no aquecimento global. O presidente americano acredita que é tudo uma invenção dos chineses para fragilizar a economia americana. Desde que foi eleito, tem-se ocupado em desmantelar a herança do seu antecessor: rasgou os acordos de Paris, cortou apoios às energias limpas, deu carta-branca à exploração de carvão e petróleo e, dias antes dos furacões Irma e Harvey, assinou uma ordem executiva que repudiou legislação de Barack Obama sobre os requisitos obrigatórios nas construções no que respeita a proteção contra cheias. A frequência dos furacões não está diretamente ligada às alterações climáticas. Mas a sua potência e intensidade está, tal como estão muitos outros fenómenos extremos. E como se vê, embora o rasto de destruição seja partilhado por todas as regiões – do Caribe pobre à próspera Houston –, são os povos mais pobres quem mais sofre com a inação do mundo desenvolvido nesta matéria.

Talvez por isso, ainda ontem, o Papa tenha apontado no sentido certo, apelando à ação política. “Quem nega as alterações climáticas será julgado pela História”, salientou Francisco, vaticinando que “se não arrepiarmos caminho, vamos afundar-nos.” O tempo (político) do outro lado do Atlântico está a dar razão à previsão do Papa.

P.S. Pela primeira vez em seis anos, interrompo esta coluna de opinião no i. Entramos, dentro de dias, no período oficial de campanha eleitoral autárquica. Quero poupar a Comissão Nacional de Eleições às queixinhas dos partidos da oposição. Como não sou de meias-palavras, prefiro o silêncio temporário, mas livre, à autocensura imposta. Voltarei a este espaço no dia 4 de outubro.

Escreve à quarta-feira

 

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