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Passos não garante apoiar Marcelo nas próximas presidenciais

Passos não garante apoiar Marcelo nas próximas presidenciais

Sebastião Bugalho 13/09/2017 08:30

O líder do PSD só quer decidir “na altura própria” se apoiará a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República, depois de tê-lo feito com o CDS em 2016. Nessas eleições presidenciais, António Costa não apoiou nem Sampaio da Nóvoa nem Maria de Belém, dando liberdade de voto aos militantes entre os nomes próximos da esquerda socialista. A pergunta para daqui a quatro anos não é só “quem o PSD vai apoiar”. É se vai apoiar alguém

Nunca se havia feito a pergunta e a verdade é que a resposta chegou sem ela ser feita. O PSD voltará a apoiar Marcelo Rebelo de Sousa como candidato a Presidente da República, apesar da proximidade que este tem demonstrado com o governo do Partido Socialista? Passos Coelho não confirma nem desmente: remete para o futuro.

“Nós apoiámo-lo, ele foi eleito, está a exercer o seu mandato e faremos a avaliação na altura própria”, disse Pedro Passos Coelho esta segunda-feira, num evento partidário no Seixal, quando o tema era mais a relação de hoje entre ambos que o futuro da dita. O verbo apoiar foi colocado no pretérito perfeito – “apoiámo-lo” –, referindo-se ao endorsement que o PSD ofereceu a Marcelo nas presidenciais de 2016. Mas a repetição desse apoio não está garantida. Passos adverte que fará a avaliação da Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa e só depois o partido tomará a decisão, “na altura própria”.

Na medida em que as próximas eleições presidenciais são em 2021, daqui a cerca de quatro anos, a liderança do Partido Social Democrata teria de sobreviver a (1) as eleições autárquicas do próximo mês, (2) o congresso interno do próximo ano e (3) as legislativas de 2019. A decisão de apoiar – ou não – Marcelo Rebelo de Sousa será do homem que for presidente do PSD depois de tudo isso. E Passos Coelho tenciona, naturalmente, ser esse homem.

“Não apoiar o Marcelo é diferente de apoiar alguém contra o Marcelo”, repara um barão do PSD ao i, recordando que “Costa também não deu o apoio oficial do PS a ninguém em 2016.”

“O Pedro [Passos] poderá muito bem dizer o mesmo aos nossos militantes: votem de acordo com a vossa consciência. E a ideia de que os militantes são todos inconscientemente marcelistas já não é bem assim”, descreve, sob reserva, acrescentando outro ponto. “Mas não seria esse o cenário ideal para o Presidente? PS e PSD não darem o apoio a ninguém para ele ocupar todo esse espaço sem precisar deles?”

A unanimidade é vista, de facto, como uma das ambições de Marcelo Rebelo de Sousa, até pelos sociais-democratas mais próximos dele. A popularidade que vem mantendo desde início torna-a, nesse sentido, possível e provável.

Se a relação entre o líder dos sociais-democratas, Pedro Passos Coelho, e o antigo líder do mesmo partido, Rebelo de Sousa, se mantém nos mínimos necessários dentro do quadro institucional – a distância pessoal não é secreta –, a questão não deixa de ser pertinente.

É o PSD que está longe de Marcelo ou foi Marcelo que se afastou do PSD? Está o PSD demasiado à direita para um Presidente que quer apaixonar a esquerda ou a direita “não nota” quando o Presidente vira para o seu lado? “Eu, quando viro à direita, em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda e não nota. Em vez de aproveitar, não nota”, atirou o Presidente da República em Andorra, este mês.

Depois disso, titulou o semanário “Expresso” que Marcelo se encontra “estupefacto com a autofagia do PSD”. Passos reagiria, outra vez no Seixal, desvalorizando. “Não tenho ideia nenhuma de o Presidente da República andar a fazer guerra aos partidos nem de nenhum partido andar a fazer guerra ao Presidente da República”, afirmou o líder da oposição, que também garante não ter dado conta “de nenhuma declaração crítica do Presidente da República em relação ao PSD”.

Para Passos Coelho, as teorias de que há uma “guerra” entre a São Caetano à Lapa e o “Palácio de Belém” são “absolutamente deslocadas”. No entanto, os dois sociais-democratas têm-se recentemente desencontrado com mais evidência.

Quando Marcelo propôs uma trégua pré-eleitoral em torno dos incêndios (“Era bom que nas três semanas até às eleições autárquicas, aquela tragédia [Pedrógão Grande] não possa ser envolvida na campanha eleitoral), Passos Coelho fez ouvidos de mercador, respondeu que “é próprio de uma sociedade madura gerir com transparências estas matérias” e ainda desafiou Marcelo a pronunciar-se sobre os anúncios que o governo “não se cansa de fazer em véspera de eleições”.

“Talvez o senhor Presidente [da República] possa dizer alguma coisa sobre essa matéria. Isso, sim, seria importante, que numa democracia como a nossa, o governo se abstivesse de fazer anúncios que têm violação do dever de imparcialidade”, disparou.

Ao longo do mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa verificaram-se outros choques igualmente passíveis de destaque.

No 1.o de Dezembro do ano passado, Passos não foi a uma cerimónia de celebração e o Presidente teceu duras críticas ao governo que o PSD encabeçou entre 2011 e 2015. Marcelo considerou que o “feriado nunca deveria ter sido suspenso” e sublinhou a importância da “independência financeira e económica” e da recusa de “minimizações inaceitáveis” e “submissões” – num discurso que mais pareceu ser sobre o período de assistência financeira, quando o feriado foi suspenso, do que sobre os reinados dos Filipes, que terminaram a 1 de dezembro, mas de 1640.

Mais tarde, ainda em 2016, Passos admitira que “ainda bem que ele [Rebelo de Sousa] não é o presidente do PSD” e que a proximidade entre Marcelo e o PS só poderia ser avaliada “pelo próprio e eventualmente por quem votou nele”, ao que o Presidente da República ripostou: “Eu penso que o país, modestamente, fez uma escolha que permite a mim servi-lo, sendo Presidente de todos os portugueses, quer dos sociais-democratas, quer de todos os outros que não o são.”

Um mês depois, já neste ano, Belém e a Lapa repetiriam a desafinação, com Passos a recusar reduzir a TSU para o governo conseguir aumentar o salário mínimo, ficando Marcelo do lado do acordo que António Costa negociara em Concertação Social sem garantias de apoio parlamentar dentro da geringonça.

Chegados ao primeiro ato eleitoral desde as presidenciais que elegeram Rebelo de Sousa – as autárquicas –, a tensão não se reduziu, antes pelo contrário. Esta semana, a politóloga Marina Costa Lobo notava, num artigo assinado no “Público”, que o PS subiu nas sondagens “à custa do PSD”, tendo o Bloco de Esquerda e o PCP ficado “exatamente na mesma”.

“Se quisermos identificar o contributo político mais importante para a consolidação da confiança em Costa, temo-lo não à esquerda, mas à direita. É o Presidente Marcelo que tem sido um importantíssimo fator na aproximação dos votantes centristas (ex-PSD) a este governo”, analisou a professora universitária. “Com o seu apoio sistemático a Costa, Marcelo tem sido o maior aliado do PS”, conclui Costa Lobo.

Se, em 2021, Passos Coelho apoiará o tal “maior aliado do PS” como recandidato a Presidente da República? Dependerá, claro, da durabilidade dessa aliança. E da sua popularidade.

 

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