19/11/17
 
 
António Rodrigues 11/09/2017
António Rodrigues
Política

antonio.rodrigues@newsplex.pt

PCP, partido de governo

Jerónimo de Sousa iniciou a campanha eleitoral para 2019 pedindo um reforço nas autárquicas para a CDU. Garantir que a geringonça tem vida a longo prazo parece ser estratégia essencial para o PCP

Partido Comunista Português começou a sua campanha eleitoral para as legislativas de 2019 no dia 3 de setembro. No discurso de encerramento da Festa do Avante! Jerónimo de Sousa pediu mais votos nas autárquicas para dar peso ao PCP nas negociações do Orçamento do Estado para 2018.

O líder do PCP enumerou uma série de conquistas que este governo alcançou por influência do seu partido e falou do essencial que é aprofundá-las com ajuda comunista.

Em entrevista ao i, Bernardino Soares, o presidente da Câmara de Loures e antigo líder parlamentar dos comunistas, já tinha sido claro ao dizer que a atual solução governativa, que tão bons resultados tem conseguido em reverter algumas das políticas de direita implementadas pelo anterior governo, só existe por iniciativa do PCP.

Depois da negociação de dois OE e com um outro à porta, perante as boas novas económicas e o regresso da confiança no país com medidas populares, o grande risco que enfrenta tanto o PCP como o Bloco de Esquerda é dar de mão beijada a maioria absoluta aos socialistas em 2019.

É o grande paradigma que enfrentam os dois partidos de esquerda, o seu sucesso até ao final da legislatura pode resultar num fracasso nas urnas em 2019. A sua influência nas políticas do governo e, principalmente, na manutenção da paz social no país, vai dando popularidade a António Costa e, mesmo sem este querer, sem o PS querer, isso poderá acabar por resultar na maioria absoluta dos socialistas daqui a dois anos.

Daí que seja tão importante ao PCP conseguir ganhar mais lastro nas eleições autárquicas para forçar o PS a aceitar um OE com mais marcas comunistas que possam ser facilmente transformadas em argumentos de campanha nas legislativas. Ou, então, obrigar o PS a dizer não a algumas exigências do PCP, que possam afetar sem comprometer a atual solução governativa.

O PCP está a gostar da solução existente. Está gostar de ser governo sem o ónus de desgaste de realmente pertencer ao governo. Significa que ao mesmo tempo pode influenciar e criticar, ser a favor e do contra, alinhar ou desalinhar. Ao mesmo tempo sabe que isso acaba por lhe tolher um pouco em matéria de lutas laborais. Um preço que está disposto a pagar pela influência.

Jerónimo de Sousa explicou, no discurso da Festa do Avante!, que o PCP “tem iniciativa e tem soluções e luta por elas e que, nesta nova fase da vida política nacional, com a composição alterada da Assembleia da República e o seu peso e acrescida influência condicionadores das opções políticas, continuou a desempenhar um papel determinante nos avanços verificados na recuperação, ainda que limitada, das condições de vida do povo”.

Primeiro sublinhou a intervenção decisiva dos comunistas em conseguir que o programa do governo incluísse “três vezes mais do que estava admitido”, depois garantiu que a independência do partido se mantém apesar disso e que não há geringonça nas autárquicas (”travamos esta batalha eleitoral assumindo a identidade própria da CDU, com o nosso próprio símbolo, a nossa sigla e sobretudo com a natureza diferenciada do nosso projeto”), para finalmente terminar com apelo ao voto na CDU porque mais votos “são garantia de poder dar novos passos e avanços na resposta aos problemas do país, dos trabalhadores e do povo”.

Finalmente, Jerónimo de Sousa deixou a ideia de que não se pode confundir “a urgência da resposta imediata” aos problemas do quotidiano da vida dos portugueses com as políticas de fundo necessárias para o desenvolvimento do país. Querendo com isto dizer que esta solução governativa não pode ser uma solução efémera, mas uma verdadeira mudança.

O PCP parece ter provado o sabor do poder a nível nacional sem ter de comprometer a sua essência, as suas políticas. Embora não seja o mesmo que ser o partido mais votado, é, ainda assim, uma influência na política nacional que não conseguia desde os anos 70. Melhor que ser o farol de políticas alternativas na oposição, é conseguir realmente introduzir na política do governo algumas ideias na defesa dos trabalhadores e dos mais pobres.

A nível autárquico, o PCP há muito inventou uma coligação que lhe permite superar o ónus na cabeça dos eleitores da bandeira vermelha com a foice e o martelo e mostrar por a+b que os seus eleitos podem realmente mudar a vida das pessoas. Em termos nacionais, conseguiu agora pôr um pé na porta do poder. Há dois anos que faz parte de algo novo, de uma geringonça que mostrou ser muito mais do que prometia. Agora quer continuar a fazer parte dela.

 

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