19/11/17
 
 
Alexandra Duarte 11/09/2017
Alexandra Duarte

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De 30, de 40 e de 50 anos…

Sobre as mulheres. Diziam as nossas avós que toda a idade é bonita e que cada idade tem o seu encanto

As conversas deste verão andaram muito à volta deste assunto, talvez porque cada uma de nós quis partilhar certas curiosidades que ia experimentando, alterações que ia sentindo, enfim, mudanças que se iam verificando com alguma consciência, mas que, no dia a dia, não se dá muita importância porque achamos que é algo passageiro.

Olhando para trás, foi assim aos trinta anos. Quando fazemos trinta anos, sentimos que estamos numa fronteira em que olhamos para trás sem grande sentimentalismo ou saudade, porque quando olhamos em frente sentimos um friozinho na barriga, provocado pela expectativa de que a partir dali viveremos os nossos melhores anos, com novos desafios para concretizar ou a consolidação de alguns que já começaram. A maternidade é um deles. A questão coloca-se sempre. É incontornável. Para quem ainda não foi mãe, a pressão aumenta. Sentimos o latejar do ritmo biológico numa corrida contra o tempo.

Se for para ter filhos, que seja numa idade em que não se corram grandes perigos, em que estejamos ainda em plena idade viçosa, com fulgor físico para enfrentarmos as intempéries da maternidade que nos roubam o descanso e atiram-nos para o segundo e terceiro plano de todos os dias. Aos trintas conseguimos lidar com as noites mal dormidas, com os puxões de cabelos que se prendem nas mãozinhas papudas, com aquele beijo cheio de doce que nos obriga a mudar de roupa ou a improvisar um aspeto minimamente apresentável quando não nos sentimos assim, com as correrias infindáveis para o supermercado, para a escola, para o médico, para o parque, para a aula de música para bebés, para a natação, ballet, futebol, piano, etc…

A realização profissional é outro desafio. Procuramos a estabilidade depois de termos passado árduos e infindáveis anos a estudar, quando tudo o que apetecia era viajar, aproveitar a vida ao segundo, ver o nascer do sol, sair para dançar, estar com os amigos, mudar o mundo, adormecer ao sol na praia a imaginar como seria o futuro, dedicar tempo a uma associação (fosse qual fosse a sua natureza, mas aos vintes tínhamos tempo para tudo isso!), ver “aquela” série televisiva pela noite dentro… Aos trintas já não somos só estudantes, já temos uma profissão que nos define e que traz responsabilidades e objetivos. Queremos agarrar todas as oportunidades que surgem, para não perdermos nada, para construirmos, para continuarmos o caminho que há muito começámos, mas que ainda está no início da sua materialização.

Depois chegam os quarenta… e abate-se sobre nós a primeira nostalgia da incerteza de não saber bem o que esperar, da saída dos “intas” para a entrada definitiva e vitalícia nos “entas”, das primeiras marcas no rosto que teimam em não desaparecer mesmo depois de uma boa noite de sono, de um cansaço que vai beliscando aqui e ali, de uma vivacidade que parece não voltar, de exames médicos rotineiros porque assim tem que passar a ser, de uma dor que se instala no joelho porque, diz o médico, a corrida não é o mais aconselhável… e mais não escrevo. Acima de tudo, invade-nos a sensação de um “não retorno”, a mentalização de que estamos a deixar para trás uma parte de nós que já não volta e isso deixa-nos suspensas, inseguras, sem rede para nos amparar deste rude golpe que nos desorienta.

Mas desengane-se quem está a pensar que este momento dura muito tempo. E aqui reside a beleza dos quarenta. Aterramos de um dia para o outro nesta idade, sentimo-nos neste limbo que nos faz refletir sobre o que já vivemos e onde estamos, para, inesperadamente, o passado ser o nosso aliado do presente e a referência para o futuro. Se tivesse que definir os quarenta numa só palavra, escolheria “essência”. Trata-se de um crescimento interior que culmina com a chegada dos cinquenta. Passamos toda uma vida para alcançarmos a nossa verdadeira essência, o que nos define, sem as pulsões próprias da juventude, muito cutâneas, impulsivas e que nos distraem pelos estímulos que nos transmitem e aos quais reagimos biologicamente.

Jean Paul Sartre compreendeu este crescimento próprio do Homem, ao escrever que “a existência precede a essência”. Existimos até aos “entas” para o sermos a partir daqui. A passagem dos quarenta para os cinquenta é como se nos sentíssemos a percorrer a caverna de Platão, em direção à luz do conhecimento de nós próprias, sem que nada nos afaste dessa verdade, provocando em nós uma plenitude interior que se densifica a cada dia.

A mulher “balzaquiana” de trinta anos é, hoje, a de quarenta, a mesma que repensa a sua condição de mulher na sociedade, a que enche o seu coração de ternura, renegando a paixão, trocada que foi pela serenidade, a que olha em frente com os sulcos do passado marcados no rosto e que contam a sua história.

Aos cinquenta só poderá ser melhor, quando se alcança a luz…

Escreve quinzenalmente à segunda-feira

 

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