19/11/17
 
 
Tiago Mota Saraiva 11/09/2017
Tiago Mota Saraiva

opiniao@newsplex.pt

Sapos que não-ciganos toleram

A recorrência com que vemos sapos de loiça à porta de estabelecimentos comerciais devia-nos incomodar muito mais. Sabendo-se que na cultura cigana é um símbolo do azar, ninguém pensará que a ausência de ciganos nessas lojas seja motivada por medo que uma maldição se abata sobre as suas cabeças.

 Não há nenhum dado ou estudo que nos aponte para que esta seja uma comunidade muito mais supersticiosa que outras nas quais, por exemplo, se teme o cruzamento com gatos pretos ou a entrada em locais com o pé esquerdo.

O que provoca o bloqueio perante a presença de um sapo na entrada, é a clarificação que os ciganos não são bem vindos numa estratégia que não é diferente da de um cartaz com a inscrição: “vedada a entrada a ciganos”. Se é certo que a visualização do cartaz motivaria indignação, estamos habituados a não valorizar o racismo que subjaz à iniciativa de colocar um sapo na entrada.

O trabalho de Joana Gorjão Henriques tem-me feito entender que não há “racismos” mas racismo, o que não me impede de pensar que a forma como ignoramos a especificidade do problema cigano é terreno fértil para diferentes expressões do racismo que tendemos a tolerar.

Quantos vivem em Portugal? Há números para todos os gostos, desde os 22 mil aos 100 mil. Os ciganos raramente aparecem nas estatísticas do país. Não haverá uma grande expressão de indocumentados, quase todos os que habitam em Portugal serão cidadãos nacionais mas poucos serão os estudos em que aparecem individualizados enquanto grupo étnico. A possibilidade de recolha de dados étnico-raciais no Censos de 2021 é, por isso, uma boa notícia. Permitir-nos-á uma leitura mais qualificada e desmistificadora de muito do discurso corrente que se abate sobre os ciganos.

A partir do exemplo do sapo podemos perceber que algumas manifestações de racismo para com a comunidade cigana são socialmente aceites. Enquadrar a realidade cigana num contexto étnico permitir-nos-á encontrar a ponta do novelo de quem não nasce com as mesmas oportunidades e direitos e a quem são exigidos todos os deveres.

Escreve à segunda-feira

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