19/11/17
 
 
Marta F. Reis 08/09/2017
Marta F. Reis
Sociedade

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Das memórias

Memórias pessoais e memórias presidenciais, a propósito de alguns exercícios da semana que passou

Tenho um grande respeito pela memória. A minha não é grande coisa, surpreendo-me sempre com quem se lembra com detalhe de coisas que aconteceram há largas dezenas de anos. Ou com a minha avó e a minha madrinha, 80 e muitos anos, que sabem de cor versos que diziam em meninas. E não é um ou outro, são longas cantilenas que sobreviveram à passagem do tempo. Então com os filmes sou um desastre, quase que arrisco que nos créditos já não me lembro dos nomes das personagens. O António Rodrigues escreveu este verão no i sobre mais de 40 obras na rubrica “Drive-in” – acho que, assim de repente, não conseguia dizer 40 títulos sem recorrer às sagas, quanto mais lembrar-me da narrativa sem ter de os rever a todos. Diria que tenho uma memória mais seletiva, porque depois me lembro de coisas do dia a dia, de sensações. E às vezes dá-me aquela coisa estranha de não me lembrar de um nome ou de uma determinada expressão, mas saber claramente que começa por esta ou aquela letra.

Mas do que tenho uma certa inveja é daquelas pessoas que parecem recordar com clareza tudo o que vivem, a começar por cenas de quanto tinham três e quatro anos, às vezes até mais cedo. Sinto que ter uma grande memória é uma forma de autoconhecimento a que só algumas pessoas têm acesso – há mesmo diferenças cerebrais entre quem tem maiores capacidades deste tipo de memória autobiográfica. Puxando muito pela cabeça, e depois de já ter feito este exercício algumas vezes, as memórias mais antigas que tenho são demasiado fugazes. É que primeiro é preciso descartar do rol de recordações todas as imagens que importámos de fotografias e vídeos – tenho uma que tive de eliminar e que dá um maior desgosto: apareço numa dessas produções caseiras com cinco ou seis anos a fingir que estou a fazer um direto para a RTP e dizem-me que já queria ser jornalista, mas não me consigo lembrar. Dependendo só da minha cabeça, há apenas duas cenas nesses primórdios de mim. Lembro-me de estar a apanhar pinhões num sítio qualquer perto da casa da minha ama em Queluz – não imagino onde, pois já não há lá pinhais, e nem sei sequer se terá sido coisa de um dia ou se seria uma brincadeira recorrente. A caruma no chão, as pedras para partir os pinhões e o cheiro deles nas mãos. E depois vejo um cabide alto forrado de pelo azul com uma cabeça de pato em cima que olhava para mim no quarto da casa onde vivi até aos três anos. E é isto.

Para assinalar o Mês Mundial da Doença de Alzheimer, a Alzheimer Portugal lançou há poucos dias uma campanha com uma pergunta que me fez pensar: que memória gostaria de guardar? As demências afetam milhões de pessoas em todo o mundo e os casos tendem a aumentar, à medida que as populações se tornam mais envelhecidas. Nos EUA, estima-se que um terço dos idosos com mais de 85 anos sofram de Alzheimer. Ninguém está imune. Se pudéssemos ter a certeza de que até ao fim guardávamos uma memória, qual seria? Das memórias que consigo evocar hoje, qual escolheria? O desafio da Alzheimer Portugal é que anónimos e conhecidos respondam em vídeos com a hashtag #memoriasparaguardar, para sensibilizar para a doença e para a importância da memória nas nossas vidas. Marcelo foi o primeiro a responder e falou do nascimento dos dois filhos. Se calhar hoje responderia o mesmo – embora note que com o passar do tempo há coisas que vão ficando menos vivas, espero que aquele calor de um filho com minutos e depois horas de vida nunca se apague.

No meio desta deambulação, dei comigo a registar que o que Marcelo fez esta semana em S. José foi outro tipo de exercício de memória. Passado mais de um ano, foi homenagear os profissionais da Unidade de Neurocríticos, que junto com a MAC, fizeram tudo para que Lourenço pudesse viver apesar de a mãe não ter qualquer possibilidade de sobrevivência. “Não se esquecerem, é essa a grande finalidade desta condecoração”, disse o Presidente. Foram 107 dias de uma gestação que pareceria impossível, de trabalho de equipa, perseverança, entrega, sabedoria, humanidade, num caso único no país e muito raro a nível mundial. Um desempenho extraordinário, que merecia o reconhecimento. No seu discurso, porém, senti um lapso, que nas memórias presidenciais se estranharão sempre mais do que nas pessoais. Marcelo elogiou o exemplo, a equipa, o hospital, o SNS, mas não referiu, pelo menos em público, uma outra ocasião em que, na mesma unidade e não muito tempo antes, a medicina não foi a tempo de tentar salvar a vida de David Duarte, que passou dois dias à espera de ser operado depois de um aneurisma. O caso foi arquivado, mas a família do jovem continuará a lembrar-se e o país também.

Jornalista

Escreve à sexta-feira

 

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