19/11/17
 
 
Carlos Diogo Santos 08/09/2017
Carlos Diogo Santos
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carlos.santos@newsplex.pt

Este novo Rio de Janeiro tem os ouvidos mais treinados

Desde que cheguei foram poucas as vezes que ouvi “oi’s”. Mas isso traz uma nova exigência, que nem sempre corre bem...

Lembro-me da primeira vez que cheguei ao Rio de Janeiro, tem já uns anos. Nas ruas e nas lojas poucos entendiam o que eu dizia. Pelo menos à primeira: os “oi’s” eram constantes. Era estranho, mas passado algum tempo habituei-me. Habituei-me a que me respondessem em castelhano, habituei-me a que nos museus me mandassem para a fila do funcionário que falava inglês e habituei-me a abrir algumas vogais. O Rio de Janeiro sempre foi diferente de São Paulo e Brasília, cidades onde os ouvidos há muito que estão mais treinados para outros sotaques e mesmo para outros idiomas.

Em 2012 lembro-me mesmo de perguntar na rua uma informação a um polícia e de este me ter respondido de forma muito rápida: “Sigue por esta calle” - quase sempre achavam que era argentino.

A minha experiência é parecida com a de muitos outros portugueses e não significa que os cariocas não se interessem pelo português de Portugal ou não se esforcem para entendê-lo, bem pelo contrário. Sempre que tinha tempo para explicar que também falo a mesma língua paravam e queriam saber mais, espantavam-se com as diferenças e alguns envergonhavam-se até com o facto de não terem percebido à primeira que estávamos a usar as mesmas palavras.

O Rio de Janeiro que agora encontro está a milhas de distância daquele outro. Fez-lhe bem o Mundial de 2014 e fez-lhe bem os Jogos Olímpicos de 2016 – esqueçamos aqui as suspeitas de compra de votos para que o Rio recebesse este evento, notícia que tem dominado os notíciários dos ultimos dias por estas bandas. A verdade é que esta cidade está hoje mais aberta ao mundo e muito mais profissional na arte de receber.

Desde que aqui cheguei praticamente ainda não ouvi “oi’s”, ninguém precisa de ceder no seu sotaque para se entender. Prova de que estava certo quando defendia que não era por falta de esforço que antes não me entendiam, mas sim por falta de exposição ao exterior.

Noto que hoje os cariocas não partem do princípio que o cliente que servem ou a pessoa que os abordam na rua é brasileiro - isso é meio caminho andado.

Com esta nova dinâmica, a minha exigência tem também aumentado. Na terça feira à noite cheguei ao hotel onde estou hospedado, em Ipanema, e perguntei ao funcionário da receção se poderia chamar alguém para me abrir a garagem porque precisava guardar a bicicleta. Do outro lado a resposta foi pronta, mas enrolada e em ‘portunhol’.

- “No se como que funciona. Me deixa fazer uma llamada”.

Já quase no fim da explicação de como poderia entrar na garagem, senti que deveria sorrir e fazer uma provocação, daquelas com que muitas das vezes nem perderia tempo no passado.

-“Não precisa falar castelhano, eu também falo português”.

A exigência com este novo Rio nem sempre corre bem. Foi o caso.

- “Sim, mas eu é que não sou brasileiro, desculpe”.

 

*Estudante MBA Atlântico

 

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