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Charles Baudelaire. O poeta que pôs flores na jarra do mal e chamou para o lugar da musa uma puta

Charles Baudelaire. O poeta que pôs flores na jarra do mal e chamou para o lugar da musa uma puta

Diogo Vaz Pinto 06/09/2017 12:49

Assinalam-se os 150 anos da morte do poeta francês, e mais dez sobre a publicação do seu único livro de versos, “As Flores do Mal”, numa altura em que o desafio que lançou aos artistas do seu tempo, lança a toalha ao chão do nosso

 

Um personagem nada recomendável nos seus dias: a agudeza do seu espírito sensualista deu a Charles Baudelaire essa vantagem que amaldiçoa uns poucos homens face à sua época, mas a sua revolução foi tão convincente que só precisou esperar algumas décadas para que o mundo deixasse de lado as suas tentações menores, a começar pelo moralismo, e o acompanhasse na reinvenção da Beleza, esse “monstro ingénuo, assustador, excessivo”.

Desapareceu há 150 anos o poeta francês, autor de um só livro de versos, “As Flores do Mal” (1857), o qual esteve na origem de um tão profundo abalo sísmico que, muito para lá do campo da literatura, teve réplicas nos mais diversos campos da criação artística, de tal modo que o seu apelo não deixa ainda nos nossos dias de causar certa comoção.

Confiando nas intuições do seu génio crítico, Baudelaire soube condicionar as suas pesquisas formais de modo a revolucionar temática e estéticamente a poesia então no auge do romantismo. A carga sugestiva e alusiva dos seus versos soube combinar em imagens, ao mesmo tempo exactas e sensacionais, e carregadas aos braços de delicados movimentos musicais, um novo léxico e uma desinibição no modo de atender à realidade, sem cair em um qualquer complexo realista nem frustrar os poderes da imaginação. E, desta forma, fez da sua arte um espelho imenso para os ímpetos da modernidade - termo que ele mesmo cunhou - como mais nenhum artista foi capaz desde então. Com o entusiasmo de um colorista (e não se esqueça que ele provou os seus méritos enquanto crítico de arte), atreveu-se a misturas inauditas de sugestões, evocando a nova paisagem urbana, as sensações de uma Paris que sentia nas suas ruas o frémito da multidão, como uma droga que nas veias do poeta desencadeasse uma percepção alterada da realidade, mais veloz e dinâmica, mais violenta, contrastante, exagerada. Era perceptível, então, um corte com a natureza, com o Homem consumido pela vertigem da técnica, dos avanços científicos e do ritmo sôfrego e imparável que o capitalismo impôs. 

Baudelaire foi clarividente ao notar como a própria sensação do tempo começara a ser contaminada pelas transformações destruidoras desta segunda natureza, que emergia abolindo a outra. Já não era aceitável que a inspiração fosse deixada aos seus volúveis desígnios e inclinações, ao destrambelhamento do lirismo romântico, a sua espontaneidade tacteante não estava à altura de entender o alcance destas mudanças. Era preciso um novo rigor, uma atitude de radicalidade que permitisse enfrentar o presente e retirar as devidas consequências, e isso obrigava o poeta a ser um agente não apenas sensível, mas hiper-crítico.

A modernidade terá então de definir-se no espírito do artista como um desafio. E se a aceleração exige a lucidez capaz de identificar as subtis e velozes alterações que se vão produzindo no mundo contemporâneo, a arte só poderá estar na vanguarda enquanto for capaz de lidar com a realidade sem ficar refém desta, sem acabar a receber ditados, reduzida a uma condição mimética. É assim que Baudelaire irá exigir que não se abdique de uma narrativa épica, mas que, diante do choque entre o eterno e o transitório, os artistas sejam capazes de reagir às pulsões democratizantes dos novos tempos buscando um novo “heroísmo”, adaptado à vida moderna.

Há um novo sentido do íntimo, “o movimento da impaciência excitado pelo universo”, e os versos entram por tugúrios, têm, nas suas arcadas, putas como musas, o sórdido entre plumas, exibindo da miséria as suas glórias e elegâncias; há um fascínio tenebroso, mulheres que não querem nada com anjos, mas sabem que apertam entre as longas pernas esse ardor sensual, e lembram como a poesia não serve só enlevos celestiais, mas deita-se numa cama suja, e faz o que já fez ali mesmo com tantos outros homens, oferecendo ainda mais gosto a este que sente nisso o deslumbrante avesso da pureza.

Isto, naturalmente, obriga a uma revisão de todos os conceitos, das noções de virtude e vício, da beata subjugação a Deus, à razão e à tradição. A arte não mais poderá ser subalternizada a favor de preconcebidas ideias sobre a verdade, mas terá de assistir em si mesma ao parto de um novo olhar, uma estética tão forte que, a partir das suas dores de crescimento, funde a sua própria ética. É assim que, da vida e obra deste poeta, e mesmo nas suas contradições, irá aparecer um novo homem, um homem do mundo, das multidões, o flâneur que vai encontrar-se num modo de errar, de viver com a vantagem de saber a sua vida, de antemão, perdida.

A arte recupera assim uma função quase religiosa diante da vida, mesmo se já não importe dedicar-se a Deus ou Satanás, e a inocência se tenha tornado no verdadeiro pecado. As antigas oposições não passam já de figurações exaustas, incapazes de compreender a ductilidade entre o Bem e o Mal, agora dependentes um do outro, do mesmo modo que a Beleza é forjada tantas vezes de um compromisso entre os dois, do gesto de um reflectido na pele do outro. Ou como Rilke notou: “Somente o poeta juntou as ruínas/ de um mundo desfeito e de novo o fez uno./ Deu fé da beleza nova, peregrina,/ e, embora celebrando a própria má sina,/ purificou, infinitas, as ruínas:// assim o aniquilador tornou-se mundo.”

E entre as inúmeras repercussões e continuações da obra de Baudelaire não faltam exemplos eloquentes de como vingou, até nos poetas mais fingidamente arreigados a uma concepção telúrica da poesia, esse rasgo de indisciplina que dilata os sentidos e abandona o estático pelo que é transitório. Como escreveu o poeta brasileiro Manoel de Barros: “Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras./ Sou formado em desencontros./ A sensatez me absurda./ Os delírios verbais me terapeutam./ Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo)./ (E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)/ As antíteses congraçam.”

Tendo passado apenas tempo desde as leituras mais veementes sobre este novo mundo, já distante da sua infância, hoje parecemos ser todos sujeitos de uma ordem que se nos impõe, e dita ao Homem o que se espera dele e os limites da sua vontade, e foi mais por inércia que se fez um movimento que, ilusoriamente, parece superar a proposta da modernidade. Assim, tantas vezes o pós-modernismo soa mais a uma declaração de vencido da parte de uma intelectualidade que constantemente se vitimiza, se sente ineficaz face aos imperativos da economia e do capitalismo de consumo, que, nesta era da reprodutibilidade técnica, aniquila tudo e mesmo o que diz respeito à cultura e à arte, traduzindo tudo em mera informação.

Esta incapacidade de assumir o desafio que Baudelaire lançou, o de estar à altura dos desafios tão particulares quanto prementes do presente, presume contudo ter adquirido o génio da sua análise, e no entanto, como Silvina Rodrigues Lopes deixa claro em “Literatura, Defesa do Atrito” (edições Vendaval, 2003), talvez nunca como hoje tenhamos estado tão longe da demoníaca lucidez com que Baudelaire baralhou e voltou a dar as cartas no campo artístico, redefinindo o papel e a responsabilidade do criador: “Há uma tendência daquilo que se apresenta como pós-modernismo que é importante indagar de perto: trata-se da adaptação de grande parte daqueles que se apresentam como escritores às condições institucionais dominantes e ao mercado, o que significa que não produzem senão simples objectos de consumo, ao nível de qualquer outro artigo de supermercado. Essa adaptação vem negar a anti-institucionalidade (que não é apenas característica do modernismo, mas daquilo que, na sequência de Baudelaire, se designa como modernidade literária) em nome da acessibilidade da literatura, e de outros tipos de discurso, ao grande público, o que corresponde à negação máxima de qualquer dimensão inconformista. Aquilo a que se chama “grande público” só pode ser composto por gostos esclerosados, pelo que há de mais resistente à mudança, e por conseguinte pelo que há de mais anti-artístico, a negação do movimento. Aquilo que se destina ao grande público é a espectacularização, que esteriliza ao colocar a diversão como substituta da estranheza, tornando-se eficaz na relegação do humano para o nível mais triste da vida animal - a domesticação”. 

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