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Rocco Morabito. Como se tratou o "rei da cocaína"?

Rocco Morabito. Como se tratou o "rei da cocaína"?

Félix Ribeiro 05/09/2017 20:02

Um dos cinco mais procurados mafiosos italianos e o homem que pode liderar a Ndrangheta tramou-se na inscrição escolar da filha. A mulher, com passaporte português, ajudou.

Rocco Morabito chegou ao fim da longa linha que foram os 23 anos da sua fuga.

O mafioso italiano – que herdou do pai o nome e a vocação – foi capturado este fim de semana a mais de 11 mil quilómetros de casa e de onde ganhou a fama de ser o “rei da cocaína”, por ter engendrado rotas de entrada no mercado europeu para droga vinda da América Latina. E foi lá que as autoridades o encontraram, no Uruguai, não no hotel central de Montevideu que avançavam vários meios de comunicação no sábado, mas num resort a 150 quilómetros da capital, onde cometeu o último deslize da sua longa fuga.

Tinha consigo uma pistola de 9 mm, 150 fotografias de tipo passe em que surge com vários disfarces, uma faca e 13 telemóveis. Tudo razões que levam a investigação a afirmar que Rocca Morabito operou até ao fim com a poderosa Ndrangheta, a grande máfia da Calábria que por estes dias disputa com a Cosa Nostra o título da mais influente, próspera e violenta.

Quase se pode dizer que foi a mulher que tramou Rocca Morabito. Ou, melhor, o que o tramou foi uma discussão que os dois tiveram no sábado, que levou Morabito a dar entrada no resort onde foi capturado no sábado – a mulher, Paula Maria de Oliveira Correia, é angolana, tem passaporte português e foi igualmente detida. A investigação internacional que o mantinha debaixo de olho – e pensava que vivia no Brasil – foi alertada assim que usou o passaporte brasileiro falso e o nome igualmente fabricado de Francisco Capeletto Souza no hotel.

“Ele não ofereceu resistência”, conta um investigador, Emilio Russo, em declarações ao britânico “Telegraph”. “Começou por negar a sua verdadeira identidade, mas acabou por admiti-la quando o colocámos sob pressão”, explica, dizendo que a detenção é o concluir de “meses de cooperação internacional intensa”. Espera-se a sua deportação para Itália esta semana.

Deslize fundamental

A zanga com a mulher e a entrada no resort de férias foram o deslize final de Rocca Morabito, que até este fim de semana era um dos cinco homens mais procurados pelas autoridades italianas e de quem se diz que poder ser até o líder da Ndrangheta.

Mas houve um deslize anterior, fundamental para a captura, e que só parece ter surgido ao fim dos 23 anos de fuga – primeiro para o Brasil, onde conseguiu a identidade falsa e se reencontrou com Paula, e depois para o Uruguai, onde parece ter passado os últimos 15 anos num bairro de luxo e sob a fama de empresário bem-sucedido.

Esse deslize deu-se há apenas algumas semanas, no momento em que Morabito inscreveu a filha num colégio e insistiu em dar-lhe o seu verdadeiro apelido.

Erro crasso do capo da Ndrangheta e golpe duro naquela que por estes dias pode muito bem já ser a mais poderosa organização criminosa italiana, em plena ascensão desde a década de 80, quando começou a alastrar as suas operações e a abandonar a fama de organização rural.

Já não o era certamente em 2013, ano em que se pensa que o grupo criminoso pode ter encaixado receitas maiores que as da McDonald’s e do Deutsche Bank somadas – rondariam, segundo um estudo italiano, os 53 mil milhões de euros.

De acordo com esse mesmo estudo, realizado pelo instituto Demoskopika, só o dinheiro do tráfico de droga chegou nesse ano a cerca de 24 mil milhões de euros, para não falar das operações de extorsão, usura, branqueamento de capitais, jogo clandestino, tráfico de armas e pessoas.

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