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Palácio Baldaya. Um dote a Lisboa

Palácio Baldaya. Um dote a Lisboa

Mariana Madrinha 04/09/2017 22:20

A freguesia de Benfica, em Lisboa, recebeu de presente um novo espaço multicultural, o Palácio Baldaya, dote de casamento da fidalga com o mesmo nome. O palacete que agora é bem mais do que isso abriu portas na sexta-feira

Quem por ali passava não dava nada por aquele edifício antigo, de uma cor indefinida que não fazia mossa na memória. E muito menos percebia que, nas costas da casa antiga, um jardim meio emaranhado oferecia uma quietude singular numa zona cheia da azáfama de todos os dias como é a Estrada de Benfica, em Lisboa. Há umas semanas, a discrição deixou de fazer parte da construção à beira do Chafariz quando um azul intenso, que faz lembrar os frisos alentejanos, foi atirado sobre as paredes. E à medida que Rui Ferreira, ou RAF, foi pintando na fachada a sua interpretação de D. Joanna Baldaya, as romarias ao antigo palácio – onde durante mais de cem anos funcionou o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária (antes disso ainda foi um hotel) – aumentaram de dia para dia.

Sob o nome da antiga proprietária, o Palácio Baldaya, pertíssimo da igreja de Benfica, abriu portas na passada sexta-feira como um espaço multicultural e primeiro esquisso de uma biblioteca há muito pedida numa freguesia que conta com 12 mil alunos e 37 mil habitantes.

Dote

Antes de falarmos do futuro, comecemos pela raiz do passado que, neste caso, remonta a 1840, ano em que D. Maria Joanna de Baldaya recebe como dote de casamento o palácio, “parte do que era conhecida como a Quinta do Desembargador”, conta Inês Drummond, autarca de Benfica. A figura de D. Joanna ficou esquecida nos anais da História mas, a par da abertura do palácio ao público, está a ser redescoberta – haverá inclusivamente uma exposição sobre ela nas renovadas instalações. Até morrer, em 1859, viveu no palácio que legou a herdeiros. Sabe-se que não quis adotar o nome do marido – costume pouco comum à época – e que nos escritos da paróquia deixou ordens para que os “meninos e meninas que trabalhavam na quinta” recebessem a instrução primária, explica a presidente da Junta. Assim, em memória da primeira proprietária, o novo espaço multicultural de Benfica leva o nome na grafia antiga: Baldaya.

As obras iniciaram-se em novembro do ano passado, tendo o edifício passado da Estamo para a Câmara de Lisboa e, seguidamente, para a Junta de Freguesia de Benfica, que investiu cerca de 400 mil euros para renovar o espaço. O projeto foi realizado por trabalhadores da casa e também voluntários da freguesia, que se revelaram uma ajuda preciosa quando o local foi vandalizado durante a noite, a precisamente uma semana de abrir portas. Logo após os atos, cerca de 30 voluntários de todas as idades arregaçaram as mangas para que a abertura tivesse lugar na data prevista, 1 de setembro – e assim foi.

O i visitou o espaço dois dias antes da abertura e os sinais grosseiros pintados a tinta escura já tinham sido apagados das paredes, mas estavam presentes na memória da equipa que se desdobrava nos últimos retoques. “Esta porta estava toda pintada”, diz a autarca enquanto nos guia pelas salas do palacete onde vai funcionar uma ludoteca, uma cafetaria, um centro de cowork com 24 postos de trabalho. Há ainda espaços para concertos – que também podem decorrer no jardim – e exposições. Também o projeto “Memória Ativa Sénior” terá ali ‘quarto’, bem como a Associação + Benfica. De resto, continua a autarca, ideias não faltam para que o “palácio ganhe vida própria”. “O programa cultural está a ser construído também com base em sugestões da população. Teremos tertúlias, chás dançantes, aulas de arte urbana, uma academia de código [programação] para crianças”, enumera.

Já a cafetaria terá o bónus de uma esplanada no jardim que a junta tentou manter com a mesma matriz dos últimos cem anos. Ali, há algumas árvores classificadas, mas Inês Drummond e os funcionários envolvidos no projeto assinalam como preferidos dois arbustos japónicos.

E se ao artista plástico RAF coube imaginar e pintar D. Joanna Baldaya – que saiu ruiva –, o azul que nos chamou no início tem uma explicação mais prática. “Quando começámos as obras encontrámos quatro cores nas fachadas: branco, amarelo, cinzento e verde-água”. Este azul com cheiro a sul e a Arte Nova, ajudado pelos frisos de ferro forjado restaurados, acabou por ser um quase tropeção nessa paleta toda junta.

 

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