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‘O ressabiamento’ de Cavaco Silva

‘O ressabiamento’ de Cavaco Silva

Miguel Silva António Rodrigues 02/09/2017 14:36

Cavaco voltou à vida política para tecer duras críticas a Marcelo, mas a imagem que passou mereceu reparos dos analistas.

«Infelizmente [para Cavaco], a imagem que fica deste tipo de intervenção é o ressabiamento». Quem o diz é António Costa Pinto, investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que considera o discurso do ex-Presidente durante a aula dada na universidade de verão do PSD como «um ataque a Marcelo».

Para Nuno Garoupa, professor de Direito na Universidade do Illinois, Estados Unidos, trata-se de um «infeliz episódio» onde Cavaco Silva seguiu o «infeliz precedente» de Mário Soares ao criticar um Presidente em exercício. «Fica mal a um ex-Presidente criticar o atual Presidente e o atual Presidente responder a um ex-Presidente», acrescenta.

Perante a natureza do discurso, há uma questão que se coloca: será que Cavaco Silva tenciona manter uma vida política ativa? Costa Pinto relembra que «os ex-Presidentes da República que já não têm carreira política têm primado pela grande moderação e parcimónia nas suas intervenções», dando como exemplo Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, que abdicaram da carreira política depois de saírem de Belém. «O único que pode ser comparado sobre este ponto de vista é o doutor Mário Soares, mas esse teve ainda uma longa carreira política.»

Nuno Garoupa relembra a atitude «duramente» crítica de Soares  durante o mandato de Cavaco Silva, mas ressalva que entre Marcelo e Cavaco «não foram críticas diretas, mas sim indiretas» e que «não beneficiam nem um nem outro».

Sobre a possibilidade, remota, de um regresso de Cavaco à vida política ativa, Nuno Garoupa não especula: «Isso tem de ser perguntado ao próprio». Costa Pinto considera que «Cavaco Silva não vai voltar à vida política», lembrando que é raro haver um Presidente da República a exercer funções com perto de 90 anos na maior parte das democracias.

Mas não foram só as críticas a Marcelo que marcaram a aula do ex-Presidente da República. O próprio discurso de Cavaco Silva foi «curioso» para Costa Pinto. «O mais interessante é o caráter extemporâneo da fraseologia utilizada, porque este não é o Cavaco que habitualmente a sociedade portuguesa ouviu.» E «se não estávamos habituados a este tipo de discurso por parte de Cavaco Silva também não estávamos habituados a uma resposta tão contida de Marcelo Rebelo de Sousa», afirma Costa Pinto e acrescenta que o atual chefe de Estado foi «prudente e moderado» no que_respondeu. «Se os sucessivos Presidentes da República não têm respeito naquilo que dizem uns dos outros em termos de forma e conteúdo, acabam por não se fazer respeitar pelo povo», afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

No entanto, para Nuno Garoupa, «o Presidente Marcelo simplesmente não deve responder», porque obriga a um «esforço adicional para que as suas palavras não possam ser interpretadas como uma crítica direta ao antecessor». Já Costa Pinto assume que esta é «a resposta do atual Presidente da República com um futuro político à frente perante um ex-Presidente da República que no fundamental terminou a sua carreira política». E remata: «Em princípio, os vitoriosos são misericordiosos com quem já terminou a sua carreira».

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