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Veneza. Paul Schrader apresenta o primeiro grande filme desta edição

Veneza. Paul Schrader apresenta o primeiro grande filme desta edição

Jornal i 02/09/2017 12:49

Alexander Payne tenta encolher os problemas ambientais em “Downsizing”, mas acaba por ser Paul Schrader quem enfrenta a questão de frente, no pungente e mais conseguido “First Reformed”

Já na abertura da secção Horizontes Susanna Nicchiarelli havia deixado boas indicações em “Nico, 1988”, sobre os derradeiros anos da carreira da famosa artista e compositora Nico, bem como a argentina Lucrecia Martel, no histórico “Zama”, com fotografia do português Rui Poças e coprodução de Luís Urbano, exibido fora de competição. Entretanto, tivemos também a primeira experiência de realidade virtual em Veneza, e logo com “The Deserted”, do peso pesado Tsai Ming Liang, entre outros.

Alexander Payne abriu o festival com um novo chamariz para os Óscares chamado “Downsizing”, em que o pânico da sobrepopulação acaba resolvido com uma certeza chamada miniaturização humana. Só que aqui não há o tom da comédia do final dos anos 80 “Querida, Encolhi os Miúdos”, mas antes algo mais brando, ainda que igualmente mainstream, ao empacotar as crises globais numa fórmula reduzida preparada para oferecer as novas perspetivas de um sonho americano talvez ainda maior. Ou seja, a tendência para a “bolha” ou o tal sonho desmedido de todos serem milionários, em que entra Matt Damon, em mais um retrato da middle America, de onde Payne se recusa a sair e, afinal de contas, de onde tem surgido toda a sua veia criativa em personagens sensacionais.

A mais sensacional é mesmo a vietnamita sem papas na língua e determinada interpretada por Hong Chau, que faz de mulher-a-dias de armas e rouba todas as cenas em que entra, embora já a viver na modalidade reduzida, e que haverá de mudar a vida do homem (Damon) desencantado pela sua escolha, culminando mesmo com a frase do filme: “Que tipo de sexo fizemos?”. Christopher Waltz volta a ser peça de impulsão de humor, agora como o sérvio Dujan, sempre preparado para fazer uma festa e ganhar algum dinheiro no processo, mesmo que ausente de qualquer justificação na trama. O mesmo se passa com o igualmente incorrigível, ainda que sempre delicioso, Udo Kier, a formar um duo com Waltz para espevitar ainda mais as cenas em que entra.

Apesar de Alexander Payne iniciar esta utopia ambiental de uma forma aligeirada criando um foco de humor ao encolher o problema com esta versão de seres humanos de 15 centímetros, acaba por nos tirar o tapete quando avança para todos os contornos sociais e respetivas contradições do sistema, culminando mesmo numa idílica mensagem ambiental.

Mesmo que “Downsizing” não se aproxime das suas obras mais conseguidas, como “As Confissões de Schmidt”, “Sideways” ou “Os Descendentes” – apesar dos americanos do “Hollywood Reporter” considerarem que se trata do melhor Payne – não deixa de revelar o seu lado emergente, sobretudo quando equacionamos uma comunidade global, embora reduzida a uma escala de bolso. Ainda assim, dificilmente saímos fora da referência ao “Truman Show”, de Peter Weir, que apesar dos quase vinte anos ainda mantém a sua frescura e atualidade.

 

Um filme da era de Trump

A surpresa do dia veio mesmo de “First Reformed”, a evocação espiritual e ambientalista de Paul Schrader, naquilo que poderá muito bem ser visto como um reflexo ou o oposto da personagem de Travis Bickle, de “Taxi Driver”, embora tocado pelas relações perigosas entre os grandes conglomerados e as organizações humanitárias ou religiosas. Ethan Hawke é sólido na figura do padre Toller, ele que também fora pai até lhe morrer o filho que encorajara para se alistar nas forças armadas. Agora dependente do álcool, dedica-se a escrever um diário de pensamentos explícitos durante um ano, antes de o destruir. Uma prestação robusta de Ethan Hawke, talvez uma das suas melhores prestações, que pode ganhar em Veneza a dimensão capaz de chegar aos prémios da Academia de Hollywood.

As suas convicções acabam por ser afetadas pela troca de impressões com um ambientalista radical que se recusa a ver nascer a filha num mundo condenado a prazo. Pelo meio, o conflito silencioso com a mulher deste (Amanda Seyfried), igualmente religiosa, que deseja ter a criança e que pede ajuda ao padre.

Schrader toca de novo notas altas por desenvolver um guião que assume ter sido impulsionado depois de um jantar em 2013 com o polaco Pawel Pawlokowski, o autor de “Ida”, e de concretizar o seu projeto espiritual a germinar na sua mente há meio século.

“First Reformed” é um filme de fé, dos seus limites, mas também dos conflitos dos homens. Talvez por isso a opção de uma estrutura formal muito marcada, em que a câmara serve de testemunha (de confessor?) aos dilemas que assaltam estas personagens. Seguramente, um filme destes tempos, seguramente da era Trump, em que o aquecimento global é considerado como um incómodo não integralmente provado.

 

Nico e os outros

A secção Horizontes começou com o ritmo rouco e descompensado de Nico, a artista e singer-songwriter já perto dos 50 anos, em “Nico, 1988”, o terceiro filme da italiana Susanna Nicchiarelli, com a prestação de entrega total da dinamarquesa Trine Dyrholm, que vimos ainda o ano passado em “A Comuna”, exibido na competição festival de Berlim.

Este é o filme biográfico que rejeita essa qualificação. Desde logo porque aborda uma fase da artista em que tentava afirmar a sua persona e superar a etiqueta dos Velvet Underground, em que pouco mais fazia que fazer coros e tocar pandeireta. “Quero falar da música que faço hoje e não do passado”, diz, tal como muitos outros artistas (ou atores), cuja carreira os cristalizou nos seus melhores momentos. Da sua dependência de heroína à atribulada digressão europeia, o retrato de uma artista, já não enquanto jovem, mas nos seus derradeiros anos, antes de morrer no ano do título com um acidente de bicicleta.

Por fim, Lucrecia Martel com “Zama”, o tal filme histórico que a realizadora argentina, autora de “La Cienaga/O Pântano” e “A Mulher Sem Cabeça”, procura explorar o passado com um alerta particular pelos pormenores. Sobretudo, todo o tecido sonoro do filme que serve como um universo a parte. De resto, como Rui Poças, o diretor de fotografia do filme nos havia confirmado em entrevista em Locarno.

De certa forma, os homens acabam por ser superados por esta força da natureza, que evoca também todo essa destruição cometida em nome do progresso e que aqui junta brasileiros e argentinos numa aventura próxima de Werner Herzog, sobretudo em “Aguirre”, “Cólera de Deus”, ou talvez até mais do compatriota argentino Lizandro Alonso, em “Jauja”. Só que ao contrário destes dois exemplos, existe uma unidade emocional e narrativa que em Zama se revela mais difícil de concretizar.

 

Uma parceria Jornal i / www.insider.pt

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