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Carlos Carreiras 30/08/2017
Carlos Carreiras

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O furacão, Houston e nós: e as cidades portuguesas estão preparadas?

A primeira, e mais óbvia, dimensão da resiliência é a capacidade das cidades sobreviverema desastres. Sejam eles originados por causas naturais (tufões, terramotos, tsunamis)ou por intervenção humana (terrorismo, incêndios ou acidentes com infraestruturas)

Houston é a quarta maior cidade dos Estados Unidos. Tem grandes universidades e uma economia fortíssima, assente nos setores energético, tecnológico e aeroespacial. Tem entrada direta no ranking das “Global Cities” da AT Kearney para as cidades mais tolerantes, prósperas e poderosas. Mas mesmo uma cidade de elite não está blindada contra as maiores catástrofes naturais. A passagem do furacão Harvey, a mais violenta tempestade em território americano na última década, deixou boa parte da cidade texana debaixo de água e obrigou à evacuação de 30 mil pessoas. Os especialistas estimam que o custo para a economia seja de 40 mil milhões de dólares. A capacidade de Houston reagir a esta emergência, repor a normalidade nas redes de abastecimento e na prestação de serviços da cidade, apesar da dureza dos desafios que enfrente, é crucial. Mais do que resistir ao choque, importa saber como é que se recupera dele. A isto se chama resiliência.

A resiliência das cidades é um tema chave no planeamento urbano no século XXI pela sua importância e abrangência. Percebendo isso, em 2010 as Nações Unidas lançaram a campanha “Making cities Resilient: My City is getting ready!” com o objetivo de reduzir o risco de catástrofe no quadro 2015-2030. Mas em Portugal o tema não tem ainda a devida atenção política e mediática. Já lá irei. Antes disso, importa afinar o conceito de resiliência nas suas dimensões.

A primeira, e mais óbvia, dimensão da resiliência é a capacidade das cidades sobreviverem a desastres. Sejam eles originados por causas naturais (tufões, terramotos, tsunamis) ou por intervenção humana (terrorismo, incêndios ou acidentes com infraestruturas). Acresce que a resiliência das cidades é testada, em câmara lenta, por outro tipo de riscos económicos e sociais. A desertificação e o mau planeamento urbano, a recessão demográfica, a degradação infraestrutural e ambiental, as bolsas de marginalização social e a segurança pública, o mercado de trabalho e os choques tecnológicos, o nível de engajamento cívico, são tudo fatores que testam a capacidade de sobrevivência de uma cidade. Mais uma vez, como o exemplo americano mostra, a cidade que mais perto esteve do abismo não foi Nova Iorque (com os atentados do 11 de setembro), nem Nova Orleães (na ressaca do Katrina): foi Detroit pela disfuncionalidade causada pela mistura explosiva de desemprego, mau governo, criminalidade, ausência de redes comunitárias e de poderes públicos visíveis.

Isso leva-nos à segunda dimensão da resiliência: uma cidade resiliente não é só a que está pronta para proteger os seus cidadãos no embate com os imprevistos; cidade resiliente é a que depois do momento choque volta para assumir as funções do Estado Local. Cidades com comunidades ativas, com redes de confiança bem cerzidas entre os poderes públicos e privados, conseguem sair mais facilmente das situações de stress.

Voltando à resiliência no nosso país: saiba o leitor que das duas mil cidades no mundo consideradas resilientes apenas 25 são portuguesas. Uma delas é Cascais. O que isto significa é que apenas oito em cada cem cidades portuguesas estão preparadas para reagir em situações de catástrofe como as já mencionadas – e às quais o nosso país é sensível. É preciso mudar este estado de coisas. Proteger as pessoas e os seus bens, os nossos recursos e patrimónios, é a primeira e mais importante missão de qualquer eleito para órgãos de comando político. Que 92% das autarquias do país não tenham reunidas as condições consideradas adequadas em cenários de crise, é um dado que deve merecer a maior preocupação.

Desafio, por isso, todos os autarcas e candidatos a colocar a resiliência das cidades como prioridade política.

Cascais, de acordo com os especialistas, é resiliente por ter feito coisas bem feitas: informação, planeamento e prevenção.

Apostou na informação pública. Tomando como princípio de que a segurança começa na capacidade de reação de cada individuo, quisemos ter em cada cidadão o primeiro agente de proteção civil.

Planeou muito. Todos os principais documentos orientadores estratégicos do município (como o PDM ou diversos Planos Municipais de Emergência) refletem opções que apontam no sentido da resiliência da cidade e da proteção das pessoas.

E fez ainda mais prevenção. A gestão florestal faz-se 365 dias por ano, equiparam-se as forças de proteção civil com os meios adequados, criaram-se redes próprias de comunicação e sistemas pioneiros de alerta de Tsunami às populações. Em cima disto tomaram-se medidas que visaram a criação de uma ampla cidade resiliente, com uma economia resiliente numa sociedade resiliente.

Já no próximo dia 13 de setembro, na Casa das Histórias Paula Rego, Cascais e mais 24 cidades portuguesas vão ser distinguidas pela ONU com o “Certificado de Cidade Resiliente”.

Isso não significa que estas 25 cidades fiquem imunizadas contra a má sorte. Significa, isso sim, que quando os acidentes acontecerem, elas estarão mais preparadas para os enfrentar e defender as suas populações.

Por isso é que a resiliência deve ser um objetivo não de 25, mas de 308 câmaras do país.

 

Escreve à quarta-feira

 

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